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Full text of "Caçadas portuguezas: paizagens, figuras do campo"

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ZACHARIAS D'AÇA 


Caçadas 
Vortuguezas 


: Paizagens — Figuras do campo 


LISBOA 
Secção Editorial da Companhia Nacional Editora 
ADM. — Justino GUEDES 
Largo do Conde Barão, 50 
1898 


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DEC 1 9 1887. 


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DUAS PALAVRAS 


AF correr mundo este livro. Largando-o das mi- 

nhas mãos, faço votos para que elle não nau- 
frague no mar — umas vezes encapellado, outras ve- 
zes morto —da publicidade. Não arvora bandeira de 
facção litteraria, não lhe puz divisa, e, apesar do es- 
trondear da fuzilaria, não vae a conquistar: mas o 
titulo diz que o anima o espirito da nossa terra — 
fala de coisas portuguezas. 

De tigres e leões poderia eu contar historias tra- 
gicas e horripilantes, mas nunca me defrontei com 
elles, e não me seduz o papel de chronista incon- 
sciente de alheias proezas. O que se contém n estas 


"paginas são as minhas impressões dum mundo, 


muito proximo de nós, mas de que, quasi todos os 
que escrevemos, andamos muito alheiados —o mun- 
do dos campos. 


LO) DUAS PALAVRAS 


Os capitulos todos d'este livro — afora dois ou 
tres — são capitulos da minha vida, e quando os re- 
cordo, alegra-se-me ainda o coração. E signal certo 
de que foram dias bem passados, é que ainda não 
se me apagou da memoria o sol, que os alumiou. Sol 
que brilha no passado, sol poente hoje para mim'!... 
Mas as nuvens, que elle doirava nas suas phantas- 
ticas evoluções, eram brancas e transparentes; fugi- 
tivas, como os sonhos da mocidade, não faziam man- 
chas no céu, como tambem não me deixaram som- 
bras na vida. 

De quantos dias ella se compõe, estes de que aqui 
falo, e poucos mais, são os unicos que eu quereria 
reviver. Porque — não to direi, leitor amigo, se não 
és caçador, que não me entenderias, e aos que me 
podem entender não é necessario explicar-lh'o. Os 
enthusiasmos e os arroubos da paixão só os com- 
prehende bem quem já os experimentou. 

Do nascer ao pôr do sol sentimo-nos outros — es- 
tamos em contacto intimo e constante com a natu- 
reza. O corpo e a alma teem a consciencia, e estão 


no pleno exercicio de todas as suas faculdades, de 


todas as suas energias; manifestam-se, desenvol- 
vem-se, sem pelas, nem constrangimentos. Alegra-se- 
nos a alma espraiando a vista pela paizagem, e essa 
alacridade . sente-a tambem o corpo, recebendo, em 
cheio, as ondas d'esse banho enorme de luz; aspi- 


DUAS PALAVRAS 7 


rando, a plenos pulmões, as largas correntes do ar 
puro e oxigenado dos campos e das norestas. 

Ha em todos nós alguma coisa do selvagem, um 
resto do homem primitivo, e esse, antes de tudo, 
foi cacador — preou, como quasi todos os animaes. 
O cimilisado, com requintes de trajo, de mesa, e de 
habitação, invenções de artes e sciencias, esse fez-se 
depois — é obra do tempo. Os historiadores relega- 
ram o primitivo para os primordios da historia, e 
parece-nos, ao lel-os, que o troglodyta lá ficou se- 
pultado nas suas cavernas. Mas não — elle vive, e, 
dentro de nós, como o escravo dos triumphos roma- 
nos, vencido e agrilhoado, veiu-nos acompanhando, 
assistindo e resistindo a todas as civilisações. E elle 
quem faz os caçadores —e é esta a philosophia da 
caça. 

É basta de prefacio e de philosophias. que me po- 
deriam levar longe, e fariam effeito contrario no lei- 
tor, que me deixaria ir— sem me acompanhar. 

Individualidade complexa, esta do caçador tem algo 
do soldado, do viajante, do aventureiro e do artista. 
De tudo isto parece-me que o leitor encontrará al- 
guns reflexos e vislumbres nas paginas d'estas nar- 
rativas. Quadros, scenas, paizagens, marinhas, figu- 
ras — tudo é desenhado ou esbocado do natural, com 
excepção da Tragedia na caca, que me foi contada 
por testemunha presencial, que não figura no lance, 


trabalho. 
“ale. anos 


4 de junho de 1898. 


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Bulhão Pato 


Poeta — Pintor do mar — Sportsman 


. 


larmente dotados pela natureza, podemos di- 
” zer que o decorrer do tempo, os baldões da 
ida, os assaltos da má fortuna, a inconstancia da 
arte, todo este mar revolto do mundo, o affrontam 
les com o olhar sereno, e o animo impavido. Nesta 
rtuosa navegação, com a experiencia de tantos nau- 
agios — os proprios e os alheios — elles são como 
sses grandes navegadores que, a despeito dos ven- 
)s, dos mares, e dos homens — ainda peores inimi- 
os, não desconfiam da sua estrella, e conseguem 
hegar ao porto do seu destino! 
São estes .os poetas de raça, os verdadeiros poe- 
1s: para estes não ha annos de prosa. Cantam na 


o certas organisações poeticas, espiritos singu- 


IO CAÇADAS PORTUGUEZAS 


mocidade, na primavera qa vida; cantam no estio; 
o outono illumina-os, doira-os com os tons meian- 
colicos da saudade, e o inverno da vida-dá-lhes uma 
serenidade altiva, a tranquillidade das altas regiões 
espirituaes, em que a alma, sempre viva e lucida, 
na sua constante evolução, alheiada das paixões ter- 
renas, como a chrysálida vae-se transformando, para 
se abrir em novos mundos! 

A esta privilegiada familia, a esta aristocracia in- 
tellectual, pertence Bulhão Pato. Todos o conhecem, 
todos o sabem; não é isto novidade, que precise de 
demonstração. 

Neste logar não falaremos especialmente do 
grande escriptor, das suas altas e finas qualidades 
de prosador e de poeta. Aqui as lettras não são de 
certo nem extranhas, nem malvindas, mas nos cam- 
pos soam mais do que os accordes da lyra as trom- 
pas e o vozezr dos caçadores. 

O auctor da Paguita e do Livro do Monte — o 
seu ultimo e precioso livro — não é um escriptor se- 
dentario, não é um poeta de gabinete, inventando 
sensações, compondo com sentimentos imaginarios 
situações em que nunca se encontrou; não, e os seus 
livros — poemas, narrativas, cantos, e satiras —a 
sua prosa e a sua poesia, são obras vividas: estão 
alli os personagens, as scenas, os episodios, os lan- 
ces do drama da sua vida; são aquelles o céu, as 
terras, os mares, os homens e as mulheres, que elle 
viu. que elle conheceu e que elle amou. 

Alma curiosa e sedenta de impressões, não se li- 
mitava a gosar dos encantos do mundo das salas; 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 8] 


e elle saía d'um baile e partia para uma caçada, 
e dahi para uma larga digressão pelas nossas pro- 
vincias, ou ia-se de foz em fóra até á ilha de S. Mi- 
guel, à Hespanha ou á Italia, com um verdadeiro 
prazer; e não era necessario que nol-o dissesse, por- 
que bem se lhe via no rosto, que o sentia. 


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São esplendidas de verdade as suas paizagens; com 
um toque ou dois dá-nos o artista a impressão do 
mundo real, e estamos vendo e ouvindo os seus al- 
deões, os seus rusticos. Os seus olhos fixam e gra- 
vam em si para sempre os movimentos, os gestos 
dos animaes —os da terra e os do ar, e os aspectos 
da natureza. As grandes scenas maritimas, as largas 
paizagens oceanicas que elle nos pinta — não digo 
descreve — na Paquita, são obras-primas, quadros 
agitados, em que o turvar da atmosphera, o assobiar 
do vento nas enxarcias, o fuzilar do raio e o estalar 
do trovão, teem tal certeza nos traços, tal viveza no 
colorido, que, quando os lemos, como que nos acon- 
chegamos no gabinete, tanto a realidade da descri- 
 pção do tremendo espectaculo se impõe ao nosso 
espirito! 

No mar está o poeta no seu elemento. Nos mo- 
mentos solemnes, em pleno vendaval, no mar dos 
Açores, quando os passageiros recolhiam aos beli- 
ches, e no convéz só se viam os homens da faina 
com as suas japonas e os seus nordestes breados, 


T2 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


eu vejo, na minha imaginação, na pôpa do vapor, 
quatro vultos, os dois homens do leme, o capitão 
Telles Machado, velho lobo do mar, e Bulhão Pato. 
É tudo a postos... Que um temporal naquelles ma- 
res é de tremer! Os naufragios são, ás vezes, às du- 
zias, quando o vento se levanta, e as ondas se enca- 
pellam naquellas costas! 

Era ahi que o poeta recebia a impressão directa 
do grandioso e medonho scenario das formidaveis 
tragedias do mar! 

Os originaes dos seus quadros viu-os o grande ar- 
tista bem de perto de dia, e mais temerosos ainda 
de noite! E com que alto estylo elle os pintou! 


Quando o mar, de improviso, se encapella, 
Quem nesse instante acorda, julga um sonho, 
Horrivel sonho, o assalto da procella! 


A faiscar, em virotões, O raio! 
Ribombava o trovão, inda distante: 

O sol. açafroado e de soslaio, 

Tocava as densas nuvens do levante: 
Dando ás cristas das ondas rebentadas, 
A espaco, uma tinta coruscante! 


Faina geral! O vento desgarrão, 
Austral, intercadente, a carregar, 

E a rajada maior que o recalmão ! 
Investindo furiosas, a intestar, 

As torvas ondas de fumante espuma, 
Co'as nuvens achatadas sobre o mar! 


CAÇADAS PORTUGUEZAS | 


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O' mar! quando a refrega violenta 

Em pyramide as ondas te alevanta, 

Quem se atreve comtigo na tormenta 

À besta féra ao teu bramir se espanta! 
Somente o homem te contrasta os impetos! 
Elle só contra ti se não quebranta ! 


Em tuas solidões desamparado, 

Olhando para o céu — que, em taes momentos 
Parece por Satan reconquistado ! — 

Mais audacioso que o furor dos ventos, 

Paira acima do horror da natureza, 

Como um Deus, por seus altos pensamentos ! 


, 


Tem o mar os seus amantes, os seus apaixona- 
dos, e nós comprehendemos o sentimento de orgu- 
lho, que as almas fortes devem experimentar, ao 
affrontarem as coleras immensas do Oceano! 

Levantarem-se-lhes as ondas em montanhas, e de 
subito, e logo em seguida, cavar-se-lhes o abysmo 
verde-negro e medonho, entrevendo-se, lá em baixo, 
as fauces do grande tragador, a bôcca escançarada 
e o seio da immensa sepultura! Soprar-lhes o vento 
nos-cabos o hymno desvairado da procella-—os in- 
tervallos do silencio tragico cortados pelo gemer ar- 
rastado do arvoredo!... E as investidas d'esse mar, 
o desabar d'essas montanhas, essa baldeacão enorme, 
em que ellas se precipitam, onda sobre onda, e cor- 
rem e lavam o convéz de prôa á pôpa, e levam e 
arrastam tudo! E as lufadas do vento, e as cam- 


I4 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


biantes da atmosphera, e o fulgurar dos relampa- 
gos, e o scintillar do raio, os gritos de terror, a pal- 
lidez dos rostos, o tremor das vozes, o anceio dos 
animos, o trepidar dos corações!... E tudo isto a 
succeder-se na expressão dos olhos, espelhos da 
alma!... Oh! quem tiver assistido a taes scenas, 
se duraram horas, pode contal-as por seculos! 

Mas os que escapam ás furias da tempestade, não 
voltam as costas ao mar! Antes parece que mais lhe 
ficam querendo! Já o Camões pintou esse amor, 
quando poz na bôcca do Adamastor aquelles ver- 
sos, desesperados e saudosos: 


Todas as deusas desprezei do céu, 
só por amar das aguas a princeza! 


Tem sido navegador o nosso poeta, tambem foi 
cavalleiro; e quem escapou das tormentas do mar 
esteve a pique de perder-se em terra, e num rio 
sem agua! Um milagre este, se não maior, pelo me- 
nos mais verídico do que o succedido ao bom ca- 
valleiro D. Fuas Roupinho, que o nosso grande poeta 
Castilho immortalisou na sua Chácara da Senhora 
aa Nazareth. 

Deu-se o caso um dia que Bulhão Pato saíra a 
passeio pelos arredores da Arruda, na companhia 
do visconde de Asseca, Salvador Corrêa, pae do 
actual titular. O cavallo que elle montava, era um 


em 


CAÇADAS PORTUGUEZAS I 


potro d'Alter fogosissimo, e o poeta, então na exu- 
berancia de forças dos vinte annos, deu-lhe largas: 
o que a principio era trote passou a galope, e na 


desenfreada carreira chegaram á ponte, pequena e 


irregular, mas que mede talvez trinta pés d'alto... O 
parapeito é baixissimo, e o leito do rio estava sêcco, 
a descoberto. 

Bulhão Pato quiz voltar o potro, ao entrar na 
ponte, mas já não poude!... O impulso da corrida 
era maior, e cavallo e cavalleiro salvaram as guar- 
das, e caíram no leito pedregoso do Sizandro! O 
cavallo ficou inutilisado, o cavalleiro incolume! Não 
tinha uma beliscadura! Valeu-lhe o ser magro e de 
pequena estatura, dirão: valeu-lhe a fortuna, porque 
o salto era mortal! 

Quando alguns homens correram para o rio, já 
acharam o poeta de pé, sacudindo a terra de si, e 
aprestando-se para sair do que quasi lhe fôra tumu- 
lo! E” impossivel descrever o pasmo que d'elles se 
apossou, ao verem o cavalleiro dizer-lhes: 

— Vocês vinham para me levar!? Hein! Pois, obri- 
gado, eu cá vou andando. Se quizerem levem o ca- 
vallo: esse é que de certo não pode comsigo. 

Na villa apontavam o poeta, e olhavam-n-o depois 
com certa admiração respeitosa. Parecia com effeito 


que elle cruzara os terriveis humbraes da morte: 


Elle, todavia, preferiu as campinas e as varzeas, O 
mundo, a que tão cedo o quizera arrancar o fogoso 
corsel! - 

E por mares e rios, montes e'valles, o viemos 
acompanhando, e cá estamos com elle nas varzeas 


10 CACADAS PORTUGUEZAS 


e nas campinas, nas vinhas e nos pinhaes — numa 
palavra, no campo das suas caçadas. 


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No seu trajo de caçador, rodeado dos companhei- 
ros — grupo sempre pittoresco, pela variedade dos 
typos, e a que dão ainda mais vida e realce os cães, 


os perdigueiros, com a desenvoltura dos seus mo- 


vimentos — Bulhão Pato lembra-nos um d'esses fi- 
dalgos d'outro tempo, poetas cortesãos e fragueiros, 
tão conhecidos nos saraus do paço da Alcácova, como 
nas batidas e monterias de Salvaterra e d'Almei- 
rim; aquelles que corriam com egual ardor as aven- 
turas do amor e as da guerra, affrontando-lhes os 
perigos com a mesma galhardia. 

Individualidade como a sua, tão accentuada, tão 
cheia de caracter, não conheço outra entre os nos- 
sos poetas contemporaneos: é poetã em toda a parte, 
a toda a hora, com toda a gente — na rua, no café, 
á mesa d'um hotel como no lar domestico, no sa- 
lão das duquezas como nas salas da Academia! Em 
Veneza, um dia, entrando num dos hoteis mais ele- 
gantes, para jantar, o creado -- um original, que sa- 
bia o Dante de cór—a poucas palavras trocadas, 
encarando com o nosso amigo, disse-lhe, interro- 
gando e affirmando ao mesmo tempo com o gesto: 

— Voi siete poeta? 

E d'ahi a pouco os dois tinham travado dialogo 
sobre litteratura. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 7 


Nasce-se caçador, como se nasce poeta, como se 
nasce orador. Bulhão Pato é tudo isto, de nacão, 
como diz ainda o nosso povo dos campos. Ser ca- 
cador é nelle quasi um talento, uma das formas do 
seu ser. 

Atirar às codornizes nos trigaes, perseguir as per- 
dizes nas vinhas, chofrar as narcejas nos alagamen- 
tos, descobrir as gallinholas nas estevas, nos pinhaes, 
esperar a passagem das rôlas e dos pombos, car- 
regar uma lebre na campina, correr um veado, em- 
prazar um javali, fazel-o sair da mancha, esperal-o 
de cara numa porta, é um prazer, para os que pro- 
curam essas sensações fóra da vida banal das cida- 
des, nos campos, nas florestas, nos mattos ermos e 
selvagens. E é mais facil sentil-o, do que explical-o 
aos que, extranhando-o, por isso mesmo não o po- 
dem comprehender. Tanto valeria explicar a um sur- 
do, ou a um cego, as bellezas da musica e da paizagem. 

Haurindo o ar fresco e embalsamado dos campos; 
dilatando a vista pelas verdes e extensas pradarias, 
ondulantes como o mar, pelos doirados vinhedos, 
pelos cimos quebrados das serras, entra-se em mais 
intima communhão com a natureza. 

Não são ruas alinhadas e poeirentas, edificios re- 
ctangulares, sombras geometricas no chão, nem céu 
recortado, aqui e alli, pelos telhados da casaria ur- 
bana. Terra, luz e ar, estão alli a descoberto, não 


nol-as encobre a mão do homem. O sol irradia es- 
2 


18 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


plendido no limpo azul do firmamento, a aragem é 
pura, e a propria terra envia-nos o perfume das er- 
vas rasteiras e das florinhas agrestes, que pisamos. 

Neste contacto com a terra o homem rejuvenes- 
ce, e á serenidade dos campos responde em nós uma 
alegria, que não é a que rompe d'entre o convivio 
das festas ruidosas, mas outra, mais funda, de que 
depois nos lembramos, e nos apparece, no entarde- 
cer da vida, com o ineffavel encanto da saudade. 

E no meio d'esse scenario rustico aquelle poeta, 
que todos—os que sentimos e amamos a natureza, 
trazemos dentro de nós, occulto e tacito, acorda, e 
nós vamos seguindo-o, e a phantasia vae com elle a 
voejar, a voejar... 


Nascido em Bilbau e creado em Deusto, aldeia 
proxima, diz o poeta, nas suas'* Memorias, «que era 


a peste dos ninhos». All perto estavam as Encar-. 


taciones, onde nasceu Antonio de Trueba, o popu- 
larissimo auctor do Libro de los cantares, e por 
ventura então outro inimigo das avesinhas. Já La 
Fontaine o disse: Cet age est sans pitie, e ellas po- 
derão dizer que as outras edades não são melhores. 

Os cantos da infancia ouviu-os elle truncados pelo 
estrondear da fuzilaria: era a caca ao homem — as 
embuscadas e recontros de carlistas e de christinos. 
Scenas dramaticas, tragedias, como a da historia 
d'aquella Maria Salomé, que elles fuzilaram! Va- 


CAÇADAS PORTUGUEZAS it, 


lente mulher, destemido e dedicado coração! Era a 
ama do poeta. 

Aquellas paginas, que elle me dedicou -— em ter- 
mos para mim muito honrosos, e que eu aqui, em 
publico, lhe agradeço — aquelle nefando assassinio, 
não o releio sem um estremecção de horror ! 

Reconhece-se no homem feito o forte leite que be- 
beu, e as primeiras auras que respirou. Bulhão Pato 
“tem, com effeito, na sua accentuada physionomia, 
na entoação alta e viril da voz, nos ademanes, no 
porte elegante e erecto, apesar dos annos, algo, se 
não muito, da aristocratica altivez dos habitantes 
daquelle rincão da Hespanha, que é ainda hoje — 
em tempos de republicas — o baluarte, o castello ro- 
queiro, onde se abrigam as velhas tradições e cren- 
cas peninsulares. 

Não foi, porém, nos campos de Deusto que elle 
aprendeu a manejar a espingarda: saía apenas da 
infancia, quando Manuel de Bulhão, seu pae, voltou 
com a familia para Portugal. 

Abundavam então amadores illustres nas classe 
mais elevadas da sociedade portugueza. Na aristo- 
cracia, na alta magistratura, entre os grandes pro- 
prietarios, Redinhas, Atalaias, Arcos, Minas, Bacel- 
lar, Nizas, Antonio Borges, de S. Miguel, Mira, Vaz 
Preto, Laborim, Vimioso, tão firme na sella como na 
pontaria — e é o caso de se dizer mais uma vez — 
jen passe, et des meilleurs — todos notaveis, uns 
como atiradores, outros como cavalleiros, manti- 
nham alto o pendão da grande irmandade de Santo 
Huberto; sobresaindo-lhes. pelo fausto e pela ma- 


20 — CAÇADAS PORTUGUEZAS 


gnificencia das suas caçadas, o fidalgo do Farrobo, 
em tudo grande — grande senhor e grande artista. 

Havia n'esse tempo mais riqueza nos palacios — 
e mais caça nos campos. 

Ficaram na memoria dos caçadores as pe: 
espingardas inglezas de Manton, de Purdey, que se 
pagavam de vinte a quarenta moedas; e os que viram, 
nesses dias afortunados, trabalhar os cães das raças 
do Marquez das Minas, do conde da Atalaia e do 
visconde da Praia, recordam-se ainda hoje com sau- 
dade da belleza de formas, da elegancia e da fir- 
meza d'esses magnificos animaes. Raças hoje extin- 
ctas e não substituídas. Os do visconde da Praia 
comprou-os elle em Paris, numa exposição, e deu, 
se não me engano, cincoenta libras pelo casal. E, se 
me engano no preço, é para menos. 

Não são menos famosas as caçadas principescas 
nas terras do Farrobo. 

Foi com estes amadores — em tudo mestres — 
nesta grande arte da caça, os curiosos, os amadores, 
é que são os mestres, e só elles o podem ser, tão 
complexa ella é, porque, sendo arte, é feita de scien- 
cias — foi, digo, com taes mestres que o joven poeta, 
tão precoce n'estes campos como no das lettras, fez 
as suas primeiras armas. 


Quando eu me alistei na venatoria confraria, foi 
Bulhão Pato meu padrinho, e na companhia d'elle 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 21 


perpetrei os meus primeiros crimes. Que Santo Hu- 
berto mos perdõe. A minha primeira victima foi um 
maçarico. lamos nó catraio do Lourenço para o Jun- 
cal da “Trafaria, que então — hélas! — ainda tinha 
codornizes, lebres e narcejas. Foi ha trinta annos, é 
parece-me que o estou vendo, ao pernalto, cair na 
agua! 

Antes disto já me tinha exercitado, atirando aos 
gaivões, que todas as tardes vinham fazer as suas 
correrias aereas no alto da quinta do Desembarga- 
dor, e por cima da minha casa, em S. Francisco de 
Paula. 

A anglomania não se apoderara do poeta, apesar 
da moda e da tradição, já antiga. A sua espingarda 
dentão era uma bella arma hespanhola de Eybar 
— canos de herraduras — como nelles se lia em let- 
tras doiro, e oitavados até um terço. D'oiro era a 
mira, e com elle discretamente ornada na bôcca e 
“emvolta da fecharia. Nada de oriental nesta or- 
namentação sobria — um filete apenas. O guarda- 
matto tinha mola de segurança. Elegante e solida, 
esta caçadeira havia dado as suas provas: a esse 
tempo entrara já em muitas batalhas, e pouco an- 
tes Lopes Cabral — um athleta — matou com ella, 
em um dia, na Gollegã, setenta e cinco codornizes! 

A Eybar succedeu Paris, e a espingarda que lhe 
conheco em effectivo servico, ha mais de vinte annos, 
é uma Gastine-Renette, do systema Lefaucheux, cin- 
zelada e acabada com a maior perfeição. Arma fina 
e de preço. 

Gastine-Renette é um dos mais illustres entre os 


22 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


fabricantes d'armas contemporaneos. Foi o Arque- 
buster de Napoleão II, o seu fornecedor predilecto 
de armas de caça e de guerra. 

No cabide de armas do poeta vêem-se mais duas 
— uma de fogo central, belga, e outra Flobert-Re- 
mington. 

Traicoeira esta ultima. — Como os machos d ar- 
rieiro morde e da couce! O cão levanta, e o tiro 
vem, ás vezes, tambem para a cara do atirador! Pe- 
rigoso systema. 


Dos cães da espingarda para os das perdizes a 
transição é facil, e está feita. E 

O capitulo dos nossos fieis alliados, e dedicados 
companheiros, é para nós ainda mais importante do 
que o das armas; com uma espingarda mediocre 
pode-se caçar — é com ella que atira a maior parte 
dos caçadores — mas com um cão mau é impossi- 
vel: a caça que levanta é por acaso, e, depois de 
morta ou ferida, uma não se acha, á outra perde-se 
o rastro, e a maior parte fica no campo para as ge- 
netas, rapozas e milhafres. 

Pois os paragraphos d'este capitulo são brilhantes; 
Bulhão Pato tem tido a fortuna de cacar na compa- 
nhia dos seus amigos, com optimos perdigueiros, e, 
entre os seus, conheci algumas espadas de primeira 
ordem. Teve o Pombo, soberbo animal — presente, 
se não me engano, do morgado Antonio Borges da 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 25 


Camara Medeiros, distincto amador, da ilha de 
S. Miguel; a Medóra, lindissima perdigueira, uma 
estampa, fina de desenho e de côr, e que era o en- 
levo de Alexandre Herculano, apesar d'elle não ser 
cacador. 

A estes seguiu-se o Mazeppa -— um verdadeiro ty- 
rano dos campos, que a nada perdoava: o que elle 
encontrava deante de sihavia de ir para o ar! Branco, 
todo elle, alto, a cabeca grande, a orelha curta, ro- 
busto de formas, dum enorme alcance de olfacto, 
cacando com uma certeza e a distancias, prodigio- 
sas, era um bello espectaculo vel-o trabalhar em 
campo largo. Apontava a caça de cabeca erguida, 
e ia direito a ella, com tal firmeza, que não seria 
maior, se elle a visse! 

Como todas as formosas tinha um senão — não 
trazia a caça ao dono! Porque um tal defeito em 
animal de raca, e tão fino como este era, ao certo 
não o sei. Podia tel-o de natureza ou adquirido. Of- 
ferecido ao illustre poeta pelo seu velho amigo, o 
general Schwalbach, mandara-lh'o este do Porto, 
ainda novo, mas, se bem me lembro, já feito, e a 
caçar. Talvez lá fosse ensinado por algum amador 
inglez, e estes, como se sabe, costumam, cacando 
com dois ou mais cães, delegar no retriever as fun- 
cções subalternas de procurar e trazer á mão a ave, 
“a lebre, ou o coelho, lev antados pelos seus nobres 
pointers ou setters. Fosse o que fosse, Mazeppa era, 
apesar d'esta falta, um brilhantissimo explorador. 

Lady, a cuja morte o poeta — como outros, By- 
ron, por exemplo — dedicou sentidos versos, não 


24 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


desmerecia d'estes, e era d uma meiguice notavel e 
d'uma rara dedicação. 

Eu não fiz versos aos meus, não sou poeta: mas 
quando elles fecharam os olhos para sempre, os meus 
nunca ficaram enxutos. 


IV: 


Madrugadas de caça 


O dia oito de setembro era o escolhido por Bulhao 
Pato para a abertura das suas caçadas do inverno 
no sul do Tejo, e o sitio preferido o Juncal da Tra- 
faria. 

A meia hora de caminho de Lisboa, e com uma tra- 
vessia encantadora nesses formosos dias do outono, 
tinhamos alli, por assim dizer, a nossa coutada — 
nossa e de poucos mais, felizmente. Os outros fre- 
quentadores eram os ranchos de' José Maria Villar, 
e de João Lourenco, ambos creados da Casa Real, 
e os srs. Gourlades, da Junqueira. Os caçadores de 
Lisboa, a uns desviava-os de lá o terem de ir em 
barco de vela, e a outros levava-os para os pinhaes 
de Corroios a falta de bons cães ou a ambição das 
gallinholas. Assim divertidos de concorrerem com- 
nosco, era raro encontrarmos competidores. 

Quando, pelas cinco da manhã, eu chegava, equi- 
pado e armado, à casa do poeta, que morava então 
— 1867 — na rua das Praças, á Lapa, já lá estavam, 
sentados à porta, dois vultos, que de longe e pelo 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 25 


escuro eu apenas distinguia: — eram o Lourenco da 
Pinha, o nosso barqueiro de Belem, e um dos fi- 
lhos. 

O bairro jazia, as ruas eram ermas, mas lá den- 
tro tudo estava a pé. A morada do poeta, que ainda 
hoje conserva o mesmo aspecto, é sobre si e tem a 
apparencia d'um cottage ——-rez-do-chão, primeiro an- 
dar, e, sobre este, outro pavimento mais baixo, com 
quatro janellas, d'onde se desfructa, por cima dos 
telhados fronteiros, o Tejo —vista que tanto realça 
e alegra a casaria destes bairros da Lapa e de 
Buenos Ayres. 

O Faliéro e a Medóra, já despertos, latiam no 
canil, ruidosos e contentes; na cozinha o José, ro- 
busto e sympathico rapaz, honra da ráça d'além Mi- 
nho, com as suas botas d'agua, a camisola de Ha- 
nella de listas, a sua cara sempre alegre, e a Ma- 
Tila, a creada, davam a ultima demão nos aprestos 
do almoço e no arranjo das bagagens, porque, ás 
vezes, estas excursões duravam dias. O poeta, ins- 
tallado no seu quartel general venatorio, em casa da 
sr.* Maria do Adrião, na Costa, havendo caça e dias 
amenos, deixava-se lá ficar, até que algum sudoeste 
bravio, dos que costumam acçoitar aquella planicie 
d'areia, o.forçava a levantar vôo e recolher aos abri- 
gos da cidade. 

A primeira pessoa que eu via áquelia hora mati- 
nal, e que, no alto da escada, me dava os bons dias, 
“era sua irmã, a sr.? D. Maria da Piedade, com o seu 
“ar senhoril, e a sua voz alta e vibrante. Muito pa- 
recida nas feições com elle, não o era menos no fino 


26 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


espirito e na amenidade do trato. Mais velha do que 
Raymundo foi, por assim dizer, sua segunda mãe. 
Acompanhou-o na vida, e tudo com elle participou 
— a gloria e a adversidade. Tinha um animo varo- 
mil a ilustre senhora: aquelles primeiros annos da 
sua mocidade, passados em Hespanha, no meio das 
guerras civis, deram-lhe a tempera. Era uma alma 
forte, e por isso mesmo egual, serena e resignada, 
na boa e na má fortuna. 

Estes Bulhões são de bom e antigo sangue. Ma- 
nuel de Bulhão foi um homem em toda a accepção 
da palavra — honrado, forte, e valente. 


Transposta esta primeira estação, em cima estava 
o poeta, já a pé, vestindo-se, espreitando pelas ja- ' 
nellas, voltadas ao sul, o cariz do céu, e o rumo do 
“vento, e fazendo o prognostico da caçada. 

Alh era o seu miradouro, o seu gabinete de tra- 
balho; alli recebia os seus intimos, ali compunha os 
seus poemas. Aposento modesto e simples, que ti- 
nha nas paredes, por unico ornato, uma cercadura 
feita com os bellos retratos dos contemporaneos il- 
lustres, gravados por Souza, para a Rerista Con- 
temporanea. 

la eu subindo a pequena escada de dois lancos, e 
já o ouvia falar. 

— Es tu, Zacharias? 

E logo, em seguida, quando eu abria a porta: 


CACADAS PORTUGUEZAS 27 
— Temos caçada. O dia esplendido! Já lá está o 
Lourenco? 
É depois, sempre poeta, trocadas as primeiras pa- 
lavras, dizia, com a sua mascula e bella voz, os co- 
nhecidos versos da Chácara da Nazareth: 


Manhãs frescas de setembro, 

quando orvalho está a cair: 
« frescas manhãs de setembro, 

quem n-as podera dormir! 


Vo jonoL 6 o q «tum óia » alolennio alvo coiso 


E saltava para estes — tão vivos, que todos os di- 
rão dum caçador! 


Vôam corseis e sabujos! 
Apupa, apupa, clarim! 

Que esta sina de fragueiros 
não tem descançco, nem fim! 


E como commentario, a fechar, dizia: 

— Deixa-os lá. E um grande poeta. 

A toilette estava terminada. Afivellado o cinto, 
mettidas nelle as luvas de camurça, dando um re- 
lance d'olhos em volta do quarto, como a despedir-se: 

— Agora vamos ao café, que sem esse viatico não 


* ficamos amanhados. Vae tambem uma golada de co- 


guac? A manhã está fria. 

E, pondo-me a mão no hombro: 

--Rapaz, rapaz, dizia-me elle —estás nos teus 
vinte annos!... 

Datavam de pouco as nossas relações; eu tinha 
então vinte e sete annos cumpridos, elle devia ter 
trinta e seis. Os meus vinte já lá ficavam para traz 


28 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


na estrada, mas eu, felizmente, sempre fui mais novo 
que a minha edade. E ainda hoje tenho esse defeito. 
Surprehendo, às vezes, em mim ingenuidades infan- 
tis— auroras, esplendores, e soes poentes de dias, 
que ha muito passaram... Na minha memoria evoco 
esses phantasmas, que me apparecem vivos, e travo 
dialogo com elles... E tudo isto é pela virtude do 
muito imaginar. A phantasia, a memoria viva, fa- 
zem-nos o milagre d'estas resurreições! 

Tomado o viatico, accesos os cigarros — Pato pre- 
fere a cigarrilla ao havano — despediamo-nos de 
D. Maria da Piedade, e partiamos. Ella ficava — al- 
gumas vezes tambem nos acompanhou nestas ex- 
cursões — mas nós tinhamos a certeza de que o seu 
pensamento não nos desamparava, porque no seu 
espirito, como no de todos, à idea da caça andava 
associada a do perigo. 

Desciamos a rua de S. Domingos e chegavamos 
à rocha do Conde d'Obidos, atravessando as ruas, 
ainda desertas. Os Lourenços é o José tinham mar- 
chado na frente com as bagagens. 


Assim abriam para nós esses dias — jamais es- 
quecidos. Alvoradas alegres de rosado oriente e céu 
d'anil, ou manhãs pardacentas, humidas e tristes, 
encontravam em nós o mesmo animo. Nos dias bo- 
nitos tinhamos a crença; nos feios era a esperança, 
e em todos a grande poesia da mocidade... 

O tempo voou, mas, todos os annos, nos primei- 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 20 


ros dias de setembro, nas lindas madrugadas do ou- 
tono, serenas e cheias de luz, lembro-me com sau- 
dade de quando, ao entrar no quarto do poeta, eu 
era saudado com os versos da cacada do Alcaide- 
-Mór de Affonso Henriques: 


Manhãs frescas de setembro, 
quando orvalho está a cair; 


midias aviao Vo S/ 0,0 ayulo vis jo;s ciBiol a 0/8 


À rocha do Conde de Obidos — João Lourenço 
Bulhão Pato no Juncal 


Aquella rocha do Conde d'Obidos — assim cha- 
mada por ser alli junto o solar, o palacio dos illustres 
fidalgos d'este titulo — vemol-a hoje mascarada com 
parapeitos, varandas e escadas, e coroada, no alto, 
com uma pequena praça ajardinada, donde se gosa 
a linda vista do nosso rio. Quantum mutata ab illo! 
Era então toda egual a uma nesga, que ainda lá se 
conserva — uma encosta pedregosa, adusta pelo sol, 
batida dos ventos, escalvada pelas chuvas, coberta 
aqui e alli por uma vegetação rachitica e parda. Um 
trecho da natureza selvagem, uma verdadeira arriba 
do mar! 

Descia-se para o rio por um longo corredor, en- 
tre dois muros —um do palacio, e outro da cêrca 
do convento das Albertas — e a escada que condu- 
zia ao pequenino caes, lá em baixo, era um verda- * 


O) 


(0) CAÇADAS PORTUGUEZAS 


deiro quebra-costas — tortuosa, os degraus irregula- 
res, abertos uns na rocha, outros na terra. Do alto da 
rampa, verdadeiro precipício, vi eu, um dia, sendo 
muito novo, cair um marinheiro inglez ébrio. Um 
horror ! 

Parece impossivel que aquillo fosse, até aos nos- 
sos dias, um dos caes de desembarque d'esta bella 
cidade! Era ahi que embarcavamos. 


, 

Arrumadas as malas, seguros os cães, os remos 
caiam na agua. 

— Jesus! dizia Lourenco. 

— Maria ! segundava o filho. 

E o catraio seguia, de voga arrancada, rio abaixo, . 
direito à Trafaria, quando não a Belem, onde iamos 
buscar o João Lourenco — o João da Burra, como 
lhe chamavam desde pequenino, duma burra com 
que da sua villa nos arredores — Cintra, creio eu — 
costumava elle vir á cidade. 

Cacador de El-Rei D. Luiz, morava em Belem, 
e, quando não tinha serviço no Paco, acompanhava- 
nos nestas digressões ao Juncal. 

De boa estatura, e robusto, o olho pequeno e vivo, 
a tez rosada, as feições regulares, o nariz aquilino, 
João parecia um abbade minhoto, dos que tem bons. 
presuntos na despensa e bom vinho na adega. 

Boa espingarda, bom garfo, bom copo, bom rosto, 

- e, portanto, bom companheiro, era, além de tudo isto, 


“ 


CAÇADAS PORTUGUEZAS di 


fino como um coral. Rapaz, filho do povo, fizera-se 
homem na cidade; tinha, o que é raro nos homens 
da sua classe e profissão, aprendido a sciencia difhi- 
cil de se manter sempre no seu logar. mas quando 
queria obsequiar alguem, fazia-o com a gentileza 
d'um fidalgo. 

Um exemplo. 

Homem videiro, abrira elle em Belem, defronte 
dos Jeronymos, um restaurante, a que poz o nome 
de Cacador. Um dia, em que eu fui visitar a egreja, 
demorei-me mais, e eram horas de jantar, quando 
de lá sai. A minha casa ficava longe, dirigi-me ao 
Caçador. + 

Prevenindo já a hypothese de lá estar o dono, en- 
trei pela porta do lado. O creado que veiu receber 
as minhas ordens, parece que me conhecia, porque 
elle a voltar costas, e João a apparecer com o seu 
rosto prazenteiro. Eu disse-lhe o que queria, elle 
sentou-se no logar fronteiro, e travámos a conversa, 
é claro, sobre a materia vasta—a caça, e artes e 
historias correlativas. 

* Quando eu ia no fim do primeiro prato, João, to- 
mando os ventos, disse-me : 

— Está-me cheirando bem. Parece-me que lhe faço 
companhia, se me dá licença. 

— Ora essa. O João está na sua casa. 

E jantámos os dois, entremeiando o paio com er- 
vilhas, e as eirozes grelhadas, com historias, algu- 
mas mais salgadas do que os guisados, que iamos 
saboreando. 

Quando accendemos os charutos, e eu pedi a 


52 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


conta, elle fez um signal ao servo, que desappare- 
ceu, e logo voltando-se para mim : 

— V. Ex.º deu-me a honra de jantar comigo na 
minha casa, e eu estou pago. Não deve nada. 

E' claro que não insisti. Se teimasse, eu é que era 
malcreado. 

Tempos antes fizera-lhe uma pequenina fineza, e 
elle quiz-me mostrar que não a havia esquecido. Po- 
dia contar delle outras historias. mas esta basta. 


* * 


João Lourenço trazia comsigo, para as nossas ca- 
cadas, os seus cães, na companhia dos quaes vinham 
alguns, que pertenciam á Casa Real, e que, seja dito 
de passagem, não envergonhavam os nossos. E não 
trazia só isso; muitas vezes vestia tambem o seu pit- 
toresco trajo do Real serviço, e com elle vinham ou- 
tros caçadores da Casa, bem armados, e bons atira- 
dores. 

Quem visse então no Juncal Bulhão Pato, e os 
seus amigos, com aquella comitiva de cacadores, 
perdigueiros, e batedores do sitio, que se nos aggre- 
gavam, e attentasse na chapa, com as armas reaes 
de prata reluzente, que ornava o chapéu à Mosque- 
teira do nosso moço do monte, cuidaria que eramos 
alguns principes saciados de caca, que, para variar 
o menu cynegetico de Mafra e Villa'Viçosa, iam, pe- 
destre e burguezmente, atirar alli ás codornizes e 
narcejas. 


3, Safidpae 


CAÇADAS PORTUGUEZAS à 


Caçadores reaes e verdadeiros eramos nós, e prin- 
cipes tambem ás vezes iam dois: um era Lopes Ca- 
bral — que nós elevaramos a essa dignidade; o outro 
tinha-se elevado a si proprio, era Bulhão Pato — 
mas o seu principado era, e é, na Republica das 
Lettras. Tem menos fausto, menos representação, e 
incomparavelmente menos rendimentos, mas tem 
sobre os outros uma vantagem, uma absoluta supe- 
rioridade : os seus subditos podem não lhe tirar o 
chapéu, podem discutil-o, podem não o ler — que é 
a maxima affronta— mas o que não podem é obri- 
gal-o a abdicar ! 

As corôas dos poetas estão acima das revoluções! 


Rio abaixo 


No catraio do Lourenço 


NASCER" do sol no Tejo, o nosso formoso e 
grande rio, em dias de outono, é um dos mais 
encantadores espectaculos que os olhos po- 


“dem gosar, e esta digressão, rio abaixo, até Belem, 


e d'ahi para o-sul, era um delicioso lever de rideau 
das nossas caçadas, a que nem sempre correspon- 
dia o resto do divertimento. Nisto como em tudo. 

Preferiam os barqueiros ir á vela, nós a remos. 
Não tinhamos a distracção da manobra — o cam 
biar do panno, o procurar o vento, o regular o leme 
e a escota-—mas por isso iamos mais quietos, vendo 
tudo melhor e conversando. 

Em materia de conversar ha os que gostam de 
falar e os que preferem ouvir. Bulhão Pato é dos 
primeiros, eu dos segundos. O que eu sei não é novo 
para mim: o que os outros me dizem pode sel-o. E 
d'aqui não se segue que eu seja modesto, antes tal- 
vez se deva concluir que sou curioso. 

Talento e palavra espontaneos, e sempre em acção, 


30 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


o poeta de todos os assumptos tira partido; e elle, 
que não é um naturalista, um sabio, é -um fino 
observador da natureza, e na sua conversação o 
mundo real reforça e concretisa o imaginativo. 

Assim como os companheiros, variavam os assum- 
ptos. Se eram artistas, musicos, predominava o ly- 
rismo — S. Carlos, os tenores, as primas-donas, os 
maestros ; se nos acompanhava algum político — caso 
raro, que os politicos atiram a outra caça — era a 
oratoria tribunicia — José Estevam, Passos Manuel, 
Rodrigo, Rebello da Silva, Garrett; se iam munda- 
nos, então bailes, amores e aventuras. Não faltavam 
assumptos para os quadros, nem ao artista as côres 
para os pintar. À 

Uma coisa havia prohibida na nossa sociedade — 
o silencio. Quando nós, ao largar da Rocha, nos con- 
servavamos cinco minutos calados, Bulhão Pato pro- 
testava : 

— Leva de rumor! — dizia elle, apostrophando co- 
micamente o nosso mutismo. Parece que morreu 
aqui alguem! O” Diogo, tu passaste mal a noite ? 

D. Diogo, d'uma antiga e nobre familia do Alem- 
tejo, era um dos mais intimos amigos do poeta. 

Era-o desde a infancia: tinham frequentado juntos 
o collegio inglez da rua do Quelhas. Nascera na In- 
dia. Os olhos e os cabellos pretos, os dentes alvis- 
simos, e a côr bronzeada do rosto, denunciavam 
nelle o exotismo da procedencia, a influencia do 
sangue oriental. Excellente rapaz e intellgente, era 
um magnifico companheiro — d'estes que não se sen- 
tem, que não pesam. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 37 


Como todos os caçadores que são um pouco ar- 
tistas, Diogo não desgostava do pittoresco, e tinha, 
de tempos a tempos, os seus caprichos de toilette. 
Um dia, depois de ostentar aos nossos olhos de 
amadores uns lindos ceifões amarellos de pelle de 
cabra, preparada á cordoveza, debruados de encar- 
nado, e orlados de phantasiosos florões, abertos so- 
bre panno da mesma côr — obra-prima d'algum ar- 
tista andaluz — para completar o effeito tirou da sacca 
um barrete vermelho, um fez, com uma longa e for- 
nida borla preta, e pol-o na cabeça, ageitando-o ar- 
tisticamente. Diogo não era bonito, mas aqui a côr 
salvava o desenho. 

Um “esplendido modêlo para um Fortuny! A pa- 
leta completa — uma orgia de côres! Vermelho, preto, 
encarnado, amarello, estrellantes, illuminados pelos 
raios do sol nascente, e destacando sobre o fundo 
glauco do mar! O que faltou foi o pintor. 

Chegou a vez do cigarro, e a bolsa do tabaco e 
o fuzil de Diogo tambem eram elegantemente histo- 
riados. 

Depois de o accender, elle relanceou os olhos ale- 
gres sobre nós, acabando pelos pôr em Bulhão Pato. 

No olhar de Diogo havia uma provocação à ga- 
lhofa, na sua bôca brincava um sorriso gaiato. 

Então Pato, que estivera a olhar para elle, desde 
a imprevista apparição do barrete vermelho, disse- 
lhe, com uma grande seriedade: 

— Estás bonito, estás. Pareces o bey de Tunis! 

O effeito foi fulminante, e a gargalhada geral. O 
proprio Diogo ria como um perdido. 


38 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


O ataque não ficou, porém, sem réplica. Cruza- 
dos os ferros, houve alguns coups de bouton bem 
executados, bons ataques e boas respostas, proprias 
de dois jogadores que se conheciam, que se estima- 
vam e que se respeitavam. Um assalto de chistes 
para a risota. 

Travado sobre a superficie das aguas, participou 
da natureza d'ellas — os golpes não eram sanguino- 
lentos, mas eram salgados... E por isso lá ficaram 
no salso argento. 

E nós ainda a rir, um barco a passar perto, e um 
dos filhos do Lourenço a gritar-lhe: 

— Ai, minha perna, sr. doutor! 

Os varinos acudiram á resposta, na linguagém que 
lhes é peculiar, e que, se é propria, não é correcta. 
Elles usam de bragas — mas não é na lingua. 

As nossas baterias voltaram-se então para elles, e 
quando, já longe, não os podiamos ouvir, ainda os 
viamos gesticular. .. Era uma diversão aquella quasi 
obrigada, entre os frequentadores do rio. 

As gaivotas vinham, às vezes, reconhecer-nos de 
tão perto, que, apesar de não cultivarmos este ge- 
nero de sport, se ellas se contassem à ida, haviam 
de achar alguma de menos. 

Isto, porém, era raro. Patos tambem, se passa- 
vam ao alcance, eram saudados, mas de ordinario 
alteavam, ao ver-nos, e apesar do que se costuma 
dizer, não lhes chegava o chumbo — não caiam. 

Um dia foi que o lever de rideau — o prologo — 
esteve quasi a ser a tragedia. A espingarda de Bu- 
lhão Pato — era a de Eybar — deixara-a elle ficar em 


CAGADAS PORTUGUEZAS 39 


Alemquer, onde fôra caçar, e Cabral, que de lá a trou- 
xera, mandoulh'a na vespera. Cabral = um grande 
e experimentado caçador -- era tudo quanto ha de 
mais cuidadoso; podia-se-lhe chamar, sem trocadilho, 
o rei das cautelas. Mas uma vez todos erram, € 
quando Bulhão Pato, que tinha o costume de dar 
um fogacho à espingarda, antes de principiar a an- 
rar, O fez sem a menor desconfiança, porque nenhum 
dos pistons trazia fulminante, dum dos canos saiu 
incendiada a polvora sólta, mas o outro disparou um 
tiro a valer! Encarámo-nos todos... Estavamos fe- 
lizmente illesos. 

O que nos valeu foi o ter elle, tambem prudente, 
disparado, como usava sempre, por cima da borda. 

— Hein! disse o poeta -— de que nós escapúmos! 
Mestre Cabral d'esta vez esqueceu-se! 

E foi este, em tantos annos, o unico accidente, que 
teve assomos de gravidade. 


E o mar, nessas travessias? perguntará o leitor, 
curioso d'estes pormenores. 

Como ao outono se segue o inverno, algumas fi- 
zemos em que o catraio do patrão Lourenço dan- 
çava um tanto sobre as aguas... 

Um dia, que nós tinhamos escolhido para dar uma 
saltada ao Juncal, amanheceu-nos carregado o céu, 
asperrimo o sudoeste, promettendo agua... de inun- 


40 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


dar um Sahara!... A resolução estava tomada, e 
nós fomos por terra a Belem. Lourenço, que não 
nos viera buscar, por ver a feia catadura do tempo, 
levou-nos ao caes, e ahi, com os braços abertos e as 
mãos espalmadas, mostrando-nos as ondas verde-es- 
curas, crespas, picadas pelo vento, franjadas de es- 
puma, e o mar deserto, disse-nos: 

— Os senhores bem vêem... Nem um pau ao 
cimo d'agua! E accrescentou, para reforçar — Os 
outros senhores que aqui tambem costumam vir, fo- 
ram-se para casa... 

— Então você, Lourenço, não nos quer levar... 
Tem medo? perguntou Bulhão Pato, olhando depois 
para mim. 

— Eu não, senhor. Medo não tenho, mas é que 
os senhores ficam enxovalhados. Leval-os, levo-os 
eu. Agora enxutos... Por isso é que eu não res- 
pondo. 

E o intrepido algarvio — elle era de Ferragudo — 
chamou, com o mesmo rosto sereno, os filhos, e sal. 
támos todos para o barco. Armada a vela, que o 
vento logo enfunou, partimos. Atravessámos, com a 
borda quasi sempre rente da agua, e, uma ou duas 
vezes, eu senti fugir o banco debaixo de mim... 

Já está morto um dos nossos companheiros d'en- 
tão, que em taes casos se sentava logo em baixo, 
nos paneiros. 

Praticos do rio, habituados a viver nelle, os nos- 
sos homens conheciam-n-o como os seus dedos; as 
correntes da agua e do vento viam-n-as tam bem que, 
nesta manobra de virar de bordo, debaixo do vento, 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 41 


o catraio obedecia como um fino corcel, quasi sem 
parar na carreira, com tal certeza era feita, tão ajus- 
tados se concertavam os movimentos do que ia ao 
leme com o que cambiava o panno! 

lamos fazer o ultimo bordo, mais perto da terra, 
e que era o mais serio. 

— Agora! disse o velho Lourenço, com os olhos 
na vela, ao filho, que ia em pé junto do mastro. O 
catraio, que estava a tocar no vento, parou um ins- 
tante, atravessando; a vela cambiou e elle seguiu. 
Mas, nesses momentos, quem vae no barco e não 
é do mar, é que lhe sente o balanço... 

Conforme elle dissera, chegámos a salvo, se não 
enxutos. Ainda assim a aspersão foi levissima, se 
attendermos ao que promettiam o céu, e o mar!... 

Bulhão Pato teve muitas mais occasiões de affron- 
tar a torva catadura do Padre Tejo, e depois, ao 
largo, as temerosas iras do Oceano. Mas, como tanto 
se pode morrer afogado aqui como lá, sente-se um 
grande prazer, quando, roçando pelo perigo, lhe es- 
capamos... pela tangente. 


b) 


dE 285 E MEET A mi 


na A 


dir sec CARTA id os 


O Juncal da Trafaria 


QUELLA charneca do Juncal, descoberta, erma e 
agreste, onde, no verão, dardeja o sol impla- 
cavel, e no inverno sopra o sudoeste, ouvin- 

do-se ao longe o rolar das ondas, é uma paizagem 
profundamente triste, mas que não deixa de ter en- 
cantos. A solidão do deserto está alli, fronteira e 
contraposta ao bulicio da cidade! 

Um areal enorme, cortado de pequenos médãos, 
coberto d'uma alta, espessa, e hirta vegetação de 
juncos verde-negros, entresachados de raras moitas 
de joina. Arvores... apenas algumas figueiras na 
horta do Miranda, à beira do rio! Isto: e uns can- 
teiros de morangos, eram os unicos signaes da vida 
vegetativa, naquelle chão arido e inhospito! A vinha, 
que elle alli plantara, agonisava, rasteira, enfesada 
e rachitica. 

A gente pouca, pallida, anémica, dizimada de con- 


44 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


tinuo pelas febres. As aguas do inverno, estagnadas 
em charcos, tornados paúes, fermentando-as o sol 
ardente da canicula, evolavam de si miasmas mor- 
taes, que o vento não varria, e que não poupavam 
nem as creanças, nem os adultos. 

Em dias de sol, com o ar parado, aquelle ermo 
descampado é uma amostra da paizagem africana ! 
Ao fundo, para o lado do Oceano, as cabanas de 
colmo dos pescadores, baixas e negras, e perto d'el- 
las a capellinha branca; defronte o cemiterio, com 
os cyprestes esguios, baloucando — como nós — en- 
tre a vida e a morte; á esquerda o Monte — arida 
rocha a pique, com o seu aspecto de fortaleza; à 
direita a praia e o mar... 

Nada mais triste! Um dia, em que lá fiquei, ou- 
vindo, ao sol posto, o toque das Ave-Marias, deu 
em mim tal melancolia, que desatei a chorar! 


Não era ameno o sitio, tampouco o foi, em tempos, 
a fama-dos seus moradores. 

— Anda fugido na Costa — era uma phrase cor- 
rente na bôca do povo, quando se falava de algum 
criminoso façanhudo, que desapparecera de Lisboa. 

Transposto o Tejo, ladrões e assassinos all se 
acoitavam e escondiam nas companhas dos barcos 
de pesca. Assim escapavam no mar aos quadrilhei- 
ros de Lisboa, quando lá iam perseguil-os. Uma vi- 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 45 


sita da justiça á Costa-— quando a policia estava 
longe de ser o que é hoje — era uma expedição arris- 
cada, e quasi sempre inutil. 

A civilisação já lá chegou, e, se não mudou a na- 
tureza, mudaram os costumes. Ainda assim não po- 
demos dizer que reina alli sempre uma paz octa- 
viana. Um dia, logo depois de saírem de lá os nossos 
amigos, um homem, chamado Damião, foi esfa- 
queado. 

A casa da sr.* Maria do Adrião—o nosso hotel 
— era respeitada, e nós, saindo de lá, não faziamos 
detença na povoação. 

Os pescadores, pobre gente, quando ha peixe an- 
dam na sua faina; quando elle falta vêem-se á porta 
das choças, ou na praia, olhando, tristes e sombrios, 
para o mar alto. E' d'alli que lhes vem a ventura e 
a desgraça. Aquella vida, que para nós tem uma 
grande poesia, traz-lhes sempre deante dos olhos 
duas sombras negras — a fome em terra, quando es- 
casseta o peixe, e a morte, quando os surprehende o 
vendaval! 

Serios e concentrados, mantinham um discreto 
silencio, quando appareciam onde nós estavamos. 
Com os rostos semi-occultos, os gabões caidos em 
largas pregas, tinham um quer que de sombras, mo- 
vendo-se lentamente naquelle funebre scenario. 

A nota alegre, unica, mas esta vivissima, eram as 
creanças. Essas, sim, que vinham sempre visitar- 
nos. Nós, para elles, eramos a novidade — com os 
nossos trajos, armas, e perdigueiros. Elles — o bando 
buliçoso, saltão e gárrulo — corriam para nós, cheios 


46 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


de pittoresco e de vida. Uns de gabóesitos pardos, 
outros de camisolas riscadas, brancas, azues, verme- 
lhas; alguns semi-nús, mostrando pelos rasgões do 
fato a pelle trigueira, com os seus tons fulvos ; todos 
descalços; os cabellos, pretos, loiros, arruivados, 
crespos e revoltos; queimados os rostinhos pelo sol, 
e crestados pelo nordeste. . 

Algum, mais atrevido, colleava, lenta e sorratei- 
ramente, até á casa do jantar; os outros miravam- 
nos de longe por entre as portas, com os olhos vi 
vos, esperando a saída. Poderia a vista satisfazer- 
lhes a curiosidade, mas nós, a este prazer, puramente 
optico, ajuntavamos alguma coisa mais tangivel. 

Os primeiros a receber os nossos dons eram os 
mais velhos, os que nos tinham prestado algum ser- 
viço, que elles, no acto, não se esqueciam de alle- 
gar. A esta distribuição seguia-se outra, que era 
geral. Atiravamos para o monte. 

Tinha que ver então! O bando precipitava-se, 
ávido e furioso, sobre as mealhas esparsas na arêa. 
Era uma confusão vivissima de corpos ás rebatinhas, 
de cabecitas resfolegantes e afogueadas, de mãos 
aduncas, luctando, qual de baixo, qual de cima, pela 
posse do metal. Aqui e alli, d'entre a revôlta mole, 
erguiam-se alguns, cheios de alegria e de poeira, 
mostrando orgulhosos o premio da lucta. E ella re- 
petia-se, se um olho mais agudo descobria no chão 
algum cobre, que aos outros escapara. 

Depois os vencedores dispersavam. Alguns, raros, 
paravam nos limites da povoação, levando as mãos 
aos barretes; outros iam-se logo. retouçando, aos 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 17 


pulos, pelo areal. Mas alguns ainda nos acompanha- 
vam. Não era o amor, nem a gratidão... 

Não tinham apanhado nada, e vinham lastiman- 
do-se, até que alguma alma, impaciente ou apiedada, 
repartia com elles os ultimos miudos. Um vintem 
para cinco, dez réis para tres... Contas difficeis 
de fazer, mas que elles lá resolviam com a sua ari- 
thmetica de pequeninos. 

Eram os premios de consolação. 


Com titulos bastantes para ser procurado pelos 
mestres da venatoria, não os tinha eguaes este sitio 
para ser frequentado por senhoras. Quem alli as 
levava, não era a fama das amenidades do logar, 
eramos nós, os caçadores, auxiliados por um certo 
estimulo artistico, o da curiosidade do contraste — 
ver a povoação dos pescadores, com as suas casas 
de colmo, armadas sobre os barcos! Um trecho da 
Africa, á vista, e a dois passos de Lisboa! 

Das classes populares tambem alguns alli iam fa- 
zer as suas agapes campestres. Mas essas, não ra- 
ro, tinham um epilogo comico, quando não tragico. 
Vinho quasi sempre, e, ás vezes, sangue. 

Casas de cal e arêa havia lá então duas ou tres. 
Na parede exterior d'uma d'ellas lia-se uma inscrip- 
ção, em grossas lettras d'almagre, commemorando 
que a modesta vivenda fôra honrada, tal dia, por 


48 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


um rei nosso. Se bem me recordo, foi D. João VI. 
E tambem me mostraram o tinteiro de faiança na- 
cional, pintalgado de amarello, vermelho e verde — 
tons crus — de que elle se serviu para escrever ou 
assignar não me lembro o que. 

Este sertão, inhospito para gente civilisada, foi, 
durante muitos annos, talvez pelo seu estado de 
natureza primitiva, um paraiso para os caçadores! 
Um completo mattagal, alto, denso, e espinhoso. In- 
vernos havia, porém, abençoados, em que parecia 
ter-se alli aberto a arca de Noé! A caça de arriba- 
ção em bandos! Eram abibes, tarambolas, narcejas, 
patos, maçaricos reaes, gallinhas d'agua, borrelhos, 
toirões, codornizes, e depois lebres, e até gallnho- 
las e perdizes, que desciam do monte —tudo com o 
seu acompanhamento de aves carniceiras, corvos, 
grifos e milhafres ! 

Quando Bulhão Pato começou a frequental-o com 
os seus amigos, ainda o Juncal era isto. Hoje lem- 
bra o locus ubi Troja fu... Aqui foi o Juncal!... 
Catado de norte a sul, de leste a oeste, dizem-me 
que não deita de si quatro codornizes! 

Não vou lá, ha talvez quinze annos, e no ultimo | 
dia as minhas perdigueiras levantaram apenas duas ! 

Ephémeros todos os paraisos! Até os dos caça- 
dores ! 


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Uma caçada no Juncal 
A Emilio Achilles Monteverde 


AQUELLE dia, ao romper da manhã — uma ma- 
nhã de novembro, fresca e luminosa — abicava 
“ao caes do Aterro, fronteiro á Rocha, toda a 
esquadrilha do patrão Lourenço —tres bellos ca- 
traios, governados por elle, pelo seu filho mais velho, 
João — um rapagão desembaraçado, e por outro ar- 
raes, alto e membrudo como um athleta, e que hoje 
é mestre d'um dos vapores de Cacilhas. 
Mocos e velhos, eram todos maritimos ás direitas, 
e naquelles barquinhos iam elles á pesca, e por lá 
andavam, sem medo e á ventura, fóra da barra! 
Quantas vezes, para não faltarem á sua palavra, 
elles nos vinham buscar alli, tendo perdido a noite 
no mar! E isto percebiamol-o nós pelo arranjo do 
barco, denunciante do servico da noite. Da bôca 


não lhes saiu nunca uma palavra, que podesse ser 
4 


50 CAÇADAS PORTUGUEZAS 
tomada como um encarecimento interessado, um ap- 
pello á nossa generosidade! 

João Lourenço já vinha com elles de Belem, tra- 
zendo as suas melhores espadas — o Tluers, a Norma, 
o Tibau, e outros. Acompanhavam-n-o o Eusebio, e o 
Joaquim Tavares, da Junqueira, como elle creado 
da Casa Real, boa espingarda e sizudo companheiro. 
Um excellente rapaz. 

lam senhoras tambem comnosco, mas, se eu es- 
crevesse em estylo classico, não poderia dizer que 
nós formavamos o cortejo de Diana, a caçadora. 
Nem a sr.* D. Maria da Piedade, a irmã do illustre 
poeta, nem as outras senhoras, suas amigas, tinham 
a minima pretenção a sportsyomen. 

A maré era boa, e aproámos ao Torrão, evitando 
o fadigoso transito pelo areal. 


Bem auspiciado o dia. Encontrámos logo as co- 
dornizes á beira mar, no principio do matto. Cru- 
zavam-se os rastros, como de costume, mas os cães, 
praticos do terreno e conhecedores da caça, logo 
destrinçaram a meada. D'ahi a pouco estavam todos 
parados à mostra do que ia na frente. 

Formoso e singular espectaculo! Impressiona a 
todos este repentino estacar dos perdigueiros. A 
passo, a trote, a galope, que vam, ao sentirem a 
caça proxima, ficam de improviso immoveis, na po- 


CAÇADAS PORTUGUEZAS JI 


sição em que ella os surprehendeu! Apenas um quasi 
imperceptivel tremor denuncia nelles a vida. 

Os nossos — eram sete ou oito--pareciam fundi- 
dos! Todos firmes em diversas attitudes, conforme 
o seu estylo de cacar. Norma, na frente, de cabeça 
alta e dominadora, apontava a caça; ao lado della 
o Thiers, marcando de mais longe, inclinava-se para 
o lado d'onde lhe vinham os effluvios; o Tibau, um 
cão preto como azeviche, arrastara-se como um re- 
ptil até ao centro do grupo, estacando subito! Os 
“outros, mais affastados, vinham correndo e parando 
por sympathia, por influencia, e iam assim com- 
pondo e completando o maravilhoso quadro! Intei- 
riçados, alguns com o pello arripiado, não moviam 
um musculo ! 

Como eu registro aqui impressões antigas, direi 
que na minha vida de caçador nunca mais tornei a 
ver coisa assim. Um grupo como este jámais artista 
algum o compoz. 

Diversos os animaes na pelagem, no desenho, na 
estatura, alguns d'elles—o Thiers, a Norma, a Joia 
— eram verdadeiras estampas: a mesma variedade 
tinham nas attitudes elegantes. 

As senhoras, surprehendidas e encantadas pela 
belleza da scena, approximaram-se, e todos nós for- 
mámos um arco, tendo no centro os cães parados. 

Na ponta esquerda estava Bulhão Pato. A' sua 
voz Norma deu a pancada. 

Em vão —a codorniz tinha-se furtado. 

Então os perdigueiros romperam a mostra, e par- 
tiram de novo em todas as direcções, em busca da 


52 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


caça, que lhes fugira. Não tardaram em achal-a, e 
eil-os outra vez estacados. Norma mantinha a dian- 
teira—a codorniz tinha-a ella apontada. E como já 
não havia defeza, porque estava no limite do matto, 
ella pôz-se nas azas. 

O vôo, estridulo no arrancar, denunciava um ma- 
cho. Naquella estação, naquelles logares as codor- 
nizes encontram abundante e succulento pasto nas. 
myríadas de pequeninos caracoes, que cobrem litte- 
ralmente as joinas. All se preparam para a grande 
travessia da sua emigração para a Africa. 

Aquella, como não havia vento, voava baixo, mas 
distanciava-se rapidamente. Ouviu-se um tiro. A co- 
dorniz caíu. 

A pontaria certeira foi de Bulhão Pato — pensará 
o leitor, que vae seguindo, e ás vezes anticipando, 
os factos... 

Não foi, e devia ser. Era o mais velho, o mais 
graduado — era o cabeça, o chefe. 

Mas entre nós havia um que, por ser o mais 
novo, o menos experimentado, se esqueceu de tudo 
isso, e, enthusiasmado com os lances d'aquelle jogo, 
não se conteve... A codorniz caiu redonda, mas eu 
— que fui o tal atirador — tambem caí logo em mim, 
e vi que, apesar da pontaria certeira, havia errado! 

Aqui fica o meu — Peccari... 

Pato, confiado em si, tinha-a deixado alargar. Não 
viu d'onde partira o tiro, e perguntou de quem fôra. 

— Fui eu. 

— Está bem. Bom tiro. Deixa-a vêr — disse elle. 

— Está gorda. Mas aqui ha mais. Vamos devagar. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS >> 


Effectivamente as paradas repetiram-se, e d'ahi a 
pouco dez codornizes tinham alli encontrado sua fim. 
Escusado é dizer que foram quasi todas mortas por 
elle, que era de todos nós a melhor espingarda. 

Coitadas, como o seu destino era atravessar um 
estreito, passaram por um — mas não foi o de Gi- 
braltar. 


O sol ia apertando. As senhoras deixaram-nos, e 
tomaram, com as creadas, o caminho da Costa. 

A” nossa esquerda tinhamos, em frente, a vinha 
do Miranda, bom abrigo para a caça, e, à direita, 
descobria-se a praia fronteira ao mar; mas no limite 
della, á beira do matto, appareciam-nos, aqui e alli, 
alguns lagos, que as chuvas do outono tinham for- 
mado. A agua era tão limpida, que se lhe via o 
fundo; apenas algumas moitas de juncos lhe som- 
breavam a superficie, que reflectia as raras nuvem- 
zinhas brancas, que pairavam quietas no ar. 

Aquelles lagos eram tentadores. Se elles tivessem 
narcejas... 

— Vou-me aos lagos — disse eu ao meu amigo. 
Está-me sorrindo a idéa de lá encontrar certas se- 
nhoras... 

— Pois vae. Eu não vou, não me quero agora mo- 
lhar. Tu não te importas com isso. Talvez lá este- 
jam algumas. Eu cá vou andando para a tapadinha. 

Eu fui, e ellas lá estavam. Não eram aos centos, 


4 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


ainda assim encontrei as bastantes para errar uma 
duzia de tiros. Mas não errei todas. 

Não sei o que as narcejas teem commigo; o que 
é certo é que eu — que em theoria, a frio, prefiro as 
perdizes e as gallinholas — quando defronto com ellas, 
nos terrenos alagadicos, que são os seus predilectos, 
perco a cabeca, e não ha lamas, nem aguas, nem 
lodos de marnotas, que me impeçam de as fuzilar! 
Será a difficuldade do tiro? Talvez. E é provavel 
que seja, porque é a caça que mais se erra. 

Entrar naquelles lagos era o mesmo que entrar 
em um tanque. A agua estava tão fria, e em alguns 
era tão alta, que tive de sair dum rapidamente: 
sentia já um começo de tontura. O que não me im- 
pediu de me metter logo em outro, e de andar assim 
mais duma hora, a entrar e sair da agua, debaixo 
d'um sol ardente, e num sitio tão sezonatico. Mas 
parece que eu andava então á guarda de Deus! Nem 
sezões, nem nada! 

As narcejas tinham já desapparecido deante de 
mim nos lagos, e a fuzilaria continuava a ouvir-se 
para as bandas da tapadinha. 

Encaminhei-me para lá. 


Boa caçada. Pato estava radiante —as codornizes 
saltavam-lhe das joinas aos pares! E elle já se firmava 
com ellas, por causa da brisa que se levantara, e tam- 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 55 


bem por causa dos cartuchos. Contava-as a ellas, e 
já os contava a elles, que iam rareando no cinto. 

— Então a tapadinha rende — disse-lhe eu. Merece 
o nome que lhe pozeste. 

— E” como vês. Tudo isto está cheio d'elias. Mas 
tu tambem achaste narcejas. 

— Trago aqui cinco, mas ficaram-me lá muitas. 
Estão um pouco asperas. 

— Olha os cães, Zacharias. 

Palavras não eram ditas e tres codornizes a sal- 
tarem. Estavam espertas, não esperavam. Bastava 
que os cães as apontassem. 

Tres tiros. Pato dobrou a duas, e eu matei a ter- 
ceira. 

— Dá cá, Thers. Olha, estão magnificas. E, di- 
zendo isto, passava-me á mão um esplendido macho. 
negro e de peito redondo. Todas assim 
tou elle. E' a sazão da partida. 

João Lourenço approximara-se com os seus com- 
panheiros. Estendemo-nos em ordem, e a fuzilaria 
continuou nutrida. Parecia o tiroteio d'uma linha de 
atiradores! 

Cruzavam-se, por vezes, os tiros, porque a caça, 
espalhada pelo Juncal, ia-se levantando deante de 
nós em toda a extensão da linha. Os nossos impro- 
visados mocos de monte —rapazitos do sitio, que 
sempre se nos aggregavam — ficavam-se atraz, a 
descançar nas raras sombras dos médãos, e Pato já 
ia repartindo comigo os despojos, que lhe começa- 
vam a pesar na rede. 

A brisa da manhã cessara, mas as nuvemzinhas 


accrescen- 


56 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


brancas quebravam, de quando em quando, o ardor 
do sol, que nos principiava a morder. Só as melgas 
nos perseguiam, obrigando-nos a fazer dos lenços 
guarda-nucas. 

— Aqui ha rastro d'uma lebre, sr. Pato — disse o 
João Lourenço, que ia atravessando um claro da 
areia. E lá vae ella! — gritou elle. Vae ao longo do 
médão! Ahi á sua direita! 

Com effeito ella ia-se furtando por entre as joinas 
e os juncos, aos saltos. Estava perto de nós. 

— Deixa-a endireitar a carreira — disse Pato. 

Era a primeira, que eu alh via. 

— Agora. É atirou-lhe. 

A lebre, ao tire, deu um salto, e atravessou, cor 
tando pelo Juncal. Ia ferida, e os cães, que a tinham 
visto, seguiram-n-a, e não tardou que a agarrassem. 
Estava crivada de chumbo. 

— Agora vae um cigarro. E vamos ás narcejas, 
emquanto o sol não aperta mais. Eu não entro na 
agua — apesar do nome — mas Vocês não fazem ce- 
remonias, e sacodem-m'as para fóra. 

Quando chegámos já lá estavam outra vez as re- 
gachas, como lhes chamam na provincia, e princi- 
piaram a espirrar d'entre os juncositos, que borda- 
vam os lagos. 

O tiroteio redobrou então de intensidade, porque 
ellas—ha pouco batidas por mim — andavam levan- 
tadas, e saltavam umas atraz das outras, á roda de 
nós, cruzando-se no ar em todas as direcções. 

A esta especie são dois os momentos em que se 
lhe pode atirar — quando levantam, e então é um 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 57 


tiro de chofre, ou quando, depois de fazerem os seus 
zigzagues, ellas acertam o vôo. O mais seguro é 
chofral-as—o que, em todo o caso, é um tiro de 
acaso — porque não ha tempo para apontar. Depois 
é quasi sempre tarde; ao endireitar vam saindo do 
alcance. 

Quem não é pratico, enthusiasma-se, dá muitos 
tiros, e não mata nenhuma. Foi o que me succe- 
deu nas primeiras vezes. O commum dos caçadores 
não gosta d'ellas por isso, mas os outros capricham 
em emendar a mão, e voltam. E ha tal que as pre- 
fere a tudo. 

O illustre poeta já então era optimo atirador. Eu 
admirava-o, quando o via dobrar os tiros, e tambem 
ingenuamente me admirava, quando via cair alguma 
daquellas bicudas, que eu mal entrevira, ao desfe- 
char. 

Para arredondar a conta das narcejas apparece- 
ram dois marrequinhos. 

Feliz a nossa visita à região dos lagos. 


Curtas as tardes do inverno. O sol descia rapida- 
mente sobre o horisonte, e as nossas sombras prin- 
cipiavam a alongar-se no chão. Era tempo de nos 
approximarmos da Costa. 

Iamos subindo pelo Juncal, quando a minha cadel- 
la— a Joia — que acabava de me apontar com grande 


SA! 


a) CAÇADAS PORTUGUEZAS 


frieza uma codorniz, deu uma fiada rapida, e logo 
outra, formando um angulo recto com a primeira, e 
ficou-se como uma rocha... Uma narceja perdida 
alli, e que apenas saltou caíu. E logo em seguida 
uma codorniz. 

Finissima perdigueira — cacada pelo Manuel Can- 
dido, da Charneca, ás narcejas, ás lebres, ás galli- 
nholas e ás perdizes— a primeira vez que a levei 
ao Juncal, vendo os outros cães accesos no rastro 


das codornizes, não fazia caso nenhum d'ellas; e 


parava a olhar para mim, como admirada, expro- 
brando-me talvez o eu tel-a arrancado aos seus 
frondosos pinhaes da Amora e de Corroios, para 
levantar passarinhos naquelle areal! Depois habi- 
tuou-se, não deixava escapar uma — mas era só por 
cumprir. 

Até chegarmos ao fim do Juncal, ás Cabanas, a 
caca não cessou de saltar. 

Ahi tivemos uma scena— armada de improviso, 
que se apresentou desde logo com torvo aspecto. 

Ao longo do caminho sobranceiro, que atravessa, 
no alto do Juncal, para as cabanas dos pescadores, 
havia uma nesga de chão, que o trabalho pertinaz 
do honíem tentara transformar em horta. Em cima, 
á beira do tal caminho, um poço explicava, e, até 
certo ponto, justificava aquella pretenção. Couves 
de talo rijo, esgrouviadas, e meio seccas, era apenas 
o que all se via! 

A' esquerda, em terreno mais alto, duas chocas de 
colmo dominavam esta horticultura, pobre, triste, e 
agreste, como toda a região d'aquella costa. O couval 


Tod Ro 
mo o 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 50 


não tinha sebes, que o defendessem, e por ahi costu- 
mavamos nós passar, à ida e á volta. A plantação era 
rara, e podiamos. transitar sem prejuizo. 

A invasão das codornizes chegara, naquelle dia, 
até lá, e quando Bulhão Pato, indo na nossa frente, 
a certa distancia, entrou na horta, os cães deram 
logo signal de algumas. Seguia-os elle, attento, 
quando à porta duma das choças assomou um ho- 
mem, que lhe falou grosseiramente, çomecando 
por um: 

— Ponha-se lá fóra! que soou muito mal aos ou- 
vidos do poeta. 

O dialogo travou-se assim rudemente, mas nós, 
eu e o Joaquim, que estavamos um pouco longe, 
não percebemos nem estas palavras, nem as que se 
lhe seguiram, e só conhecemos a gravidade da si- 
tuação, quando vimos Bulhão Pato, com gestos de 
ameaça, pôr a espingarda no chão, e avançar para o 
rustico. Apressámos então o passo, tanto mais que 
o homem, recuando, entrara bruscamente em casa. 

As primeiras palavras do dialogo não as ouvi, mas 
ouvi as ultimas — as do poeta. .. Não eram academicas, 
não, não as posso aqui repetir; mas, num crescendo 
formidavel de violencia e de injuria, foram subindo 
até terminarem no mais agudo dos insultos — agudo 
no sentido e na palavra — repetida tres vezes, a 
fechar a tremenda apostrophe! A mais eloquente 
de certo, que jámais trovejara naquelles campos. 

O homem podia voltar, mas não voltou. Temeu-se 
elle do cacador, cuja voz mascula tinha as impetuo- 
sas e dominadoras vibrações da colera, e que avan- 


do CAÇADAS PORTUGUEZAS 


cava para elle com os punhos cerrados — ou estaria 
lá alguem, que o segurou ? 

Quando nós, seguindo o mesmo trilho de Bulhão 
Pato, atravessámos a horta e depois, trepando pela 
rampa, passámos em frente da palhota, olhámos para 
lá. No escuro da porta não havia ninguem. 


Voltara o silencio áquelles logares. A nuvem ne- 
gra, que de repente surgiu, a turvar-nos a limpida 
atmosphera d'aquelle formoso dia, desapparecera, 
varrida pela voz do poeta. 

D'allh a pouco estavamos todos reunidos na casa 
de jantar da sr.: Maria do Adrião. Ao lado, na sala, 
de paredes estucadas, e tecto com relevos — uma 
surpresa para nós aquella restauração — a menina 
Cazimira extrahia das gavetas das suas bellas com- 
modas de polimento, e mostrava ingenuamente às 
senhoras, as riquezas e os primores da sua guarda- 
roupa — chales, vestidos de côres garridas, saias com 
rendas finas, camisas bordadas, lencos de seda de 
ramagens, que tão bem ficam, e tanto realce dam 
áquelles rostos campesinos, já illuminados de tons 
quentes pelo ar do campo e pelo sol. 

Uma figura gothica — esta menina Cazimira. Alta 
e Eles de corpo, nem pallida, nem córada, a voz 
d'um timbre algo dorido, avara de palavras, os olhos 
sempre postos no chão, e um não sei que de triste 


O oo 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 61 


e enigmatico, davam-me a impressão de quem não 
anda satisfeito cá na terra... 

Estas figuras, quando teem uma plastica indivi- 
dual, e caracteristica, por apagada que seja nellas 
a expressão da vida, são, como as estatuas, sugges- 
tivas. Imprimem-se indeleveis na memoria, e entram 
na galeria do nosso mundo interior. E' com estas 
imagens, cujos contornos o tempo vae esbatendo, 
que os artistas e os poetas compõem os seus qua- 
dros, os seus romances, e os seus poemas. 

Aquella donzella, serena e silenciosa, recortava-se 
alli, aos meus olhos — destacando do discorde sce- 
nario, e parecia ter saído d'algum velho painel fla- 
mengo, de Van Eyck ou de Memling — interior de 
cathedral gothica, ou comitiva castellã, em caçada fi- 
dalga, com pagens, lebreus e falcões. 


A's Ave-Marias vinhamos nós nos barcos, já de 
volta, aconchegados nas mantas, fumando e conver- 
sando. Nos paneiros os cães, enroscados, dormiam. 

Ouviam-se, rio acima, as sinetas de bórdo, e, para 
o norte, o tiro de peca da torre de Belem annuncia- 
va, com o seu ruidoso pregão, o pôr do sol —um sol 
poente de outono, illuminando e doirando os aereos 
castellos das nuvens, tão cambiantes, diaphanos, e 
fugitivos, como os da minha phantasia, naquelles 
aureos tempos da mocidade!... 


A 


DA e a 


E = * cd +, 4 ai 
= psd ES SRA Ad py MOTO 


No Cejo 


uanDo chegámos a Belem vinha rompendo a 
manhã. O mar estava sereno, o ceu azul fer- 
rete e limpo de nuvens; apenas uma brisa 
ligeira da terra encrespava a agua, que corria ra- 
pida na vasante, mostrando aqui e alli grandes man- 
chas escuras, junto ás duas margens, e em volta dos 
navios d'alto bórdo, surtos em frente do Lazareto. 

O sol, erguendo-se detraz d'umas nuvens diapha- 
nas. nacaradas, e com uns tons alaranjados no cen- 
tro, parecia affastar brandamente as faixas em que 
tinha jazido, e com toda a natureza acordar tambem 
para o trabalho, para a vida. 

As gaivotas, com os seus gritos estridulos, cruza- 
vam-se no ar, e desenhavam as suas graciosas cur- 
vas, ora subindo, ora descendo, a adejar, poisadas 
nas aguas quietas, mergulhando nos sitios onde a 
babugem lhes attrahia os olhos penetrantes e gu- 
losos. 


64 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


Já se ouvia o rumor da terra, que principiava a 
despertar. No rio o toque das sinetas, o virar dos 
cabrestantes, as cornetas a bórdo, a voz arrastada 
dos catraeiros, o som compassado dos remos, os 
apitos dos vapores, tudo mostrava que a faina do 
mar começava a par da labutação na terra. 

O frio da manhã entorpecera-me o corpo. Levan- 
tei-me, passei da pôpa para a prôa, aspirei a plenos 
pulmões a brisa do norte, saudei como um oriental 
o sol nascente, aconcheguei melhor o gabão, accendi 
um charuto, e sentei-me outra vez, e puz-me a olhar 
para tudo o que me cercava, neste vago scismar 
que sempre provoca em nós a contemplação dos 
grandes espectaculos da natureza. 

A” direita erguiam-se as rochas negras e escalya- 
das da Outra Banda; á esquerda as terras e colli- 
nas avermelhadas do norte; a cidade prolongando-se 
para o fundo, estendida em amphitheatro. Aqui e 
alli illuminavam-se as vidraças das torres e dos mi- 
rantes, as grimpas dos corucheus e campanarios, a 
frontaria da Ajuda, a torre das Necessidades, a 
cupola da Estrella: os primeiros fulgores do sol nas- 
cente iam accendendo nas alturas, como fachos de 
almenaras, focos deslumbrantes de luz faiscante e 
vivissima, que pareciam incendios, despedindo os 
seus reflexos irisados, fulvos e vermelhos como 
chammas. Ao centro, e enchendo o valle profun- 
dissimo que jaz entre as duas montanhas, o rio largo 
e tranquillo, recortando-se nas grandes curvas das 
margens, aqui pardacento e espelhado, além em 
plena luz; beijando mollemente a terra com o leve 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 05 


e fresco rumor das suas aguas, como um timido 
amante, que: murmurasse o seu affecto á mulher 
amada; deixando depois na praia as suas perolas 
vivas e espumosas, irisadas pelo sol, que parecia 
beijal-as tambem; embalando os barquinhos ele- 
gantes e os grandes navios; e indo depois por um 
lado lancar-se no mar, e pelo outro abrir, acima da 
cidade, a larga e admiravel bahia de Santa Apo- 
lonia ! 


O mar inspira os poetas, por que tem a grandeza 
e a solidão. Quem, no meio da vasta extensão das 
aguas, não sente o espirito levantado, e impellido 
irresistivelmente para a contemplação interior d'ou- 
tros mundos, d'outras épocas, d'outras sociedades, 
d outras civilisações? Isola-se a alma de tudo que a 
cerca, eleva-se, e paira nas regiões da historia. 

Neste logar em que estamos, quantas gerações 
passaram! Quantos homens illustres viram estes 
mesmos rochedos, aquellas mesmas torres, que 
agora contemplamos, nós, que passaremos tambem 
como elles! 

Sobre as aguas do mar quantas tragedias sangui- 
nolentas, quantas batalhas famosas, decidiram da 
sorte dos povos e dos reis! Aqui—diz o viajante 
-—-é Salamina, e julga ouvir o som das espadas e 
das lanças nos escudos gregos, acompanhando os 


hymnos frementes da victoria! Aqui é Actium, e as- 
E! 


06 [CAÇADAS PORTUGUEZAS 


siste à fuga de Cleopatra, à deshonra de Marco An- 
tonio! Aqui é Lepanto, e vê as espadas hespanho- 
las e italianas tinctas no sângue dos orgulhosos Os- 
manlis, destrocados e mettidos a pique! Aqui é Tra- 
falgar, uma das feridas sempre abertas no flanco do 
moderno Prometheu! Aqui é Navarino, e vê surgir 
a Grecia livre ! 

E nós? Não foi d'aqui mesmo que levantaram 
ferro as naus de Vasco da Gama? E todas as da 
Africa, da America, e da India? Oh! os mares e os 
rios tambem teem a sua historia, e a historia do 
Tejo anda ligada à nossa, no assombroso periodo 
da sua grandeza ! 

Foi já moda, entre certos espiritos, fazer mofa do 
grande, do esplendido rio. Sem idéas, e até sem 
grammatica, alguns disseram mal d'elle, mas o Pa- 
-dre Tejo é generoso, esquece a injuria, lava-a na sua 
corrente, e tambem os lustra a elles, quando, pur 
acaso o procuram! 


Ora foi exactamente neste ponto de lavagens que 
estava a gente do nosso barco, quando eu acordei 
“das minhas divagações. A tripulação andava já na 
Jabuta diurna. 

Lourenço — o arraes — enxugava com um” panno 
os bancos, molhados pelo orvalho da noite, em- 
quanto o filho mais velho lavava com o lambaz.o 
exterior do bote. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 67 


— "Temos um lindo dia, patrão. 

— Parece-lhe, Lourenço? Olhe que o tempo tem 
feito assim umas caretas. 

— Pois sim, senhor — mas hoje, graças a Deus, 
ha-de ter um bom dia. Veja o sol como vem. José '— 
gritou elle para o fundo do barco — leva arriba. 

De cima dos paneiros, d'entre as dobras d'um co- 
bertor, saiu um murmurio somnolento, remecheu-se 
um vulto, e depois surgiu uma cabecinha — um pe- 
querrucho, a esfregar os olhos, e, com a voz ainda 
entaramelada, disse : 

— Pae, já é dia? 

» -— Se é! O sol já vae alto. Anda, que temos que 
fazer, e não se ganha a vida a dormir. 

— Então hoje, pelo que vejo, foi noite de pesca, 
Lourenço ? 
| -— Sim, senhor, quando voltámos da barra havia 
de ser mais da uma. 

— E o pequeno tambem foi ?! 

'— Tudo quanto aqui está de lá veiu. O peque- 

«. + Isso não me larga já! Filho de peixe pucha 
para o mar. 

— Quantos filhos tem você : 
 — Tres rapazes:e uma menina. 

— E sustenta-os todos ? 

— Os dois botes, .com a graça de Deus, dam para 
tudo, meu senhor. 
| O pequeno levantou-se, veiu pedir a benção ao 
pae, estirou os bracinhos como para sacudir os res- 
tos do somno, e, debruçando-se na borda do bote, 
metteu as mãos na agua, que lhe subiu até aos coto- 


08 CAÇADAS. PORTUGUEZAS 


velos. com a força da corrente, e lavou a cara. De- 
pois foi á prôa, e ajoelhando, voltado para o sol 
nascente, resou. Percebi-o, quando elle se ben- 
zeu. 

Novo para mim, e inesperado, aquelle pequenino 
episodio, fiquei-me a scismar naquella. saudação 
oriental — aquelle dialogo de duas auroras. . 

Terminada a resa voltou e sentou-se no fundo do 
bote, a calcar os sapatos para ir a terra. 

— João — disse o arraes para o filho mais vel 
leva esse comtigo, e a mãe, que te dê o gabão. 
Talvez seja preciso, lá para a tarde — completou elle, 
e, olhando para mim: — O senhor ha-de querer o 
seu café, mas tenha paciencia de esperar um nadi- 
nha, porque o raio do fogareiro apagou-se, e agora 
vamos accendel-o outra vez. 

— Está fresquinho. Vae uma golada, Lourenço ? 

— Isto não é nada, já passa: é a aragem da ma- 
nhã. Obrigado, patrão. Esta é de Paraty. 

— E de Paraty no Brazil, mas aqui é para nós. 

— O senhor sempre está com a caninha na agua. 

Lourenco — o Lourenco da Pinha — era então o 
nosso barqueiro. Bulhão Pato, José Galache, Lopes 
Cabral, D. Diogo Botelho, Emilio Monteverde, quasi 
todos os caçadores de Belem, não queriam outro 
para as suas excursões ao sul. 

Trigueiro, robusto, curado pela brisa aspera do 
Tejo, apezar dos cincoenta já passados, fazia gosto 
velo encarar o mar e o vento, governar o barco e 
mandar a companha. 

E ninguem a tinha melhor: eram os seus filhos. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS Og 


Quantas vezes, durante as nossas travessias, eu me 
surprehendi a observar aquelle homem, aquelles ra- 
pazes — alheios a tudo — falando só na sua vida, sem 
invejas, e sem ambições! Em terra o lar aconche- 
“gado, all á beira do rio; no mar os barcos — tinham 
dois —e as redes: nisto se cifrava o seu passado, o 
seu presente e o seu futuro. Deus, o mar, e a fa- 
milia, eis os pontos cardeaes do mundo d'aquelles ho- 
mens verdadeiramente simples — no bom sentido da 
palavra—e como hoje só se encontram, naquelle 
estado de pureza, na gente do mar e do campo. 

Aquelles espiritos, sinceros e crentes, eram vir- 
gens de todas as duvidas, de todas as negações do 
mundo moderno, e representavam aos meus olhos 
o povo de outras eras. Demoraram-se:na estrada da 
civilisação, chegaram mais tarde, e achavam-se no 
meio d'uma sociedade, formada de elementos para 
elles desconhecidos. 

Entre estes trabalhadores isolados — scismadores 
forçados pela sua vida, ora embalados no dorso das 
ondas, ora sacudidos pelo vento, e não raro afiron- 
tando a morte—e os operarios das cidades, sem edu- 
cação moral, e muitas vezes pervertidos pelas leitu- 
ras, onde elles procuram o recreio e a instrucção, e 
encontram o veneno dos odios, das ambições vãs, e 
das illusões de tanto visionario— ha um abysmo! 

Um espirito, cego e rebelde, que influe as gerações 


70 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


actuaes, orgulhosas pela sciencia, e desmoralisadas 
pela politica, e lhes dá o valor para insultarem todas 
as jerárchias e divindades, e, como o Ajax antigo, 
aifrontarem o céu, de punho cerrado, não pode mo- 
rar no peito d estes homens, porque, quando o vento 
levanta o oceano, lhe erriça as ondas, e o faz bra- 
mar como um leão enfurecido, elles sentem-se pe- 
quenos deante de tamanha grandeza!... 


ses (oia visou a 0d info top o elo ln o pro dê w ou no nn» oa dio 6) pib ab pane 


Ouviu-se o toque da sineta na ponte dos vapores. 
Era a realidade do mundo exterior a despertar-me 
outra vez das minhas meditações. Logo depois, no 
caes, a voz do João Lourenço, os latidos dos cães, 
c as saudações amigas dos companheiros, que vi- 
nham ao nosso encontro. 

A brisa refrescara um pouco. Armou-se a vela, 
arrumou-se a gente toda a uma banda, e o catraio 
do Lourenço largou e seguiu veloz, arfando, e cor- 
tando a agua, que aljofarava a prôa com a sua es- 
puma irisada e brilhante. 

Lourenço conseguira, finalmente, aquecer-nos o 
café: baptizamol-o com algumas gottas d'um cognac 
alambreado e finissimo, e brindámos alegremente ao 
ignoto, ao futuro ! O' mocidade! 

Approximavamo-nos do sul: aquella travessia com 
vento norte faz-se depressa. A Trafaria já rumore- 


E A 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 72 


java: OS rapazes e os cães retouçavam na praia. 
Tambem lá estava um amigo á nossa espera. 

Emilio Monteverde, rodeado de montes de peixes 
varios, dava as ultimas ordens, como general experi- 
mentado, e nós fomos recebidos com todas as honras 
do estylo e com uma saborosissima caldeirada, feita 
all, ao ar livre, e regada com um vinho branco ex- 
cepcional. A melhor caldeirada e o melhor vinho 
branco de que hei conservado memoria. 

Isto foi ha muitos annos. Que saudades desse 
tempo! Lembram-me, neste momento, aquelles sen- 
tidos versos da Introduccão do Fausto, de Gecthe, 
que o Garrett cita nas Viagens na minha terra: 


Resurgis outra vez, vagas figuras, 
Vacillantes imagens, que á turbada 

Vista acudieis d'antes... 

Trazeis-me a imagem de ditosos dias, 

E d'ahi se ergue muita sombra amada!... 


E lá, ao longe, perdidas nas brumas do espaço 
e do tempo, entrevejo agulhas de cyprestes... 


A 


ES Pa OA 


Pe iza e pras à. 
pod SE a qu ! 


ÁS E 


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Y RD AD LA RD Do RD RD RD Do RD RD Do RS 


EM TITIM TIRO TINA ANUO PRIEC RCA FARA TUR TERES AO RR POA ERR RE RR OR ERR RR RD UR TR RR ER TR O TT | 


AL Pam À 


puto 


—(0—rê 


Uma partida de mestres 


ERDIZ ferida, com os pés desembaraçados, em 
terreno que a ajude a defender-se, quasi sem- 
pre dá agua pela barba a cães e cacadores. 
E ás vezes ella fica lá, e então o bigode é completo! 

Isto é velho, e todos temos casos d'estes para con- 
tar. 

Agora fazer uma codorniz o mesmo, ter as mes- 
mas habilidades!... é mais raro. 

Andando eu a caçar no Juncal, uma destas se- 
nhoras deu, deante de mim, sota e az ao Fadista, o 
melhor cão que eu conheci para codornizes naquelle 
sitio, então um campo unico de exame e provas 
publicas para bons narizes de perdigueiros: Pois era 
um mestre na arte de cobrar o ferido, o que se chama 
um tira-teimas, tanto nisso como em as levantar. 
Aponto o logar das suas proezas, e quem-o frequen- 
tou, ha vinte annos, fará idéa das ventas do animal. 
e, sobretudo, da sua pertinacia no atague ! 


74 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


Tira-teimas é que elle se devia chamar, é o que 
lhe assentava bem, porque de fadista é que elle não 
tinha nada. Com efeito nada, no seu physico, Jem- 
brava o exterior d'este typo original das nossas ci- 
dades. Ade mais um porco, do que um perdi- 
gueiro 

a e feio — absolutamente feio — rustico, 
grosseiro, sem um atomo de distincção. A pellagem 

castanha escura, longa, crespa e hirsuta; atarracado 

e baixo de pernas; a cabeca de um goso; os olhos 
pequenos, sumidos e humildes; as orelhas com a fle- 
xibilidade d'uma sola, e a cauda grossa e curta, com 
um longo pincel de pellos na extremidade: eis o in- 
volucro exterior! Mais um caso do feio de corpo, e 
bonito de... nariz. 

Genealogia ? Não lhe era conhecida. Não havia em 
todo o reino de Portugal e Algarve kennel-book aris- 
tocrata, burguez ou vilão, que lhe tivesse registrado 


a ascendencia: era um engeitado, um filho das ervas.: 
Mas D Alembert tambem o foi, e nem por isso o fi- 
lho de Madame de: Tencin deixou de ser um grande. 


sabio e fundador da Encyclopedia!... O nosso he- 
roe, não podendo ser um grande sabio, resignou-se 
com à sua sorte, e foi um grande... cão de codor- 
nizes! 

Vadio — tudo o que ha de mais bohemio, fazia elle 
uma ou duas apparições por dia em casa de Bulhão 
Pato, e à noite pedia hospitalidade a D. Diogo, que 
vaidosamente se intitulava seu dono. Ahi, em ves- 
pera de cacada, vigiavam-n-o cuidadosamente, para 
que, à hora da partida, elle estivesse presente à cha- 


Elo 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 75 


mada. Na comitiva ia sempre atraz de todos. Pare- 
cia ter a consciencia de ser um fraca-roupa, e então 
deixava aos outros os primeiros logares. 

Cabeçudo até mais não, no campo tambem se 
ficava para traz, a duzentos metros de nós, levan- 
tando e perseguindo as codornizes, dando-lhes, por 
sua conta, levantes sobre levantes ! E, por mais que 
o chamassemos, não havia apitos, que lhe abrandas- 
sem a furia — carregava-as a galope! 

E depois destas correrias voltava finalmente, e 
vinha rebolando-se pelo matto, até que, chegando 
mais perto de nós, lembrando-se da sua desobedien- 
cia, com medo do castigo, principiava a retardar a 
andadura. .. Percebendo que estava perdoado, ani- 
mava-se então, deitava-nos um olhar entre agrade- 
cido e desconfiado, e passava, muito de largo, sara- 
coteando-se, para a nossa frente. 

Um grande ratão este animal. Não conheci outro 
d'aquelle feitio. 


O dia—um dia de inverno, com o ceu nublado 
— ja já no entardecer, e nós retiravamo-nos em 
direcção á praia, para atravessarmos para o norte. 
Desagradavel a brisa, que nos vinha do mar. O Fo- 
dista, ao passar por umas moitas de joina, fez um 
reparo, e nós demorámos um pouco o passo. Mas 
como tinhamos pressa, e a nossa caçada estava 
feita, seguimos avante. Elle, porém, ficou. 


70 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


— A scena do costume! — disse Bulhão Pato. Fa- 
dista! Volta aqui! 

O cão ouviu, levantou a cabeça, olhou para nós, 
e... continuou na sua faina. 

Repetiram-se as chamadas em todos os tons agu- 
dos, e elle aos pulos, zigzagueando furioso por entre 
as joinas, não arredava pé de lá! Já ladrava! 

— Algum ouriço... lembrava um. 

— Uma cobra... dizia outro. 

— "Tudo isso pode ser, mas nós nem o deixamos 
cá, nem havemos de ficar aqui, à espera que lhe 
passe a phantasia — e dizendo isto encaminhei-me 
para as joinas. 

Não saltava nada, e o Fadista amarrava-se, des- 
amarrava-se, rodeava e cruzava as moitas, ladrando, 
e atirando-se para cima d'ellas... Parecia doido! 

Eu principiava a estar muito intrigado com aquella 
scena, cujo desenlace me apparecia um pouco nebu- 
loso, e já falava tambem ao cão, e já apostrophava 
o mysterioso, O esquivo animal, que tanto se escon- 
dia! 

O que estava alli, que se furtava constantemente, 
e que o cão, por vezes, parecia vêr? Umas poucas 
o deixei lá sósinho, a contas com aquella incoguita, 
e outras tantas, dados alguns passos, voltei atraz, 
partilhando já d'aquella especie de fascinação, que 
a elle o prendia all!... 

Finalmente, depois de muitos cercos, voltas, ré- 
viravoltas e saltos, o Fadista deu uma pancada ao 
centro d'um macisso de joinas, e saiu de lá com uma 
codorniz na bôca! Triumphara a sua pertinacia. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS E? 


A codorniz, extenuada da lucta, agachou-se, € 
elle, que a viu, abocou-a. 

Estava ferida -daza— é claro. Quem fôra? Ne- 
nhuns outros caçadores, além de nós, andaram lá 
naquelle dia, e nós de manhã, encontrando alli caça. 
tinhamos-lhe atirado. 

Aquella codorniz, com que acabava de se illustrar 
mais uma vez o nosso cão, era alguma das que 
chumbámos, e que alli se conservou á espera d'a- 
quelle maurais quart d'heure, que foi o ultimo capi- 
tulo das suas peregrinações. 

O Fadista ganhara a partida. 


pa E 


Coelho por lebre 


A Jose Augusto Galache 


EBAIXO dos pés se levantam os coeihos e, ás 
vezes, ao mesmo tempo, os trabalhos. Este 
- Caso “que vou: contar, não foi, mas ia sendo 
serio. 
Era numerosa naquelle dia — um doming 
“cohorte dos caçadores, que nos aprazaramos para o 
Juncal. Muitos, e de diversas procedencias — o que, 
se é bom para a variedade, é mau para a ordem. 
Não cram os meus companheiros habituaes, com- 
tudo, como fossem todos conhecidos e bons rapazes, 
correu ás mil maravilhas a caçada. Havia muitas 
“codornizes; e todos estavam contentes. Tiveramos 
bom vento. á ida, e a tarde parecia amena para a 
volta. . 

Um bello dia de caça, emtim. 

Explorado o Juncal.fomos subindo, e achavamo- 
nos defronte das Cabanas da Costa, quando deante 
“de nós se levantou um animal, que partiu aos sal- 
“tos, por entre o matto, mais raro naquelle sitio. 


* 


80 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


— Uma lebre! Uma lebre! — gritou X, o meu 
companheiro da direita. 

— Uma lebre ! repetiram em toda a linha. 

— É' um coelho — disse eu ao amigo X. Não lhe 
atires — porque tens de pagal-o. 

— E” lebre — respondeu elle, e avançou rapida- 
mente, na direcção que elle levara. 

X era bacharel, e não desmentia a fama de que 
gosam os seus patrícios: — era muito teimoso, e le- 
vava muito tempo a descer da burrinha — como se 
costuma dizer. E como naquella occasião, não havia o 
tempo necessario, elle não desceu, atirou à lebre, e 
matou um coelho! 

Um bicho enorme, e o que havia de mais manso! 
Legitimo filho da coelheira, nascido e creado alli 
com as couves e as alfaces da horta. 

Quando X voltava com o innocente roedor sus- 
penso da mão, acariciando-o com um ar guloso, mas 
não glorioso, disse-lhe eu: 

— Então para isso foste tu a Coimbra formar-te 
em direito ! Para não respeitares a propriedade alheia! 
Até a tua espingarda está de bôca aberta! Que tal 
a lebre? 

Elle —mettia dó. Que comprimento de naviz! 
Santo Deus! Parecia ter morto alguem. 

— Calla-te, Zacharias, estou deshonrado ! E então 
deante d'esta gente, que eu não conheco, e que me 
vae pôr pelas ruas da amargura !... Não tens ahi 
uma lebre, que me passes ? 

— Para quê? Estás tonto! Aqui de cada vez não 
apparece senão uma... Vamos andando. Mette o 


CAÇADAS PORTUGUEZAS BI 


coelho na saca, e diz-se-lhes que foi lebre. Dentro 
da rede poderá passar.. 


Estava, porém, decidido-que o incidente não fi- 
casse por alli. D'umas choças à nossa esquerda, saiu 
uma mulheraça, gordânchuda, e detraz d'ella, a pou- 
cos passos, dois homens, novos, reforçados, triguei- 
ros e barbados, dirigindo-se todos para nós. Em 
frente e do lado das Cabanas, como era domingo, 
havia tâmbem espectadores, encostados às sebes. 

A matrona era a dona do coelho. O rosto cole- 
rico, e o ar assomado. 

'— Então' os senhores veem aqui matar a creação 
da gente?! vociferou ella n'um falsete, que não cor- 
a pondia ao agigantado da estatura. 

* Surprehendido com o coelho na mão, X travou 
um dialogo animadissimo com a velha matrona, que 
não mé pareceu logo de facil composição. Naquelle 
pleito o reu corria o risco de não salvar as suas pro- 
sapias de caçador. Fôra apanhado em flagrante. 

— Qtial creação, tiasinha'? replicou elle.. 

“— O meu coelho, esse que o senhor tem ahi na 
mão — disse ella com o gesto accusador e a voz irada. 

— Coelho ! A uma lebre é que eu atirei. 

— Ora vejam! — observou um dos do povo — ati- 
rou a -uma lebre, e matou um coelho ! 

X insistia em que era lebre. A parte queixosa cor- 
traditava, acerrima, que era coelho... 


82 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


Finalmente o doutor, forçado nos ultimos. entrin- 
cheiramentos, declarou terminantemente que não ti- 
nha obrigação de distinguir lebres de coelhos d'aquelle 
tamanho, a quarenta metros de distancia ! 

A sessão protrahia-se, e podia, d'um instante para 
o outro, tornar-se tumultuosa. 

Um conflicto alli seria caso gravissimo. Eramos 
muitos — talvez dez —e todos armados com espingar- 
“das de dois canos, de carregar pela culatra. Como 
eu todos tinham abundantes munições; eu, á mi- 
nha parte, no cihto e na bolsa, costumava levar 
setenta cartuchos, alguns embalados. Abatidos os 
que disparara, ainda me restariam cincoenta. E a 
maior - parte -des'-miéus companheiros não: eram ho- 
mens de voltar' as costas... Mas tinhamos o rio na 
retaguarda e haviamos de embarcar deante do ini- 
migo, e pelo flanco esquerdo teriamos contra nós a 
gente da Trafaria... Era um desastre certo, e não 
poderiamos voltar lá mais. Uma sensaboria enorme. 

Naquella situação uma palavra imprudente podia 
precipitar os acontecimentos. X mantivera-se até 
“al teimoso, mas correcto. Um dos outros é que 
principiou a altercar com os homens, e como as pa- 
lavras — diz o povo — são como as cerejas, o dialogo 
já se ia azedando. 


Era tempo de intervir na pendencia. Como eu:sei,' 
e nunca me esqueco, que estes casos, quando se 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 83 


lhes acode a tempo, se resolvem com boas manei- 
ras, acompanhadas por um sujeito, que gosa de grande 
prestigio, e que até, antigamente, tinha entre nós por 
divisa — In hocsigno vinces—eu sai do grupo, e, 
conservando a espingarda atravessada na mão es- 
querda — minha posição habitual — avancei para a 
queixosa, que estava vermelha como um pimentão, 
e, ao passo que mettia a mão na algibeira do meu co- 
lete, disse-lhe, com 'o tom mais sereno e amavel de 
que podia dispor naquelle momento : 

— Antes de tudo — faz-me favor — diz-me como 
se chama ? 

— Margarida, uma sua creada. 

O tom da voz com que ella me respondeu já 
era outro. As attenções todas concentraram-se em 
nós. 

— Pois bem, sr.? Margarida, nós não viemos aqui 
para lhe fazer mal a vocemecê, nem a ninguem. 
Basta olhar para nós, e para as armas que trazemos 
nas mãos, para se ver que não somos furta-gallinhas, 
nem coelhos. Eu venho aqui ha muitos annos. 

— Eu tambem não digo isso, nem V. S.º é pes- 
soa que acompanhasse... | 

Estava, como se costuma dizer, salva a situação. 
A senhora Margarida parecia já disposta a parla- 
mentar. 

— Ora então — continuei — já se vê que houve 
aqui um engano, que não tem remedio. O coelho era 
seu, mas a senhora deixava-o ahi á solta pelo matto; 
e por isso não admira que acontecesse o que acon- 
teceu. 


S4 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


Nesta altura do dialogo tinham-se aproximado de 
mim uns pequenos, e um d'elles dizia : 

— Elle andava Ea ahi fugido, ha mais de quinze 
dias. x 

— E' verdade, segundou o, outro — e tambem ha 
mais de vinte. Ella nem-já sabia delle. Eu não lhe 
dava nem uma de X. Chamava-lhe um figo, ó Zé. 

— Agora, sr.2 Margarida, como nós não havemos 
de ficar aqui parados — continuei eu, que não per- 
dera as palavras dos rapazitos, vamos a falar serio : 
quer o coelho ou dinheiro ?. 

“— Ora essa! Leve V. S.2 o coelho —e que lhe 
faça muito bom proveito. 

Os pequenos continuavam os seus“apartes. -- 

— O" tia Margarida, você 'fez negocio. Tinha já 
perdido o animal, e agora compram-lh'o! 

— Deixa-me — resmungou ella sacudidamente. 

— Quanto vale o bicho? diga lá. a 

— O que o senhor quizer dar. 

— Não me serve essa resposta. Diga quanto quer. 

— Nada, não, senhor. (O) que V. S.a disser está 
bem dito. : PR 

— Então fica bem pago por doze vintens ? 

— Sim, senhor. Muito obrigada. 

Depois de lh'os dar, ainda insisti para que ella fi- 
casse com o coelho. Era grande generosidade da 
nossa parte, mas, ao. mesmo tempo, era boa poli- 
tica. EE 

A tia Margarida recusou-se, porém, a acceital-o. 

Os olhos Ao toda aquella gente, ha pouco amea- 
cadores, seguiam agora, serenos como os de simples . 


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(ENANANANANANANANANANOS Dia) 
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6% 


Aos patos 
Em Val de Zebro 


ESSA noite —a de 28 de novembro de 186. — 

que noite, e que frio! — nenhum de nós fal- 

tou ao praso dado, que era a meia-laranja do 
Terreiro do Paço. 

Receberamos o santo e a senha de Lopes Cabral 
— o chefe da expedição — e alli nos achámos todos, 
ás tres horas da manhã, com armas, cães e baga- 
gens. aa 
Eramos muitos, e tantos que o Lourenço —o nosso 
barqueiro, que o leitor já conhece — trouxera dois 
botes catraios magnificos, costumados com elle a af- 
frontar o mar da barra. 

' Feita a chamada — presentes todos — os botes atra- 
caram ao caes, e procedemos ao embarque com as 
cautelas que exigiam o escorregadio do lagedo, as 
botas pregadas, os cães: buliçosos, que se nos em- 


88" "CAÇADAS PORTUGUEZA 
Dm ame ão e DO 
baraçavam nas É perniã e-asondulação 
ora “trazia, ora «afiastâva «95. bárcos:: Dt a 

A noite estava eseuirascomo brêu: À comparação 
tem a côr local, e é verdádeira: quasi que não nos 
viamos uns aos outros ! 

Arrumadas as bagagens e os cães, e distribui- 
dos os logares, armaram-se as velas, e largámos, 
aproando ao sul. Pouco antes de nós partirmos ti- 
nham caído uns ligeiros borrtfos, mas o ceu limpara, 
e só viamos, na amplidão immensa, as estrellas scin- 
tillar vivissimas. 

Um de nós, notando o extraordinario brilho das 
constellações, disse: ” 

— Lavaram a cara com a agua da chuva. 

O dito foi festejado e pôz-nos logo de bom humor. 

E a apresentação: dos interessantes caçadores ? 
Ahi vae. sie h 

Bulhão Pato. 

José Jacintho Lopes Cabral de Medeiros; Se dê 
Villa Franca do Campo —um mestre na arte daçaça, 
perfeito em toda a especie de tiro, e milagroso. no 
das narcejas. 

— Il signore Cosselli, marido da prima-donna Car- 
lota Malcusão: grande amador de pintura e, de, ca- 
cadas —um cavalheiro magro, pallido, physionomia 
distincta, elegantemente vestido. 4a o 

Magia ça a delicadeza que este fosse o primeiro 
apresentado, visto ser extrangeiro — por isso peço 
desculpa da minha falta. .. 1 

Dr. José d'Avellar — medico pela. escola de Lie 
boa — intelligencia e figura elevadas, e um dos mais 


Tem 4 Ma 


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CAÇADAS PORTUGUEZAS o() 


formosos typos.de homem.; — olhos pretos, rosto oval 
e moreno, emmoldurado por uma bella barba preta 
assetinada, que dava à sua physionomia um aspe- 
cto oriental, sereno e magestoso, como o d'um filho 
do Propheta. 

Carlos e Jayme Bramão — este alto, forte e sym- 
pathico moço e agradabilisssmo companheiro, e o 
outro, Carlos, baixo, reforçado, rosto franco e ale- 
gre, muito estimado e distincto no mundo musical. 

Estes tres, no segundo bote, são o João Lourenço, 
o Eusebio, um excellente homem e uma boa espin- 
garda, e o Joaquim Tavares, da Junqueira, todos já 
nossos conhecidos. 

Resto eu — e al não digo: 


Quando chegámos a meio rio a corrente da maré 
vasante era rapida; a nortada, secca e rija, bojava as 
velas, e. mettia-nos a borda na agua. A noite, apesar 
do escuro da lua, não podia ser mais bella, naquella 
estição, mas, o frio tambem não podia ser maior — 
penetrava-nos até aos. ossos! | É 

— Vamos ao café, rapazes? disse Cabral. — O 
Lourenço, será possivel fazer; lume? 

—— rima a ver, meu senhor. Pts 

E Lourenco desencantoou da casinha, do cão, com 
pasmo nosso, um fogareiro, e carvão, e carqueja, e 
uma cafeteira cheia de café, e chicaras, e tudo 


1010) CAÇADAS PORTUGUEZAS 


. 


Um esplendor! Lopes Cabral. não se esquecera de 
coisa alguma, segundo o seu costume. 

Mas era preciso contar com o mar: uma volta do 
barco voltou tambem o fogareiro, que se partiu! 

— Maldição ! clamámos nós, como um côro de 
tragedia antiga. 

A providencia, porém, velava ainda sobre nós. O 
principe mandara comprar dois fogareiros, e a ope- 
ração proseguiu, a despeito das iras do Tejo ! 


Dentro do catraio o nosso aspecto era immensa- 
mente pittoresco, quando as labaredas da carqueja 
lançaram sobre nós os seus clarões, vermelhos e in- 
termittentes. 

O norte a uns dera tons violaceos, a outros au- 
gmentara a nativa pallidez. Os gabões, as mantas lis- 
tradas e os vistosos cobrejões, variavam de aspecto 
com os effeitos da luz, vaga e incerta. As cabeças 
dos cães, friorentos, surgiam aqui e alli, tentando 
approximar-se do lume bemfazejo, e nós com os de- 
dos entorpecidos procuravamos, nas vastas algibeiras 
dos nossos casacos de caça, a cigarreira amiga. 

O Tejo, naquellas paragens e em noites escuras, 
toma umas proporções grandiosas e imponentes: — 
parece um mar! Os olhos, circumvagando, não en- 
contravam senão as luzes da illuminação de Lisboa, 
que se reflectiam na agua em longas fitas tremulas: 
— o-resto eram trevas. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 91 


— Mais, c'est une mer! disse Cosselli. 

Cosselli viajara, e cruzara muitas vezes os lagos da 
Suissa. O Tejo de dia parecer-lhe-hia um d'elles, mas 
o vento soprava com violencia, a vasante dava de 
lado-no costado do barco, e inclipava-o demais, ás 
vezes, descobrindo-lhe a quilha na prôa; e, digamos 
a verdade, os passeios no lago de Como são menos 
perigosos do que .aquella travessia, debaixo da nor- 
tada rija, passando pelas bailadeiras de Cacilhas, já 
tantas vezes fataes aos caçadores... 

- Aos rebates do frio, que o apertava, acudiu o Co- 
gnac, que rechacou o inimigo. 

Carlos Bramão, esse jazia sentado no fundo do 
bote; e ahi se lamuriava tristemente — elle — um 
bravo! | 

Era profundamente lúgubre no mar o nosso amigo, 
tão jovial em terra. Acocorado sobre os paneiros, 
percorria de extremo a extremo a escala das apos- 
trophes com a mesma agilidade com que tocava a 
chromatica no piano, e ora se entregava a todos os 
santos, ora nos mandava. a todos-os diabos ! 
| — Valha-me Nossa Senhora! — dizia elle, com 
voz lastimosa e sumida, quando o barco dava algum 
solavanco maior. 

— Calla-te, mocho, não agoires a caçada! — res- 
pondia-lhe Bulhão Pato. 

— Os diabos te levem para as profundas ! —repli- 
cava o maestro, embrulhado numa grande pelle de 
tigre. 

E assim continuava o tiroteio entre os dois, e 
Bramão — o nosso bom Bramão — ia resando umas 


92 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


am 


an Adas picarescas, que nos faziam estalar de 
riso ! a 

Finalmente surgiu o café fumegante nas mãos do 
Lourenço, que tomara aos nossos olhos proporções 
épicas, e magicas, desde que saíra victorioso da sua 
lucta com as ondas revôltas do velho rio, appare- 
cendo-nos com aquelle liquido maravilhoso, que va- 
ha para nós, naquellas alturas, mais do que todos 
os elixires de longa vida dos velhos alchimistas ! 

E rompeu um. côro de .acclamações — tremulas 
de frio -— mas ardentes, enthusiasticas e convencidas 
— um côro em voz baixa-— como a gente ás vezes 
os: ouve: em S.-Carlos,. sem .a attenuante das tres 
horas da madrugada, no meio do Tejo! | 

E' porque o café era superior — Moka legitimo. 
Lopes: Cabral, primoroso nestas cojsas, achou um, 
café soberbo - digno. dum pachá de tres caudas — 
phrase que na bôca d'elle representava o cumulo do 
fausto e da riqueza! | 

Sobre o café appareceu um — V 1eUx Cognac — 
fine Champagne — conhecido dos frequentadores do 
antigo Hotel. Europe, e que tinha encanecido, na 
longa ociosidade de muitos annos. O Cognac da 
boa madame Radegonde ! 


x 
Iamo-nos chegando á terra. Entráramos no esteiro. 


de Val de Zebro. A | | 
— Quantas horas são? perguntou José d Avellar. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 9 


— Está a romper o dia — respondeu um dos bar- 
«queiros. > 

— Ainda não — replicou outro. 

Estavamos a accender um phosphoro para ver 
quantas horas eram, quando, de repente e sobre as 
nossas cabeças, uma pequena nuvem branca prin- 
cipiou a tingir-se com a mais bella côr de laranja, que 
vi em vida minha! Um deslumbramento! 

Ficámos todos extaticos a olhar para ella, e Cos- 
selli, que era artista, correu á prôa, agarrou-se ao 
mastro, e alli esteve preso d'aquelle formosissimo 
espectaculo, em quanto elle durou. 

'— Bello! bello! — repetia elle, extasiado. 

Era bello e era singular! Toda a athmosphera 
ainda em trevas, e só aquella nuvem com o deslum- 
brante colorido, forte no centro e esbatido 'suave- 
mente nas orlas — reflectindo-se mais fraco na agua 
dormente! Que delicioso e arrebatador quadro, se 
fosse possivel reproduzil-o, como alli o viamos! 

Voltámos lá muitas vezes, mas nunca mais assis- 
timios a uma alvorada como aquella! Foi decerto um 
espectaculo semelhante que inspirou a poesia da 
velha Grecia, quando ella creou a radiosa figura da 
Aurora, abrindo, com os dedos rosados, as portas 
doiradas do oriente! 

= Attenção — disse Cabral em voz baixa. Olhem 
ahi-—e apontou com a espingarda para a nossa 
Pentes e 1 

“Baixando os olhos na direcção indicada, e affir- 
mando-nos, vimos, sobre a agua! tranquilla e ainda 
mo escuro, uma larga mancha, mais espessa e carre- 


94 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


gada, e, continuando a olhar, lobrigámos dois vultos 
elevando-se sobre a mancha. 

Uma enorme bandada de patos. Os dois vultos. 
eram as sentinellas. 

Estavamos sobre elles. Rompia a manhã. 


— Cia á ré! — mandou o Lourenço. E de vagar... 

Os catraios recuaram. Estando muito chegados 
aos patos, o chumbo embalado pouco destroço 
faria nelles. 

A um signal de Lopes Cabral fizemos fogo. Os. 
patos levantaram, mas no ar ainda os alcançou a se- 
gunda descarga, e d'uma e outra ficaram muitos na 
agua, mortos uns, outros feridos, e forcejando por 
se escapar. 

Este segundo acto — o de recolher a caça estro- 
peada — é muito mais animado do que o primeiro : 
os barcos seguem-n-a, e os cães, saltando à agua, 
travam com os palmipedes uma lucta de velocidade 
com peripecias, que a tornam dramatica. Os marre- 
cos defendem a vida... E então, se as margens estão 
proximas, e teem juncos, onde elles se furtem aos. 
cães, ou estes cançcem e desanimem, alguns mancos. 
por lá ficam, para contarem aos outros da batalha. 

Levavamos bons cães para a caça d'agua, e por 
isso foram poucos os que conseguiram livrar-se do 
captiveiro... e do espeto. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 9> 


Saltámos em terra, e d'ahi a pouco estavamos al- 
moçando numa casinha de Val de Zebro, muito. 
aceiada e risonha, cuja porta, orlada de trepadeiras, 
com a sua folhagem verde e as floritas vermelhas, 
contrastava alegremente com a aridez da paizagem. 

Almoço que leváramos, é claro, mas a que o lo- 
cal forneceu um contingente de primeira ordem — 
as ostras. 

Ostras do Montijo, que nós alli encontrámos fres- 
quissimas, e que foram acompanhadas pelo sequito 
a que tinham legitimo direito — um alambreado Bu- 
cellas — o Bucellas da quinta das Romeiras — do 
marquez de Castello Melhor ! 

Boa caçada, boas ostras, bons vinhos e melhor 
conversa, ia já o sol bem alto, quando alguem per- 
guntou, se iriamos executar o segundo numero do 
nosso programma. 

— As narcejas ? disse o Cabral. 

— est un peu tard pour les bécassines — obser- 
vou Cosselli. 

— Tambem achamos. E' tarde, e o sol está quente 
— disseram todos. 

E ficaram as narcejas para outro dia. 


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Uma caçada principesca 


Ao dr. Manuel Bento de Sousa 


STO, ás vezes, é suggestivo — dizia-me, ha dias, 
um amigo, a quem estava mostrando as minhas 
collecções de gravuras. 

Tinha razão o meu amigo. Uma d'essas gravuras 

— tirada da Chasse illustrée de 1867 — e que está 
deante de mim, traz-me viva á lembrança, com to- 
dos os seus episodios, uma das melhores caçadas 
que fizemos, e que todavia, por um acaso, é que não se 
transformou em tragedia para todos os que nella ti- 
veram parte! 

Um desenho de Riou, apenas regular. Não é pelo 
seu merecimento, que eu sinto prazer em a ver, 
não, não é por isso; é porque, sendo uma pura phan- 
tasia do artista francez, os quatro caçadores, que 
nella figuram, são quasi retratos de todos nós — os 
companheiros e amigos que, um dia, fomos, com 


/ 


9º CAÇADAS PORTUGUEZAS 


outros, atirar às narcejas, nos arrozaes de Val de Ze- 
bro. 

Este aqui, no primeiro plano, é Bulhão Pato, visto. 
de costas. Todo inteiro — como se costuma dizer — 
um prodigio de semelhança! A sua figura, os seus 
cabellos longos, apparecendo debaixo d'um chapéu 
de feltro, de abas largas, exactamente como o que: 
elle trazia, a sua tunica de belbutina franceza, e as. 
suas botas altas. Attentando nelle parece que da 
parte do artista houve a intenção de o retratar, como. 
se o conhecesse! 

Aquelle mais afíastado, à esquerda do illustre 
poeta, e mais alto e encorpado, com a barba toda, 
dá-me o contorno, o perfil athletico de Lopes Ca- 
bral. Pernalto e bracilongo, está parado, prompto 
a fuzilar as narcejas, e a dobrar os tiros, como se 
atirasse a codornizes! Estou a vel-o com o seu ja- 
quetão fewille-morte, o chapeu de palha, veterano 
de cem campanhas, e as altas botas francezas, for- 
radas de gutta-percha, com que elle se sentia capaz 
de aftrontar todos os lameiros, e as proprias tor- 
rentes do diluvio! 

Além, mais longe, está um com a cabeça muito. 
de escorço, mas que tem a corporatura do meu 
amigo Jayme Bramão; e, finalmente, o ultimo, o 
quarto, que vae atravessando o campo, ao fundo, 
voltando-se para os companheiros, parece-se com o 
que eu era então, aos trinta annos. 

Ao pé de Bulhão Pato, á esquerda, aquelle ele- 
gante pointer branco, malhado, é a minha cadella — 
a Joia — nome com que eu, propheticamente, a ba- 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 99 


ptisei, e que ella mereceu, sem favor; porque, salvo 
o respeito devido a todas as espadas, que tenho visto 
trabalhar no campo e no pinhal, e não tem sido pou- 
cas, nunca tive, nem vi jamais animal mais fino e 
bello de fórmas, mais elegante no caçar, mais firme 
nas mostras, e que melhor trouxesse, intacta e limpa, 
à mão do caçador, uma codorniz, uma perdiz, ou 
uma gallinhola. 

— Caça como uma duqueza! — disse-me um dia 
um companheiro, enthusiasmado, reparando nas ex- 
midades longas, e nervosas da minha perdigueira, e 
no garbo e subtileza com que ella pisava o terreno. 

Que as duquezas perdoem a comparação ao meu 
amigo, que tambem era fidalgo. 

Pobre Joia! Quem me dera voltar aos dias em 
que caçavamos juntos. ... 

O leitor, se pertence á grande irmandade de 
Santo Huberto, desculpa estes sentimentalismos re- 
trospectivos; e desculpa-os, porque os comprehende. 
Dos cães, como dos amigos, pode-se dizer que al- 
guns deixam no nosso espirito uma imagem, uma 
impressão indelevel, e complexa, porque é sugges- 
tiva de muitas saudades... Tambem temos lagri- 
mas para elles, quando os perdemos. 

A Joia foi o primeiro e o melhor de todos os 
meus perdigueiros. 


* * 


Antes de chegarmos aos terrenos onde iamos ca- 
car, os nossos barcos atravessaram aquelles mean- 


100 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


dros do Tejo, que vam dar a Val de Zebro. A um 
e outro lado as margens, lodacentas, cobertas d'uma 
relvazinha verde-escura, encobrem, sob essa appa- 
rencia innocente, um perigo, ás vezes mortal, para 
os que se arriscam a pôr-lhe o pé. Um abysmo de 
lama, um sorvedoiro, donde é quasi impossivel ar- 
rancar-se, sem auxilio extranho, quem tiver a infe- 
licidade de nelle cair! 

la romper a manhã, quando entrámos no esteiro. 
Contavamos encontrar patos, e não nos enganámos: 
lá estavam. A meio caminho uma mancha escura, 
d'onde se destacavam duas sentinellas, de cabeça 
erguida, de olho à mira, fez-nos engatilhar, silen- 
ciosa e rapidamente, as espingardas, apesar do frio. 
que nos inteiriçava os dedos. Ao mesmo tempo so- 
peavamos com o gesto o João Lourenco, que, pas- 
sando para a prôa do nosso catraio, se preparava 
para lhes dar a saudação matinal. 

Neste momento todos continhamos as respira- 
ções, encurtavam-se as remadas, para evitar quanto 
possivel o ruido, e avançavamos, lentamente, sobre 
a mancha, immovel na superficie da agua. De re- 
pente o João metteu a arma á cara. 

— O João, não atire. Por Deus, não atire. .. Ainda 
estão longe. 

Elle — um veterano — esquecendo-se de que a 
prudencia tambem é necessaria aos caçadores, ava- 
liando mal a distancia, e não podendo resistir ao de- 
sejo de ser o primeiro a estreiar-se, atirou. O chumbo 
deu na agua dois ou tres metros para cá, e a ban- 
dada levantou o vôo, dispersando-se intacta no ar! 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 101 


Uma descarga geral, mas precipitada, tirou-lhe 
muita penna, mas não caiu nem-um! “Tinham a 
pelle rija, e guardaram a carne para outros caça- 
dores. 

E para mais castigo nosso, logo adeante levan- 
tou-se outra, maior ainda, que alli estava encoberta 
por uma curva do terreno, e que nos achou já com 
as armas descarregadas! Naquella madrugada os 
patos fomos nós ! 

Á falta de prudencia recorremos á resignação, 
apellâmos para Santo Huberto e para as narcejas, 
e seguimos ávante. 

Os palmipedes libravam-se nas alturas, a cem 
metros, e pareciam-nos os seus bandos redes trian- 
gulares de cruzinhas, desdobradas no espaço, e 
levadas pelo vento... 


— Um extraviado! — gritou um dos nossos com- 
panheiros, que ia numa das chatas, que o Manuel 
da Charneca tinha alli à nossa disposição. 

Lopes Cabral, que dirigia a caçada, fazia as coisas 
em- grande, e mandara vir quatro canoas, sem quilha, 
para andarmos mais livremente naquellas aguas de 
pouco fundo. 

Era um pato, que vinha de peito para nós. Ou- 
viu-se um tiro, e elle volteou de cabeca, e caiu numa 
das margens lodosas. Ir lá buscal-o, era arriscado. 
Ainda assim um dos barqueiros, moco e leve, atre- 


102 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


veu-se a saltar, mas, a pouco trecho, estava empé- 
gado até á barriga, e 


ir avante não se atreve!... 


— Os cães do Cabral!... disse o que tinha ati- 
rado, e não queria perder a preza. 

Alguns protestaram; eu fui um d'elles. Não valia 
a pena arriscar um animal d'aquelles por causa dum 
pato, porque, se o cão não podesse livrar-se do 
lodo, ninguem o ia lá buscar. Cabral, sempre ama- 
vel para os seus companheiros, a desperto do pe- 
rigo, mandou saltar àá agua o seu Prompto. 

O Prompto obedeceu e atirou-se logo ao charco. 

Era um animal já velho, encanecido no serviço 
— cobrar o ferido na caça d'agua fôra sempre a 
sua especialidade — e nisto era de primeira ordem. 
O animo tinha-o o mesmo, as forças é que lhe es- 
casseavam, e quando o vimos. desapparecer numa 
dobra do terreno, ficámos todos com os olhos fixos 
naquelle ponto, com a respiração suspensa, como se 
estivesse alli correndo perigo a vida dum ho- 
mem!... Decorreram uns instantes, que nos pare- 
ceram horas, até que, finalmente, vimos surgir a 
cabeça do bravo animal, muito afirontado, com o 
pato na bôca, parando a cada passo, e fazendo 
grandes esforços para se desencravar do lodo, em 
que se enterrava. 7 

— Bravo! Bravo! Prompto! gritâmos todos a um 
tempo. 

Foi uma festa. Não o abraçámos, porque vinha 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 105 


muito sujo — todo elle era lama — mas nesse dia fo- 
ram para elle os melhores bocados. 
E foi esta a sua ultima proeza. 


Estavamos finalmente chegados aos alagamentos, 
aos arrozaes. Repartiram-se os logares, e principiou 
a caçada. 

As narcejas saltavam ás quatro, e ás seis; espir- 
ravam, por assim dizer, de todos os lados: o tiro- 
teio tornou-se geral, e às vezes parecia um fogo de 
filas, bem sustentado. Nunca ouvi tanto tiro, nem vi 
tantas narcejas no ar! 

O Prompto não parava, andava n'uma roda viva. 

— Poz aqui, Prompto — dizia o Cabral, que aca- 
bava de dobrar os tiros. 

— Q' Cabral — gritava lá de longe Bulhão Pato — 
manda cá o Prompto. Está aqui uma, que não se acha. 

E Prompto cá, e Prompto lá, e todos os cães no 
arrozal, e as narcejas a saltarem, e a cairem! Era 
a desforra dos patos. 

Não andavam só os cães na lama, eu tambem, ao 
saltar uma aberta, não calculei bem a distancia... 
E ficámos todos sabendo, que ella não estava posi- 
tivamente cheia de agua de Colonia. Valeram-me 
um pouco uns ceifões de pelle de cabra, que enviei 
logo para as bagagens, para serem desinfectados. 
Uma peste! 


104 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


Nisto um grito, uma exclamação. 

— Outro pato! 

O marrequinho passou ao alcance do Bulhão, e 
elle fel-o descer com um tiro de rei, alto, magnt- 
fico. 

— Agora somos dois — disse o poeta, mettendo-o 
na saca, mas este é mudo e não faz versos. 


O sol ia subindo: eram horas de almoçar. 


O nosso pavilhão de caça, naquelles sitios, era a 
casa da sr.º Luzia. 

Entre os convivas havia medicos, litteratos, e artis- 
tas, e entre estes Cosselli. 

Ninguem faltou ao emprasamento, e à hora mar- 
cada todos se achavam reunidos na povoação, em 
frente da modesta venda, ao ar livre, à sombra dum 
velho palacio em ruinas, d'onde as sezões implaca- 
veis tinham afugentado para sempre os nobres ha- 
bitadores. 

Estavamos nós contemplando uns animaes heral- 
dicos — uns ursos muito feios — que se ameaçavam 
atravez dum brazão, que procuravamos decifrar, 
quando nos appareceu o Manuel da Charneca — ca- 
cador da Amora — acompanhado d'outro, para nós 
desconhecido, e que nos chamou desde logo a at- 
tenção. : 

Era um homem de trinta annos feitos; robusto, 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 105 


trigueiro, côr de azeitona, nariz aquilino, cabello e 
barba preta e revôlta, olhos escuros, muito redon- 
dos, com a pupilla a descoberto -- olhos d'animal 
de rapina. Trajava jaleco e calças de saragoça, com 
applicações de panno d'outras côres. Physionomia 
e trajo não eram d'aquelles sitios. Pareceu-me logo 
um cigano. Era-o effectivamente, e legitimo. 

Manuel Candido, interrogado por Lopes Cabral 
sobre a identidade do seu companheiro, affiançou-o. 

— EÉ' meu compadre, e andamos a caçar juntos 
ha quinze dias. Não ha de haver novidade, sr. Ca- 
bral. Fico por eile: esteja o senhor descançado. 

Cabral, como todos os homens prudentes e pra- 
ticos, não gostava de andar na companhia de indivi- 
duos, cujos habitos e prendas elle desconhecia. 

— Pois bem, seja assim, mas tenha-o você lá 
comsigo, porque nós cá não o conhecemos. 

É caminhando para nós, disse-nos, com uma certa 
visagem e um meneiar de cabeça, que elle tinha, 
quando as coisas não lhe corriam bem: 

— Basta de heraldica e de ciganos! Vamos ao al- 
moço. 


O oiro é magico — com dinheiro faz-se tudo. O 
principe transformara a casita pobre e humilde, e 
improvisara alli uma sala de jantar, como as dos 
melhores hoteis da capital! 

O que vimos, ao entrar, não era a fumegante as- 


100 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


sorda rustica, nem o bacalhau, pratos apreciados 
pelos estomagos que trabalham em sete diamantes, 
como dizia o nosso chorado e chistoso visconde de 
Benalcanfor — quandó são acompanhados com vinho 
mouro, tirado de sobre a mãe á nossa vista, e be- 
bido em altos e largos copos de figura — na phrase 
pittoresca dos amadores: não, não era esse o espe- 
ctaculo que se nos defrontava. A's duas mesas reuni- 
das — nós eramos muitos — cobria-as alvissima e 
luxuosa toalha, de elegantes e finos desenhos; a bai- 
xella era ingleza — flores ao centro. Não faltava nada 
— nem os christofles, nem os cristaes desdiziam do 
resto — e emquanto a manjares — ostras, mortadella 
de Milão, fambres, salame, peixe, assados, pasteis, 
torrão d'Alicante, emfim os mais aprimorados pro- 
ductos da cosinha do Hotel d'Europe e dos fornos 
do Baltresqui! E Bordeus, e Bucellas, e Champagne! 
Um festim do Café Riche ou do CAnglais, num ca- 
sebre de Coina! 

O" tempora! O' caçadas! 

Descrever uma d'estas ágapes ruidosas, hoje, à 
distancia de tantos annos — é empresa impossivel. 
Disse-lhes que era superior o elencho d'esta compa- 
nhia. Figuravam nella artistas de primo cartello, e, 
para a tornar de primeira ordem bastava-lhe a pre- 
sença de Bulhão Pato — estrella então na força da 
vida e na completa efiorescencia do seu brilhante es- 
pirito, do seu formoso talento, o poeta, de quem 
outro — Castilho — me dizia, por esse tempo, que de- 
via andar sempre acompanhado d'um stenographo, 
que nos conservasse os eloquentes e deslumbrantes 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 107 


improvisos, que elle costumava prodigalisar aos seus 
amigos nas mesas dos cafés, nos hoteis onde jantava, 
nos saraus, e em toda a parte, emfim, onde elle po- 
dia fazer ouvir a sua palavra quente e colorida, a 
sua eloquencia accentuadamente peninsular! E Cas- 
tilho tinha razão. Quantas d'essas perolas perdidas, 
esquecidas, formam hoje apenas — na nossa memo- 
ria — uma especie de nebulosa, quando podiam scin- 
tillar nos fastos da palavra, refulgir na eloquencia 
patria, como astros de primeira grandeza! 

Herculano Machado — um dos nossos convivas — 
não primava em dotes oratorios, mas possuia um 
largo repertorio de cantigas francezas —e disse-nos 
algumas das mais picantes, e em que mais abun- 
dava a veia mordente, o espirito salgado da raça 
gauleza. 

As anecdotas, e as gargalhadas, eram cortadas 
pelo disparar das rolhas do Champagne Cliquot 
e do Saint Emilion, e esfervilhavam frescas, como o 
vinho, que espumava nas taças! Bulhão Pato — um 
dos dois mais primorosos e dramaticos recitadores 


que tenho ouvido — o outro era Castilho — Bulhão 


Pato disse-nos versos da Paguita, e dum pocma 


anonymo, que infelizmente ficou inedito, e que Her- 


culano punha entre as obras capitaes do genero fo- 
lião—e para Cosselli, que não entendia a nossa lingua, 
recitou em hespanhol alguns dos cantares de Trueba, 
os que elle tão magistralmente traduziu, que ainda 
melhores me parecem em portuguez. 

As narcejas não figuravam no menu do nosso al- 
moço, mas entraram na conversa. E foi o caso que 


roS CAÇADAS PORTUGUEZAS 


alguem se referiu a uma receita infallivel, para as 
caçar, a pé enxuto! Uns servidores, leves e sem rheu- 
matismos, nem receio de os virem a ter, entram nos 
chaboucos, e fazem-n-as levantar. Os amadores hy- 
drophobos — não confundir com damnados — espe- 
ram-n-as, occultos, e armados com... binoculos; 
vêem-n-as poisar, alli perto, a oito ou dez metros, 
e fuzilam-n-as, no chão, sem misericordia! Uma ca- 
cada ideal! Era nova em folha: vinha na Chasse 
dlustrée. Bem dizia o outro, que tudo se encontra 
nos livros! 

Foi acclamado com calorosas gargalhadas o en- 
genhoso e anonymo inventor d'este novo methodo 
venatorio. Quando ellas serenaram, José d'Avellar 
— o medico que ha pouco falleceu —e que se con- 
servara triste e merencorio no meio da geral ale- 
gria, levantou-se, e apontando para as suas altas 
e elegantes botas — tambem novas em folha — 
disse : | 

— Pois, meus amigos, eu, pela minha parte, não 
preciso de recorrer a essa invenção, não careco do 
binoculo: substituo-o, e com vantagem, pelas obras 
do meu sapateiro. Estas botas, que hoje calcei pela 
primeira vez. são admiraveis: as outras botas são 
para andar, estas servem para estar parado, exacta- 
mente como os taes caçadores! Agora, emquanto a 
alcance, não são de sete leguas, deitam muito mais 
longe! Não são botas, são dois telescopios! Com 
ellas não me escapa nem uma narceja gallega, das 
mais pequenas ! 

— Não percebo bem... observou um. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS LOS 


— E” porque eu com ellas vejo tudo. Se até vejo 
as estrellas! Calce-as você, e verá! 

A voz de José d'Avellar era dorida, mas as gar- 
galhadas retumbaram, estrugiram, por toda a casa. 

Cabral, que se levantara para dar as suas ordens 
para o regresso da expedição — appareceu entre por- 
tas, Já armado, e com tom imperativo, apontan- 
do-nos para o campo, disse : 

— Messieurs, ces dames nous attendent. Marchons! 


O dia estava esplendido. Atravessámos os tabo- 
leiros dos arrozaes e dirigimo-nos ao pinhal: era 
quasi certo encontrarmos alli as gallinholas. 

E' bom variar de caça, e depois tinhamos cães 
de primeira ordem, espadas para tudo. E com as 
sympathicas bicudas levantar-se-iam tambem narce- 
jas, que segundo o costume, se teriam lá refugiado, 
espantadas pela nossa fuzilaria. Para completar a 
trindade implumada tambem uma que outra codor- 
niz saltaria, de improviso, deante dos caçadores. 

Estava o terreno um pouco encharcado: chovera 
nos dias antecedentes. Entrados no pinhal os cães 
deram logo pelo rasto das gallinholas. A minha ca- 
della, a poucos passos achou uma; mas era uma 
mestra. Quatro levantes lhe deu, sem eu lhe poder 
atirar! Não esperava, mas a Joia parecia que a via 
-poisar, tão certeira lhe acudia á revoada! Primoroso 


1iO CAÇADAS PORTUGUEZAS 


animal! Só quem vê trabalhar assim, deante de si, 
de cabeça alta, a ventos, um pointer, é que pode 
avaliar o prazer intenso, dramatico, que sentimos no 
seguimento d'uma perdiz, ou d'uma gallinhola, como. 
aquella, que mostrava conhecer todos os recantos do- 
pinhal, onde tão bem se defendia, e se furtava á nossa 
vista. Pois se ha bons olhos, eram os meus d'então. 
Mas afinal sempre veiu para Lisboa, com as suas 
primas do arrozal. Que ellas, a julgar pelo bico, de- 
vem ter entre st algum parentesco. 

Havia gallinholas no pinhal, mas não eram tantas 
como as narcejas em baixo, nos alagamentos. Vol- 
tâmos para ellas. Cabral e Bulhão Pato preferiam- 
n-as: eram dois especialistas e gostavam de fazer 
torneio. 

Quando desciamos a encosta, muito lamacenta e 
escorregadia, como era possivel que algum de nós 
apalpasse a mãe-terra, e alguma espingarda se dis- 
parasse, ouviu-se uma voz forte e breve: 

— Armas no descanço!! 

lamos todos, em magote, descendo a rampa. A' 
minha direita, e um pouco atraz — em serra-fila — 
vinha o cigano; — adeante de mim e um pouco so- 
bre a esquerda ia Lopes Cabral. De repente ou- 
viu-se um tiro, que partiu no meio de nós. 

Cabral, um pouco enfiado, mas com o olhar firme, 
voltou-se, e perguntou : 

— O que foi isso? 

Eu olhara para o cigano, que me seguia. 

— O cão da espingarda, que me escapou — disse 
elle, com a voz- sumida. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS DJ 


A carga passou embalada entre o meu peito e as 
costas de Lopes Cabral, porque eu ainda vi a posi- 
ção em que o homem trazia a arma — uma caçadeira 
de dois canos, curta, polida e brilhante como prata. 

Posso dizer que tive a morte bem perto. O tiro era 
fatal. Uma pollegada de mais ou de menos, e um 
de nós estava morto. E" o caso de dizer que escapá” 
mos por uma unha negra — que as d'elle não deviam 
ser muito brancas, e nas suas mãos esteve a nossa 
vida. 

Tempos depois vio-o, uma noite, no theatro da 
Trindade, num baile de mascaras. Se não era elle, 
era o diabo por elle, como diz o povo. É não tar- 
dou muito que não fosse preso, e recolhido ao Li- 
moeiro. Quando o Manuel Candido, nol-o apresen- 
tou, andava elle fugido ás justiças de Vizeu. Dentro 
do Limoeiro, para entreter os ocios, parece que tam- 
bem fez das suas, de forma que, quando lhe deram 
, passagem para a Africa, devia levar a parte um pouco 
carregada. 

A consciencia talvez fosse leve — que a maioria 
dos criminosos diz-se innocente, e alguns parecem 
estar effectivamente convencidos de que o são. 
Quando matam, é porque os offenderam, e quando 
roubam, é porque precisam. Que Deus os allu- 
mie, e nos livre d'elles, emquanto a luz da sua Di- 
vina Graça os não esclarece e guia no caminho da 
salvação! 

Manuel Candido já morreu. Quero crer que elle 
não conhecia bem a vida do seu companheiro. Faço 
esta honra á sua memoria. 


112 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


Apenas pozemos de novo o pé nos arrozaes recome- 
cou o tiroteio. Ao cigano levantou-se-lhe uma nar- 
ceja, e elle, como para mostrar que sabia pegar 
numa espingarda, chofrou-a, e tão de perto o fez, 
que a esfrangalhou — ficou feita num bolo. 

Seguiu a caçada, e findou sem mais incidentes. 
Este passou rapido, e assim como o céu, naquelle 
dia, não tinha a mais pequena sombra, que lhe ma- 
culasse o puro azul, não mais nos lembrámos, nem 
do tiro, nem do desastrado caçador. Eramos muitos, 
e novos, e portanto alegres. Nas nossas almas havia 
tambem o azul do firmamento. 

Um dia cheio. E, graças a Deus, chegamos a Lis- 
boa todos É intactos. Quando entrávamos, ao cair 
da noite, no Baltresqui, da rua' dos Capellistas, a 
descançar e a beber o copo da despedida, entrou 
tambem um amigo e conhecido de quasi todos os 
que alli estavam, e, vendo um cesto cheio de caça, 
perguntou-nos quantos dias tinha durado a festa. 

— Fomos hoje de madrugada — respondeu Bulhão 
Pato. 

— Então, sim, senhor. Boa caçada — boa de lei! 
Quantas narcejas ? 

— Cincoenta e cinco — além do mais — patos, gal- 
linholas, e codornizes. 

— A minhacaça é maior, mas, quando estou feliz, 
o mais que dou é um tiro. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS ER 


Era José Maria de Carvalho Costa, grande amigo 
do celebre Mira—o general dos caçadores do Alem- 
tejo, e seu companheiro nas famosas monterias aos 
javardos. 

— Pois mestre Cabral, que alli está, á sua parte 
matou vinte e duas, e dobrou duas vezes os tiros. 
Ellas amam-n-o muito, lançam-se-lhe nos braços ! — 
disse Bulhão Pato, olhando para o principe, que 
gostava immenso, e que ria como um perdido, 
quando o poeta o fazia alvo dos seus imaginosos e 
pittorescos gracejos. 

— Eu, continuou elle, tratei de não fazer má fi- 
gura, e andei assim ao réz do (Cabral, menos o 
dobrar, que em dobras é elle mais rico do que eu. 
Tem a fortuna de não ser poeta! Isso lhe basta. 

E seguiu alli o tiroteio de chistes, em que Bulhão 
Pato não tinha rival — porque os seus improvisos, 
neste genero, eram como uma deslumbrante may-on- 
naise, em que se saboreava a verve franceza, o 
salero andaluz, e a graça portugueza — tudo tempe- 
rado por mão de mestre. 

— E, finalmente, para fechar — disse elle — e por- 
que estes senhores estão a cair de somno com as 
minhas graças, gostos não se discutem, e uma caçada 
aos javardos, com portas e uma pessoa alli parada, de 
arma ao hombro, amigo Costa, para mim não é uma 
caçada, é uma sentinella. Tenho dito. 

— E agora a quarteis — disse Lopes Cabral. Cos- 
selli, au revoir. 

Esta caçada, que foi para nós uma festa por to- 


dos os motivos inolvidavel, fôra offerecida ao artista 
8 


II4 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


austriaco, que, na sua qualidade de pintor, mostrara 
aos seus amigos desejos de ver os campos e a pai- 
zagem do sul do Tejo. 

Devia ficar satisfeito. Uma madrugada esplendida, 
um formoso dia, optimos atiradores, muita caça, 
uma paizagem sobria de effeitos, mas caracteristica, 
cavaco do mais fino, ruidoso, alegre, e espumante 
como o Champagne! E, finalmente, para que não 
faltasse nada a um amador de theatro, teve o an- 
tegosto d'uma tragedia! 


AL learn al. alo cdi AP: 
na Joe SEG . S e ] E ; 
PA A; E VS ED GASTA E EM 
1Z E A ) VE? 
SAE (o aro Elsa à 845: LC) X LAN pn TE ke 


ero de gallinholas 


Thoma e variações 


14 bom, ruim caçada — dizemos nós muita vez. 

Naquella tarde, ao entrar no vapor do Bar- 

reiro, despediamo-nos, sem saudades, do pi- 

nhal da Machada e dos arrozaes de Val de Zebro. 

Nas redes zero de narcgjas, zero de gallinholas! Tres 
grades magnificas! 

Nós eramos tres, como na Grá-“Duqueza, e em 
- balde procurámos o inimigo. 

O meu Djalma, esse, sim, descobriu e viu uma 
gallinhola, á borda do pinhal. O bom animal parou-a, 
olhou para nós, como a dizer-nos : 

— Venham cá, ella está aqui... Olhem que não 
ha outra.. 

Em vão. Levavamos nã nossa frente um d'estes 
companheiros cabeçudos e egoistas, que decre- 


ARO CAÇADAS PORTUGUEZAS 


tam, com ar solemne, os sitios onde ha caça e onde 
a não ha; que mandam em tudo; que passam o dia 
a cruzar o terreno em todas as direcções, fazendo 
rodar a linha a todo o momento, e dando, sem se 
cançarem, tremendas estafas nos desgraçados que 
vam na outra ponta! Uns senhores muito amigos de 
si, que nas paragens tomam a melhor sombra, ao 
jantar o melhor bocado, nas pousadas a melhor 
cama; que teem sempre os melhores cães, as melho- 
res espingardas, e as mais extraordinarias historias 
de tiros raros e de fabulosas aventuras, com que 
massam clero, nobreza e povo! Verdadeiros irmãos 
terriveis d'esta maçonaria de Santo Huberto, de 
que elle nos livre — a ti, honrado leitor, se és con- 
frade, e a mim emquanto o fôr! 

O nosso amigo, pois, naquelle momento o que que- 
ria era almoçar, e apesar dos meus protestos, leva- 
va-se como um galgo na direcção da casa, para 
onde o seu estomago faminto despoticamente o im- 
pellia. Farto de o chamar, voltei atraz, em busca da 
gallinhola, mas dona Bicuda não esperou por mim, 
levantou, e, adejando por entre os pinheiros, su- 
miu-se... 

E era uma vez uma gallinhola, e uma caçada! Dos 
alagamentos não saltou nem uma narceja, nem uma 
codorniz. Uma solidão completa! 

A's tres horas, terminada a exploração dos terre- 
nos, d'aquelles uberrimos arrozaes, d'onde Bulhão 
Pato, Lopes Cabral, José Galache, Antonio Alves, 
eu, e outros trouxeramos, um dia, cincoenta e cinco 
narcejas, além de patos, codornizes, e outras biche- 


CAÇADAS PORTUGUEZAS [17 


zas, afamadas na gastronomia, disse-me X—o tal 
amigo — com ar merencorio: 

— Bem, a avaliação d'estas terras e d'estes pinhaes 
por hoje está feita; podemos voltar para Lisboa. Lá 
lavrarás o auto. 

Rimo-nos do gracejo, mas o riso devia ser um 
pouco amarello. 

— Para a outra vez será. Tambem nem sempre 
gallinholas!... 


Como para tudo ha compensações, Santo Huberto 
lembrou-se dos seus fieis, e, á volta para Lisboa, dois 
episodios indemnisaram-nos da semsaboria da ma- 
lograda excursão. 

Trazia muita gente o vapor na coberta, atravan- 
cada, demais, com grandes cestos, malas, e bahus. 
Os passageiros formavam grupos animados. Entre 
elles descobri alguns, meus conhecidos. 

— Então boa caçada? perguntou-me um. 

— Nada, o peor possivel. Viemos ás narcejas, 
mas o tempo aqueceu, e não vimos nem uma. E gal- 
linholas, uma por junto, e essa mesma levantou, e 
foi-se! 

— Pois eu fui mais feliz, replicou elle; e, desvian- 
do-se um pouco, mostrou-nos seis magnificas galli- 
nholas, presas pelo bico, secundum artem, e osten- 
tando-se — como uma estrella — sobre uma das esco- 
tilhas envidraçadas do vapor. 


IIS CAÇADAS PORTUGUEZAS 


— Dou-lhe os parabens, disse eu. Onde as encon- 
trou ? 

— Longe. Venho do Alemtejo, e de lá as trago. 
E não repare em eu estar assim vestido. Deixei lá 
tudo — farpella, cães e espingarda. 

Com effeito eu notara a elegancia e a improprie- 
dade do trajo do feliz caçador. Sapatos de polimen- 
to, calça preta, frak, capa á hespanhola, e sombreiro 
alto! Comtudo podia ser... 

— Então volta para lá? 

— Volto. Ainda lá vou estar uns dias. E 1a affas- 
tar-se... | 

— Deixa-as alli?! Olhe que ha aqui muita*gente... 

— Não tem duvida. 

Ficou por aqui o dialogo. Havia lá, a um canto, 
uns olhos negros, que o chamavam, impacientes já 
talvez da longa ausencia. 


Sentei-me, olhando ora os passageiros, ora o céu, 
que me offerecia um espectaculo bellissimo — um 
pôr do sol deslumbrante, ora as gallinholas, junto 
das quaes estavam de pé uns, que me pareciam 
ciganos, de rostos trigueiros e agudos, os olhos grandes 
e redondos, os narizes aduncos. E, ao vel-os alli, pas- 
sava-me pelo espirito a idéa de que o meu ditoso 
confrade não chegaria ao caes do Terreiro do Paço 
na posse effectiva das suas seis gallinholas. .. 

Ao meu lado viera sentar-se outro collega caça- 


CAÇADAS PORTUGUEZAS LIGO 


dor, tambem conhecido, que vinha não sei d'onde, 
e que fôra infeliz como eu. 

D'ahi a pouco elle queixou-se de frio, levantou-se, 
e foi para a camara, em baixo. Era mais agasalhada. 

Eu continuei a observar os homens, procurando 
ler-lhes, nos olhares furtivos e phosphorecentes, as 
intenções. 

— Serão honrados? dizia eu comigo. Gostarão de 
gallinholas ? 


% * 


Estava eu entretido com estas graves meditações, 
quando se levantou um reboliço, e logo vozes gri- 
tando : 

— Os pombos! Os pombos! Fugiram os pombos! 

Fomos ver o que era. 

A bórdo, á prôa, vinham umas gaiolas com pom- 
bos, e alguns conseguiram fugir da prisão. 

Soltos, vendo affastar-se a terra—a sua patria, 
sentiram a nostalgia do columbario, e desferiram o 
vôo nessa direcção. Foram talvez dizer-lhe o ultimo 
adeus — ao ninho seu paterno!... 


Con [ali aperte e ferme al dolce nido 
Volan per Paer, dal voler portate... 


Quantos dramas intimos, quantas dôres, torturam 
a alma dos animaes, e ahi ficam encerradas, como 
numa masmorra, pela fatalidade do silencio! 

Eu disse a alma... Como se ha de dizer, se não 
for assim? 


120 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


Todavia, decorridos minutos, os ingenuos e sen- 
timentaes foragidos voltaram ao vapor! E novos 
gritos — agora de admiração e de regosijo — sauda- 
ram o seu regresso! 

Se o amor os levara, o amor os trouxe, porque 
nas gaiolas tambem vinham as pombinhas, suas 
companheiras. E elles vieram. 


- dal disio chiamate 


como do Paolo e da Francesca de Rimini disse o 
grande florentino. 

Um idyllio — a que só faltou um Anacreonte, para 
o tornar immortal. 


Chegámos ao caes. Desembarcámos, e eu, depois 
de me despedir dos meus confrades da má fortuna, 
entreguei, na Arcada, os meus cães ao fiel Men- 
donça, antigo soldado, honrado homem de grandes 
barbas, que gosava e merecia a confiança de todo 
o bairro da Estrella. 

E estava eu parado á esquina da rua do Oiro, 
á espera dum carro, quando vi approximar-se o 
meu feliz confrade. 

— Olá! 

— O senhor viu aquellas gallinholas, que eu tra- 
zia. .. — disse-me elle com um ar dubio, e reticen- 
cias em cada palavra. 

— De certo que vi. Eram seis. Falta-lhe alguma? 
perguntei, lembrando-me logo dos ciganos. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 121 


— Falta-me uma. (Quando desembarquei achei 
cinco. 

— Sinto muito, mas eu é que não a tenho. E levei 
a mão á saca, para lh'a mostrar. 

— Ora essa agora! Eu, nem por sombras... 

— Pois sim. Está claro que nem por sombras, 
mas veja sempre; pode ella ter-se cá mettido, sem 
eu dar por isso... Console-se, amigo, que ainda 
lhe deixaram cinco. Eu avisei-o, para que as guar- 
dasse, mas o senhor não fez caso. Queria gosar dos 
seus triumphos... É por isso pagou a patente. 

— Para a outra vez serei mais acautelado. 

— Lembre-se de que a occasião faz o ladrão. 

E com um nariz muito comprido, tão comprido 
como o da sua chorada bicuda, lá se foi o felizardo, 
favorito de Diana. 


Encerra esta historia dois segredos. Nenhum d'elles 
é raro, mas o encontro, a coincidencia dos dois, é que 
é curiosa e picante. 

Para mim — caçador de raça — que ainda aqui 
me estou deleitando com estas narrativas de ha vinte 
e trinta annos, uma grade de mais, ou de menos — 
tão frequentes são ellas entre os que não são donos 
de Mafra ou de Villa Viçosa — era quasi indiffe- 
rente. De toda a maneira eu tinha-me divertido. 

Nessas occasiões, sentiaame dominado por uma 
verdadeira febre. Trez dias antes já eu a tinha, etres 


122 E CAÇADAS PORTUGUEZAS 


depois ainda ella durava. Uma caçada d'um dia tra- 
zia-me entretido uma semana! 

Ver romper a manhã em terra, ou sobre as aguas; 
atravessar as largas campinas da lezira ; embrenhar- 
me pela immensa floresta dos pinhaes do sul do Tejo 
— solitarios e sombrios; espreitar, aqui e alli, um lo- 
garejo rustico, pittoresco, isolado, perdido numa en- 
costa erma e pedregosa; descobrir ao longe uma 
paizagem verdejante, enquadrada entre duas renques 
de altos pinheiros, e logo occulta pela massa verde- 
escura do espesso arvoredo; observar uns effeitos 
de sol no delicioso verde e oiro dos pampanos... 
Tudo isto, que eu gosava intensamente, supria-me, 
nos maus dias, a ausencia da caça. 

Mas para os que não são artistas, uma caçada é 
um periodo com uma só oração, e essa é portanto 
a principal. Tirada ella não lhes resta nada. Ou an- 
tes resta no espirito uma impressão, talvez egual á 
d'um jogador, que perdeu. Gastou, e não ganhou 
nada. 

Depois ha as familias, as senhoras — as nossas e 
as suas amigas. Para umas e outras a caça é uma 
rival, naquelle momento preferida. E então, perante 
um revez, ellas, longe de terem a generosidade das 
grandes almas, são implacaveis! O drama da caça, 
para nós, passa-se no campo, mas ellas assobiam-nos 
em casa,quando não vêem o epilogo na mesa do 
jantar! 

Solteiro, e sem familia então, quando eu recolhia 
a Lisboa, e pendurava a minha saca, vasia de caça, 
não havia alli, ao pé de mim, ninguem que o extra- 


Us 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 12 


nhasse, que attribuisse a pouca destreza, o que fôra 
má fortuna, e que lamentasse o dinheiro, gasto inutil- 
mente em tão estereis excursões. 

A minha familia d'então eram os meus perdiguei- 
ros. Esses, cumplices dos meus desperdicios, tinham- 
se tambem divertido, e depois da ceia, iam dormir, 
e sonhar talvez. como eu, com outras caçadas. 


Este rodeio não me affastou do assumpto: tive-o 
sempre á vista. É cá estou com elle. 

Aquelle nosso confrade, que no vapor se quei- 
xara de frio, e fôra para a camara, não vinha con- 
tente. E mais o entristeceu talvez o espectaculo da 
felicidade alheia. O coração humano tem destas 
coisas. Aquella estrella de gallinholas, exposta all, 
apesar do sombrio das suas pennas tinha para elle 
extranhas fulgurações! Elle andara um dia todo em 
busca de caça, e trazia uma grade. O outro, de sa- 
patos de polimento e chapeu fino, ostentava os des- 
pojos opimos da victoria! Uma terrivel e lancinante 
ironia! E por isso elle foi esconder a sua vergonha, 
longe das nossas vistas, na sombria camara do va- 
por. Não era frio, era despeito... 

No dia seguinte encontrâmo-nos na rua. 

— Então — disse-me elle — vocês hontem tiveram 
azar. 

— Sim, não fizemos nada. Achei uma gallinhola, 
por junto, e não lhe pude atirar. 


124. CAÇADAS PORTUGUEZAS 


— Eu tambem não. Encontrei cinco perdizes, e 
não trouxe nenhuma. Mas não diga isto, porque eu, 
ao passar pela Praça, vi lá uma gallinhola boa e 
fresca, e comprei-a, para levar alguma coisa para 
casa. Você comprehende... 

— Comprehendo, sim. Politica domestica... 

— E claro — disse elle, e foi-se. 

E tambem isto podia ser... 


Poucos dias depois, contando eu, numa reunião: 
de caçadores, os pequenos episodios desta excur- 
são, quando veiu o das seis gallinholas, um dos pre- 
sentes, a rir muito, disse : 

— Pois, sim, senhor, não foi má partida. As seis 
gallinholas vi-as eu comprar na estação do Barreiro 
a um regatão, dos que alli vendem caça. Da morte 
d'aquellas está o homem innocente. 

E quem lhe pilhou a elle a bicuda? Foram os ci- 
ganos?... 

Que fosse uma boa partida, não o direi eu, porque, 
comprada ou caçada, era d'elle, mas para a victima, 
quando, ao desembarcar, deu pela falta, foi decerto 
— uma má chegada! 


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Campinos na lezira 


O maioral 


A Bulhão Pato 


ISTO da paizagem, como em tudo, os gostos são 
diversos. Uns gostam dos terrenos levemente 
accidentados, outros das altas serras: — eu, 

sem as desprezar, prefiro os grandes plainos, as 
leziras sem fim, que me dam a idéa, a impressão 
do mar sem limites. 

Os meus terrenos, para caçar, são a lezira e os pi- 
nhaes. E na lezira a figura que mais gosto de ver é o 
campino —o genuino, o typo antigo, de barrete verde 
ou preto, collete forrado e avivado de encarnado, 
calção de fivela, meia de lã, e sapato de prateleira. 
Se eu fosse senhor de terras no Riba-Tejo este 
“trajo, o tradicional, era de rigor nos meus creados 
— não lhes admittia a mais leve alteração: Sint ut 
sunt, aut non sint. 


126 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


O leitor perdoará esta irrupção do latim em plena 
campina — mas antes latim que francez — e d'ahi 
estas questões de gosto — questões d'arte para mim, 
que vivo e me preoccupo tanto com estas frivolida- 
des, como outros com a politica e outras materias 
de alta transcendencia — são da maior importancia, 
e não acho de mais uma citaçãozinha da lingua mãe. 
Citaria até sanskrito... se o soubesse. 

O campino é, de todos os habitantes das nossas 
terras — altas e baixas — o mais elegante e typico. 
Nenhum lhe soffre o confronto —- nem os dos plai- 
nos, nem os das serras, nem os das costas e arribas 
do mar. A um tempo povo e fidalgo — é peão e ca- 
valleiro. No olhar, no porte, tem o quer que de se- 
nhoril, de superior, de conscio de si, sem vaidade . 
nem ostentação. —E o que é— e no meio da lezira, 
o seu todo — não elle — parece dizer-nos, quando a 
vae cortando, ao passo seguro e firme do seu ca- 
vallo, e com o pampilho descaído sobre o hombro : 
— Nós — eu, o meu cavallo, e a minha vara — aqui 
governamos: isto é nosso! 


Elle, o seu cavallo, e a sua vara! Estes tres ele- 
mentos constituem a individualidade campino — o 
guardador. 

O homem, nascido e creado no campo, e por as- 
sim dizer entre a sella e a manta, é entresêcco, 
musculoso, agil, e bravo — como os animaes, os 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 127 


toiros com que vive. E sobrio e paciente. Está no 
campo, como em bivaque permanente; tem a sua 
companha, e com ella a disciplina; é moço, e obe- 
dece, ou maioral, e manda: o grande lavrador, o pa- 
trão, é o seu general. E tomaram todos os generaes 
que os seus soldados fossem tão sobrios, tão sub- 
missos, tão dedicados e tão valentes, como estes ca- 
valleiros da lezira! Uma vez, por semana, ao sab- 
bado, vae á povoação, ao Carregado, a Villa Fran- 
ca, á Gollegã, à Azambuja, fornecer-se de manti- 
mentos, e depois volta para o seu posto, e por lá 
está até ao sabbado seguinte, como uma sentinella 
perdida, na solidão da immensa campina, envolto na 
sua manta de listras, ou ao abrigo da barraca de 
pinho e colmo, de chão batido e rijo, varrido e 
aceitado como o d'um palacio. 

Passa a vida a cavallo — dia e noite. Vida agreste 
e dura— á chuva, aos soes intensos e abrasadores; 
no forte da canicula, e nos vendavaes do inverno, 
quando sopra o sudoeste, e a lestia, o palmellão, e 
os raios, cruzando-se nos ares, prenunciam as chu- 
vas torrenciaes, que lhe inundam de repente a lezira, 
e o fazem atravessar a galope desfechado os cam 
pos alagados, acudir ás comportas, e salvar d'um 
pulo as vallas reaes, largas como ribeiros, para li- 
vrar o gado, passando-o para as terras mais altas, 
onde a cheia o não alcance! 

E um servo, e, ás vezes, assume as proporções 
dum heroe, pela abnegação com que cumpre o seu 
dever, pelo valor temerario, com que affronta os. 
perigos! 


128 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


O seu cavallo — é como elle rustico e sobrio — 
«desconhece os conchegos, os confortos da civilisação. 
Nunca dormiu numa box elegante, nunca lhe vesti- 
ram pannos de côres de listões variados, nunca se 
mostrou em campos de corridas, nem galopou na 
pista, ouvindo os hurrahs dos sportsmen enthusias- 
mados. E' feio, esqualido e hirsuto, se o comparar- 
mos com um corredor, um charger de raça, e este 
vence-o na carreira. Mas em serviço, no campo — 
ao frio, ao sol, e ás chuvas — eu vou por elle. 

A vara — o pampilho — completa a physionomia do 
homem — com ella é o campino, sem ella um campo- 
nez a cavallo, como outro qualquer. A um tempo insi- 
gnia e arma — quando a empunha sente-se rei, tem 
nella o sceptro, e a lança, e com ella dirige, governa 
.e castiga os seus indomitos e feros subditos! 

Coisa singular — esta figura, tão original, mixto de 
pastor e de soldado, cuja vida— perpetua bucolica, 
ás vezes cortada por uma tragedia —nos parece tão 
suggestiva de poesia, tem passado, esquecida dos 
poetas, e não figura no cancioneiro popular da nossa 
terra! 


HM 


Andavamos ás codornizes nas hervas. Com bons 
cães, e quando as ha, é bonita caçada. 

De repente um aguaceiro em cima de nós. Não 
offerecia outro abrigo a immensa lezira, que se 
«estendia deante de nós, a não ser uma barraquinha 
de palha ponteaguda, que se via, lá ao longe, no 
meio da campina deserta. Corremos para lá. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 20 


— Maioral — dá licença? disse José Galache — 
um dos nossos companheiros — dirigindo-se ao cam- 
pino, unico habitante d aquelle palacio. 

— (Os senhores, podem entrar. O caso é caberem 
— respondeu o guardador, levando a mão ao bar- 
rete verde. 

Era um homem de quarenta annos — meão d'es- 

“tatura, forte e atarracado, trigueiro, a barba rapada, 
um pouco picado de bexigas, olhos claros, olhos de 
homem valente — o que logo, à primeira vista, elle 
denunciava pelo bem plantado da figura e pela fir- 
meza dos movimentos. 

A chuva durou o "bastante para nos molharmos. 
Nós a chegarmos á palhota, e ella a parar. Saímos 
para fora, e emquando faziamos e accendiamos um 
cigarro, tinha-se travado conversa com o maioral. 
“A cem metros de nós estavam os toiros — uns ani- 
maes negros, de boa estampa. 

— De quem é este gado? 

— É do dr. José Vaz Monteiro. 

— É que tal? 

— Não é mau de todo. Os senhores lá o vêem em 
Lisboa. 

— Olhe, lá estão aquelles dois a quererem brigar 
— disse eu. 

— José, vae lá. 

O José, que assim foi mandado fazer a policia 
do campo, era um pequeno de dez annos, rolico e 
forte, mas de quem nós não deramos fé. Elle não 
hesitou —tinha-o já feito tanta vez — e, saltando do 
caminho onde estavamos para a lezira, foi direito 

à E) 


130 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


aos toiros, e com dois berros e quatro matacões de 
terra, que atirou aos desordeiros, acabou a contenda. 

Era um domingo. 

— Faz hoje oito dias, ia aqui havendo uma des-. 
graça. Dá-me o seu lume? 

— "Tome lá um charuto. 

— Muito obrigado — eu não fumo d'isso. Quem 
me tira o cachimbo, e o cigarrito. .. Pois foi assim 
como lhes digo. Estava eu aqui — alli na barraca 
— a comer, e vae que oiço, de repente, uns gritos 
de homem afflicto — Quem me acode!? quem me 
acode!? Salto logo fóra, e o que havia de ser? Um 
alma do diabo, montado num burro podre, e um 
d'aquelles toiros — aquelle, e apontou um caraça — 
a contas com elle, já para saltar a valla, esta valla 
aqui! Ai, senhores, debaixo dos pés se levantam os 
trabalhos! — bem se diz. Eu não sei como aquillo 
foi: tinha alh, felizmente, a egua e a vara. Num 
prompto estava em cima do toiro!... Mas podia-me 
levar o diabo o canastro, que elle é o mais valente 
dos que tenho á minha guarda! Custou-me a viral-o ! 
Queria ir á má cara para cima do homem, e deu- 
me agua pela barba para o arrancar d'aqui... Em 
fim, como eu era pessoa conhecida, lá me obedeceu 
-— disse elle, sorrindo do seu gracejo, e mostrando 
uma fiada de dentes brancos e curtos. 

Se eu aqui não estou, era um homem perdido. | 
Ahi ficava estripado, elle, burro e tudo! E olhem 
que a culpa era só d'elle. Elle proprio m'o disse. 
Sempre ha cada homem, que mais lhe valia ser 
burro! Ao menos ninguem se enganava com elles. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 151 


“Pois de que se havia elle de lembrar ?! Como o toiro 
se poz a olhar, acenou-lhe de cá com o lenço! — Um 
lenço encarnado! Que lhes parece aos senhores: 
Era burro, ou não? Se fosse um garoto como esse, 
vá; mas, não, senhor, atirava já para ginja 
velho do que eu! 

'— Ora essa! 

— Sim, senhor, e depois, com fumaças! Quando se 
viu fóra do aperto, já se vê. Disse-me que tinha visto 
muitos toiros, que em rapaz tinha sido forcado, aqui 
e acolá... Muitas historias... De modo que, já abor- 
recido, perguntei-lhe — se elle era tão valente, por- 
que é que gritara por soccorro e não esperara O 
toiro—elle, mais o seu burro? Que já estava velho. 
Pois se está velho, vá-se com Deus, e não se metta 
em danças, que d'esta o livrámos nós — Deus e eu. 
Que neste caso Deus entrou por procuração — como 
dizia meu pae. Eu é que lhe fiz as vezes—e o 
maioral, dizendo isto, piscou os olhos garcos com 
certa malicia. — Lá estão os bois outra vez. José, vae 
lá, e aparta-os para longe. Andam naquilo, até que 
se pegam a valer, e então ha morte de homem! Lá 
está o Caraça a olhar para elles, mas vae lá sem- 
pre. 

— O que é isso do Caraca, maioral? 

— E' que aquelle toiro aparta as desordens dos 
outros. 

— Sim?! Como é isso ? perguntei eu. 

— Sim, senhor. Mas tem seus perigos... O animal, 
quando vê dois pegados á marrada, vae-se de cá di- 
eito a elles e joga a pancada ao meio; mas, ás vezes, 


mais 


192 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


ha um desvio, e lá vae um corno pelo peito ou pela 
barriga dos que estão bulhando, e era uma vez um 
toiro! Ainda ha poucos dias que isso aqui aconte- 
ceu. 

E o maioral, para fechar e commentar a narra- 
tiva, continuou: 

— sto é uma comparação. Arma-se uma questão 
com amigos nossos, e uma pessoa quer apartal-os, 
e vae, entra, e mette a navalha ao meio, e por des- 
graça apanha um corpo deante de si... A faca faz a 
sua obrigação... 

Aqui o campino, que não tirava os olhos da ma- 
nada, gritou para O rapaz: 

— Pára ahi, José — que eu lá vou. 

E, saltando d'um pulo para cima da egua, já com 
o pampilho ás costas, disse-nos: 

— Adeus, meus senhores. Desculpem, mas vou lá 
eu. Não me façam elles alguma desfeita ao pequeno. 
E” meu filho. 

E partiu, como um raio, a galope, pelo campo 
fóra. 

Nós voltámos para as codornizes. Havia muitas 
na lezira, e fizemos boa cacada. 


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Na Coutada Velha e Sesmarias 
“de Sua Alteza 


BENAVENTE 


A José Quaresma de Paula. 


oi à volta d'uma grande cacada, em dezembro 
de 187., que Bulhão Pato me disse, visitando-o 
eu na sua casa da rua das Praças: 

— Já viste, lá em baixo, o que veiu de Benavente? 
Uma das maiores cacadas que tenho feito. Aquillo 
era uma arca de Noé — menos tigres e leões! Foi 
pena que não acompanhasses; mas havemos de lá ir 
juntos. E que hospitalidade ! Has de gostar muito do 
nosso Quaresma. Que aconchego de casa! Have- 
mos de lá ir os dois — tornou elle a dizer-me. Ha 
de ser para o anno. Que a entrada deste foi um 
assombro, e provavelmente não se repete tão cedo; 
mas, em todo o caso, aquelles pinhaes sempre dei- 
tam de'si muita caça... E depois, que abertos que 
são, e que piso! Ainda se resentem do que foram... 


“ 


134 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


Pinhaes reaes! Has de gostar — affianco-t'o eu. E 
quando desceres, aparta o que quizeres. Cá em casa 
não se come tudo. 

Um anno depois, quasi dia por dia, numa bella 
manhã de dezembro, partiamos de Santa Apolonia, 
com destino a Benavente. 

O tempo uma formosura— o ar frio, o vento norte, 
alto, o ceu sem uma nuvem, e nas nossas almas 
muita alegria. E” caso de dizer aqui — oiro sobre azul: 

Na Azambuja entrámos no barco, que nos havia 
de levar, pela valla, até Benavente. Além de nós iam 
dois passageiros, um cavalheiro d'aquella villa, e um 
advogado de Lisboa, o sr. dr. L. F., que eu então 
apenas conhecia de vista. Este era consocio de Bu- 
lhão Pato, na. Academia das Sciencias. 

A conversação, a que a principio me conservei 
alheio, versou desde logo sobre litteratura, como era 
natural: houve, porém, um momento em que eu que- 
brei a minha habitual reserva, apoiando o meu amigo 
na discussão. Esta entrada deveu de certo parecer 
extranha ao illustre jurisconsuito. O barrete de lã 
preto, que eu levava descido até aos olhos — a ma- 
nhã estava fria—a manta de listras, os ceifões, as 
polainas, os sapatos de prateleira, o cinto cheio de 
cartuchos, a espingarda, e a trela de cães, que se- 
gurava na mão, todo este conjuncto era de certo 
pittoresco; mas ninguem suspeitaria, vendo-me as- 
sim trajado, quem eu era. 

Assim é que eu costumava sair de casa, fosse 
dia ou fosse noite. Quando tencionava demorar-me, 


a mala levava as vestes cidadãs. Era mais commodo, | 


BA 


ww 


CAÇADAS PORTUGUEZAS > 


e, quando chegava aos terrenos da caçada, estava 
prompto para entrar logo em acção. 

Foi, portanto, aqui mais uma vez verdade — que 
o habito não faz o monge. 

A bateira seguia, à sirga, lentamente, e, apesar da 
vela sentir a aragem fresca da manhã, os homens 
e os cavallos, que a puchavam, a pouco trecho iam 
já cobertos de suor. (Curioso assumpte para um 
quadro, este, em que se vêem associadas a viação 
terrestre e a fluvial, naquella formosa e tranquilla 
paizagem do Riba Tejo. Aqui fica a chamada aos 
meus amigos pintores. 

Das lettras a palestra derivou para as armas — o 
que tambem era natural. O doutor tinha uma espin- 
garda ingleza, e, carecendo para ella não me lembra 
o que, dei-lhe um bilhete para a casa Forjaz — en- 
tão estabelecida na rua do Arsenal, onde encontra- 
ria o que desejava. 

Dias depois, entrando eu alli, agradeceram-me o 
novo freguez que lhe havia enviado, dizendo-me que 
o dr. L. F. tinha lá ido com a minha recommenda- 
ção, e me qualificara de doutor! 

Pura generosidade de sua ex.: — eu nunca estive 
em Coimbra. Aquelle grau era, talvez, resultado da 
nossa conversação na barca da Azambuja, e da opi- 
nião que o illustre jurisconsulto formava, e decerto 
forma ainda, das estreitas relações, que devem exis- 
tir entre as lettras e os doutores. Devem existir — 
mas nem sempre existem. 

E neste caso tambem, muitas vezes, o habito não 
faz o monge. 


136 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


Conta Louis Viardot, nos seus Souvenirs de chas- 
se, que um dia em que sir Robert Peel, tão grande 
politico como apaixonado sportsman, andava, com 
grande comitiva de amigos e creados, cacando no 
Norfolkshire, um dos condados da Escocia mais abun- 
dantes de caça -— notou, entre os batedores, o reve- 
rendo cura da freguezia catholica! Quem sabe o que 
é uma caçada naquellas terras, comprehenderá o re- 
paro e o espanto de sir Robert! O game-book — diario 
da caça — da residencia para onde Viardot, em 1855, 
fora convidado, registava — em cinco dias de caça no 
mez de outubro de 1855 — dois mil quatro centos e 
quatro faisões! Repare o leitor bem — que não eram 
codornizes, nem perdizes. E mesmo que fossem ca- 
lhandras... 

Quando chegou a hora do lunch, o illustre esta- 
dista, dirigindo-se ao reverendo cura, e apontando : 
para o cajado que elle tinha na mão, perguntou-lhe 
se nunca havia caçado. | 

— Pelo contrario, respondeu o cura — cacei muito. 
Mas já lhe perdi o gosto. 

— Eu acreditava que esse gosto nunca se perdia!... 
Quando é que deixou de cacar ? 

— Quando deixei de errar. 

Sir Robert fez com a bôca um tregeito, que que- 
ria dizer que lhe custava a acredital-o, e que os ga- 
barolas appareciam em toda a parte — até no condado 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 157 


de Tyrone e sob as vestes humildes dum cura d'al- 
dêa! 

Este percebeu. 

— Duvidaes? Julgaes que minto? Permittis que 
eu prove o que disse ? 

E, pegando em uma das espingardas de sir Ro- 
bert, quando recomeçou a cacada, poz-se ao lado 
delle, e com doze tiros, e uma por uma, matou 
doze pecas. Então, voltando-se para elle, disse- 
lhe : 

— Acabaes de ver, que eu falava verdade. Foi 
desde que deixei de errar, que eu perdi oramor á 
caça. 

E, ditas estas palavras, restituiu-lhe a espingarda, 
com que justificara tão brilhantemente o quê disse- 
ra, e retomou o seu logar na linha dos batedores! 

O rev.º prior de Benavente, que com outros ami- 
gos seus e de Bulhão Pato, nos veiu esperar na 
ponte, e cuja hospitalidade iamos receber, não po- 
deria talvez disputar o campionato do tiro com este 
ideal cura escossez, adestrado em tão opulentas ca- 
poeiras — quero dizer em tão opulentas coutadas ; 
mas o que posso affirmar de vis, é que, durante 
os quatro dias que durou esta nossa cacada, não 
me lembro de elle errar um tiro. 

E” verdade que as gallinholas e as perdizes não 
saltavam aos milheiros, como nas abençoadas terras 
que Viardot— o feiizão — teve a ventura de explo- 
rar : todavia, se elle não era infallivel, se não attin- 
gira aquella semsaborona perfeição — digamos a ver- 
dade — o nosso amigo José Quaresma era uma boa 


“ 


138 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


espingarda — a good shot, como elles dizem —-os 
insulares do Reino-Unido. 


Não seria aqui de extranhar uma pequenina amos- 
tra da minha erudição archeologica, limitada que 
fosse ás antigas caçadas reaes nestas coutadas e ses- 
marias; mas, com a mão na consciencia e na me- 
moria, declaro, e até juro, se preciso for, que neste 
momento sou completamente ignorante em todos 
os capitulos da archeologia benaventina. 

O que espero me perdoarão os meus sabios col- 
legas da Comissão dos Monumentos; porque, quanto 
aos leitores, esses darão gracas a Deus d'este meu 
excesso de consciencia, e de... ignorancia. 

Fiquemos pois nas cacadas modernas, e ficamos 
bem. 

Benavente era, com effeito, merecedora dos gados 
do meu illustre amigo. A pura verdade, quanto elle 
me dissera de coisas e pessoas. 

O terreno admiravel — quasi plano em toda a par- 
te; magnificos os pinhaes, distanciadas as renques 
do arvoredo, .de fórma a poder-se seguir por entre 
ellas uma gallinhola à todo o alcance do tiro; e das 
vinhas e mattos, que marginavam os caminhos, até 
debaixo dos pés dos cavallos, na propria estrada, 
saltavam as codornizes! 

E, como se isto não fosse bastante para nos sa- 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 150 


tisfazer, iamos ter companheiros de primeira ordem, 
cortezes e bons cacadores — uns discipulos, outros 
contemporaneos dos mestres da velha escola. All, 
como se costuma dizer, era pedir por bôca, e ser 
logo servido. 

Tudo, pois, era de feição—a terra, a caça e os 
caçadores! 

Havia, portanto, por onde escolher, mas nós dé- 
mos sempre a preferencia ás gallinholas. A honra 
— a quem a merece! É era tanto assim que. quando 
nos dirigiamos' a cavallo para a Coutada Velha ou 
para as Sesmarias de Sua Alteza, e os cães, en- 
trando nas vinhas abertas, a um e outro lado da es- 
trada, paravam e levantavam alli codornizes, iam-se 
estas em paz, sem uma simples saudação! Não valia 
a pena apearmo-nos. Os pinhaes tinham hospedes 
de mais valia, e a essas se encaminhavam nossos 
“passos. 


Foi numa d'estas jornadas, que eu travei relações 
dorsaes com um animal extraordinario — um bur- 
ro, que poderia correr na pista, e ganhar premios 
num Derby da sua especie ! 

E passo a contar. Um dia, á hora de partirmos 
para os pinhaes, por uma circumstancia imprevista 
faltou o cavallo que eu costumava montar, e não era 
facil, de momento, descobrir outro, que o substi- 
uisse. Debatiamos nós este gravissimo caso, quando 


140 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


nos apparece um cavalheiro da terra, o sr. Eugenio 
Paim dos Reis, que, informado do incidente, com 
a maior amabilidade me offereceu o jerico que elle 
montava, perguntando, porém, previamente, se eu 
estava costumado a andar assim — e apontava para 
um magnifico albardão, sem estribos. Elle, ape- 
zar de reconhecer os: merecimentos do bicho, não 
lhe concedia as honras da cavallaria : transportava-se 
nelle sentado. Em tudo o mais o maior asseio e es- 
mero — o pêlo brossado, macio e luzidio como o: 
d'um puro-sangue — os arreios dos melhores — a fer- 
ragem completa e nova. 

Respondi-lhe, com o maior desplante, que sim! Não 
sei se cheguei a dizer-lhe, que nunca andara em bur- 
ros d' outra maneira ! Aquelle animal — que Deus me 
perdoe! — caira alli do ceu. É seria quasi offendel-o, 
não me aproveitar. 

Passar de cavallo para burro — não é bom, mas 
naquelle dia eu não perdi na troca — antes pelo con- 
trario. 

Os meus amigos — una voce — teceram o elogio 
do animal, enumerando as apostas, que o seu dono 
tinha ganho com elle: — em vista do que me recom- 
mendararn, que me segurasse. 

Eu, para não perder a caçada, sentia-me capaz de 
montar em pêlo um potro selvagem dos Pampas! 
Sentia-me gaúcho até á raiz dos cabellos! E, como 
não havia tempo a perder, saltei logo para cima do 
albardão. Partimos... a trote! 

Pato, o padre Quaresma, o doutor Borralho, Ma- 
nuel Coutinho, Thomaz da Rocha, e os outros com- 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 141 


panheiros, ficaram-me resando pela pelle, quando 
viram a andadura que o bicho tomara... Eu sou alto 
e grosso, e elle era baixo de pernas. Os menos ima- 
ginosos prophetisavam varias figueiras, a ensom- 
brar a estrada; os outros, mais assustadicos e tra- 
gicos, falavam em cabeca partida ou costella amol- 
gada!... 

Eu, que ia trotando, sentia-me admiravelmente, e 
posso afirmar que nunca tive melhor montada, como 
dizem, em calão de caserna, os da cavallaria. Aquelle 
podia levar um copo cheio de agua, que não a entor- 

.nava! 

A estrada ficou virgem de figueiras, por mim plan- 
tadas. E parece que, à rijeza dos musculos alliava a in- 
telligencia, aquelle raro animal: — foi o meu transpor- 
te, e seria tambem o meu guia, se fosse necessario. O 

-endemoninhado, firme e rapido como um charger, 
nunca mais parou, nem mudou de passo, até chegar- 
mos aos pinhaes! Montes de pedra britada, charcos, 
piteiras, que ameacavam a integridade das nossas 
respectivas epidermes, tudo elle saltava ou torneava, 
sem me dar tempo para eu fazer um movimento ! 

Os meus amigos, montados nos seus grandes ca- 
vallos, deixei-os logo para traz, e a poucos passos 
perdi-os completamente de vista ! 

Não tornei mais a encontrar o feliz possuidor d'a- 
“quelle maravilhoso exemplar d'uma especie, que não 
prima nem pela celeridade, nem pela esperteza; mas, 
apenas cheguei a Lisboa, na primeira carta que es- 
crevi ao nosso amavel e hospitaleiro amigo, pedi-lhe 
que lhe renovasse os meus agradecimentos pelo pra- 


142 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


zer daquellas duas corridas, que figuram na minha 
memoria de caçador, sem o enxovalho da mais leve 
sombra de figueira! 


Fôra excepcionalmente grande a entrada de gal- 
linholas em Portugal, nos dois annos anteriores — 
appareceram até em hortas e quintas dentro de Lis- 
boa! O Manuel Candido, da Amora, e o Antonio 
da Gata, tambem caçador de profissão, em um dia, 
até ás duas horas da tarde, metteram na saca, nos 
pinhaes da Amora e de Corroios, trinta e seis, aban- 
donando o terreno por se lhes terem acabado as 
munições ! E osr. Francisco Negrão — um distincto 
amador — tal abundancia encontrou em Salvaterra, 
que, tambem num dia matou vinte e oito! 

As nossas esperanças, ou melhor direi — os nossos 
desejos, não se realisaram, porém, de todo neste 
anno: ainda assim foi um anno regular. As taram- 
bolas e os abibes viam-se em bandos numerosos, 
revoluteando sobre os campos, porém as nossas 
quatro cacadas fizemol-as nos pinhaes, e apenas um 
dia atirâmos tambem ás perdizes, nas vinhas e na 
charneca. Dirigiu-as todas o nosso bom amigo José 
Quaresma, pratico nos terrenos, e, como já disse, 
bellissima espingarda. 

Caçavamos, segundo as boas praxes, em linha, 
mantendo cada um o- seu logar; e, quando entrava- 
mos em pinhal mais fechado, as vozes de alerta! 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 143 


repetidas por todos os caçadores, orientavam-nos, 
evitando-se assim desastres, infelizmente frequentes, 
quando se encontram muitos atiradores em mattos 
altos ou pinhaes cerrados. E apesar d'isto o perigo 
é sempre grande. 

O director ia sempre na ponta esquerda da linha, 
e eu procurava ser sempre o ultimo da direita. De- 
pois do logar na extrema esquerda, para mim é 
aquelle o melhor; — e isto não obstante o grande incon- 
veniente de ser o que mais tem que andar, quando 
a linha roda à ordem do chefe, indo este no extremo 
esquerdo. Mas, se anda mais, tambem tem compen- 
sações agradaveis, porque os seus cães exploram- 
lhe mais terreno, e a caça, levantada pelo grosso 
dos caçadores e dos cães, vem, ás vezes, ter com 
elle. E então, se a sabe aproveitar, é rei. 


No decurso das minhas caçadas tive muitas vezes 
o prazer de acclamar os reis, mas d'esta vez, e logo 
no primeiro dia, fui eu o coroado. Não dei beija-mão 
aos vassallos, nem distribuí mercês, mas posso dizer 
que já tive corôa. Não é das fixas, os subditos são 
poucos, e ella dura o que duram as rosas, mas não 
tem espinhos. E quando os tem, são pequeninos... 
Póe-lhos algum collega de ruim condição, dos que 
teem o mau gosto de disputar estes triumphos! Mas 
estes piques da inveja não tiram o somno a ninguem. 


I44 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


Na caca, como no jogo, revezam-se a fortuna e 
o azar. Naquelle primeiro dia sorriu-me a sorte, 
e as gallinholas deram-me a preferencia, a que 
eu correspondi com egual cortezia:—bem saltadas, 
mal saltadas, não errei uma: a todas dei hospitali- 
dade na minha rede. Foi pena serem poucas, por- 
que eu estava afinado; e na saca, apesar de não 
ser grande, cabiam muitas mais. 

Ea a primeira vez que eu entrava naquelles pi- 
nhaes, os seus habitantes quizeram por isso obse- 
quiar-me, e cortezmente vieram ao meu encontro. 
No dia seguinte foi Bulhão Pato o rei, com muitas 
gallinholas —uma d'ellas morta com um tiro quasi 
a prumo, verdadeiramente real. 

Como disse, a minha estreia foi feliz. Cacavamos 
na Coutada Velha — velho era tambem o pinhal, 
aberto, com grandes claros no arvoredo — quando 
de repente me surde uma gallinhola, voando de bico 
para mim. Vinha baixa, a meia altura dos pinheiros, 
mas, quando me descobriu, quebrou d'aza sobre a 
direita. Estava quasi a cavaleiro, ao levantar, e su- 
bia obliquando: era um tiro verdadeiramente difficil 

de acaso; mas perdia-a, se a deixasse entrar na 
espessura do arvoredo. Atirei-lhe pois. Ella seguiu, 
e eu tambem a segui com os olhos até á grimpa 
dum pinheiro, onde, de repente, se sumiu. 

— Aquella vae escapa — disse um. 

— Não lhe deu — affirmou outro. 7 

É assim, até ao fim da linha, todos a julgaram in- 
colume. A mim parecia-me, todavia, ter-lhe acer- 
tado; vira-a estremecer, e portanto, apesar da geral 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 145 


negação, como tinhamos feito uma paragem, eu andei 
direito ao pinheiro, onde ella se me furtara à vista; 
e, olhando attentamente em volta, vi que não me 
enganara— a gallinhola lá estava morta no chão. | 

Coisa singular — nem uma mancha de sangue 
nas pennas, nem vestígio dum bago de chumbo nas 
pernas, nas azas ou na cabeca! Um exemplar ma- 
gnifico para museu. Não morreu de susto, de certo, 
nem eu verifiquei depois por onde q morte lhe en- 
trara. 

Ver e crer, como S. Thomé — na caça, como em 
tudo. Se eu não visse, lá ficava almoço fino para algu- 
ma rapoza aventureira. Na queda a bicuda encobri- 
ra-se de tal modo com os troncos e a ramaria do 
pinheiro, que ninguem a viu caír! 

E todos iriam jurar que eu a tinha errado! 


Um dos nossos bons companheiros nestas excur- 
sões foi Manuel Coutinho. | 

Conhecia este nome, havia já muitos annos. Uma 
noite estavamos — eu e outros condiscipulos meus 
da Escola Polytechnica — na barraca da Lima, na 
feira das Amoreiras, que então se armava na Pa- 
triarchal — hoje praça do Principe Real... Onde 
isto vae ! Foi, talvez, em 1856 ou 57. O assumpto 
do cavaco eram toiradas. D'ellas passou-se a falar 


da vida do campo -— alguns dos que alli estavam eram 
IO 


140 CAÇADAS FORTUGUEZAS 


filhos do Ribatejo. E d'ahi, das leziras, do gado e 
dos guardadores, pelo natural pendor, entrou-se no 
dramatico e inexgotavel capitulo das valentias. 

; Rapazes e portuguezes — fidalgos, burguezes ou 
plebeus — quando conversam é de amores, ou de 
proezas e aventuras. Se são illustrados principiam 
pelos livros, romances, versos, ou theatro, mas d'ahi 
a pouco lá vam parar. São aquelles os eixos sobre 
que gira a conversação. 

Entre outros episodios, um dos presentes narrava 
uma grande desordem, numa feira, onde os pimpões, 
os gallos do campo, fizeram actos grandes de valen- 
tia; e pronunciou então o nome de Manuel Couti- 
nho, pondo-o em evidencia como homem agil e des- 
temido. Esqueceu a minha memoria os pormenores 
da briga, e tambem o nome do chronista, mas guar- 
dou o nome do heroe, com quem eu, quasi vinte 
annos depois, havia de cacar nos pinnaes de Bena- 
vente. 

Manuel Coutinho rastejava pelos sessenta annos. 
Homem de boas maneiras e poucas palavras. Baixo 
e secco de carnes, não teria sido de grandes forcas, 
mas tinha as condições apparentes da agilidade, e, 
apesar de já quebrado e doente, no campo ainda 
não fazia má figura ao pé dos novos. Era de boa 
tempera. Foi este o meu companheiro habitual, e o 
meu guia. 

Apesar das magnificas recordações que de lá trou- 
xe, nunca mais voltei a Benavente — a gente não faz . 
tudo o que deseja — e não me ficou de memoria a 
topographia dos terrenos em que nós cacámos; mas 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 147 


recordo-me muito bem de que andámos atirando 
ás gallinholas na Coutada Velha e nas Sesmarias de 
Sua Alteza. Foi em uma d'estas excursões que, logo 
depois de nos apearmos, elle me disse que iamos atra- 
vessar um pinhal, onde havia gado ás vezes, e que 
elle ia lá ver o seu Car ara 

O que faz o costume! Aquillo que Manuel Cou- 
tinho, sem mais, acabava de me dizer, seria, na bôca 
d'outro individuo, precedido de quaesquer palavras de 
prevenção — como o caso parecia pedir : elle disse-o 
com a maior naturalidade, como se fosse a coisa mais 
simples d'este mundo passar atravez d'uma manada 
de toiros ! 

Quando entráâmos no pinhal é que eu vi que o 
gado era bravo. Uns estavam ruminando á som- 
bra dos pinheiros; outros, de pé, miravam-nos com 
attenção; dois ou tres levantaram-se, mas tambem 
ficaram parados, olhando muito sesudos para nós. 

Lá estavao Caraça. Manuel Coutinho apontou-m o, 
e falou-lhe de perto. O cornupeto olhava fito para 
nós, e lá se ficou quedo a ver-nos passar pela sua 
frente. Era muito novo — um garraio de menos de 
tres annos: pareceu-me bem, mas eu sou profano. 
Mais adeante andavam dois guardadores. 

A manhã estava fria — mesmo muito fria, o norte 
cortava, e eu notara que o meu companheiro trazia 
as mãos cobertas de frieiras — algumas ulceradas. 
As minhas levava-as eu resguardadas por umas luvas 
de camurça finissima, presente d um collega, tambem 
caçador: tirei-as e offereci-lh'as. Falo d este porme- 
nor, porque o honrado homem nunca mais se esque- 


145 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


ceu daquella minha attenciosa fineza, como elle lhe 
chamou, e, em cartas que depois me escreveu, ainda 
a ellas se referia, dizendo que as conservava como 
lembranca minha. 

Alma ingenua e grata, lembrava-se de tal insigni- 
ficancia! Eu tirara-as das minhas mãos, para lh'as 
dar: era isto que o penhorara. Mas na caçada do 
dia seguinte, ficou-me elle devendo muito maior fi- 
neza... Se eu fôsse, como muitos, imprudente, 
tel-o-hia morto, ou, pelo menos, ferido gravemente. 
Das mãos d'outros talvez não escapasse sem grande 
avaria. 


Extenso o pinhal que iamos atravessando, e muito 
espesso e sombrio. (O) acampamento dos toiros já 
ficava para traz. De repente achámo-nos inundados 
de luz!... O contraste era violento, mas os nossos 
olhos tiveram mais, para os deslumbrar alegremente, 
o maravilhoso e encantador quadro, que alli se nos 
defrontou. 

E aqui não ha penna que valha, só o pincel d'um 
grande artista o poderia reproduzir. Estacámos to- 
dos, na orla do pinhal! E' que naquelle momento 
- todos se sentiram presos — tanta era a belleza do 
inesperado espectaculo ! Via-se, aspirava-se, sentia-se 
a fragrancia e a frescura das paizagens matinaes ! 

Em frente de nós, para o fundo e para os lados, 
estendia-se um viveiro cerrado de pinheirinhos, em 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 140 


toda a efilorescencia e vigor da seiva juvenil. Del- 
gados, flexuosos, elegantes, com toda a pujança e 
frescor da mocidade, mas pequenos e rasteiros ainda, 
ficariam sepultados na grande massa do arvoredo que 
os rodeava, se não fôsse a luz do sol, que, desco- 
brindo-se por cima da copa do pinhal, de improviso 
os illuminou ! 

A manhã ia ainda no seu crescer. Os raios solares 
obliquos, que primeiro lhes tocaram no alto as finas 
agulhas, iam descendo, revelando-os e colorindo-os. 
Verde e oiro a cór na caruma, vermelha e mais vi- 
gorosa nos troncos, mais clara nas rugosidades, car- 
regada e baça nos planos interiores. Por cima e ao 
longe sobresaia-lhes a grande mancha acinzentada e 
indecisa do pinheiral, que seguia. 

A luz continuava baixando; alastrando-se sobre o 
massiço do plantio, e, crescendo com ella o movi- 
mento e o effeito das suas cambiantes, mantinha o 
contraste com a sombra. 

Como se a terra quizesse amparar, no seu cresci- 
mento, aquelles vegetaes adolescentes, involviam-lhes 
os troncos os fetos e as estevas, enleiando-os, abra- 
cando-os, cobrindo-os e defendendo-os com as finas 
vergonteas, com o seu recortado e elegante folhe- 
do, tocado de tons roseos, verdes e nacarados! 

E o sol, subindo, continuava a variar e a fazer 
valer, aos nossos olhos, as harmonias do colorido. 
os tons e meios tons d'aquelle agreste mas sua- 
vissimo quadro, que a natureza— a suprema ar- 
tista — compozera, desenhara e esculpira, e que elle 
— o divino decorador —nos vinha alli revelar, ti- 


150 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


rando-o das trevas, dando-lhe a vida, illuminando-o 
com a sua paleta deslumbradora! 

No chão sombrio, as ervinhas sêcas, o matto ras- 
teiro, rude frouxel dos campos, tosado pelos reba- 
nhos, requeimado pelos estios, completava, com a 
mescla da sua morte-côr, a moldura d aquella pa- 
radisiaca paizagem, que tinha ao fundo, a massa 
escura do pinhal, e em cima, no alto, o puro e frio 
azul do céu! 

Corridas todas as escalas chromaticas, chegara 
ao seu termo a symphonia da luz !... Nenhumas 
sombras restavam — tudo illuminado !... 

Quebrámos, finalmente o encanto d'esta magia 
dominadora... E mandámos entrar os cães naquelle 
jardim, amostra, visão de paraiso ! 

Era quasi uma profanação ! 


A surpreza dos artistas succedeu a surpreza dos 
cacadores: o viveiro de pinheiros parecia tambem 
um viveiro de gallinholas ! Estava cheio! Nunca vi 
tantas, reunidas em tão curto espaço! As que não 
encontrámos em toda a manhã tinham-se recolhido 
naquelle sombrio e delicioso bosque. E é preciso 
confessar que tiveram bom gosto na escolha — bom 
gosto e até juizo, porque como defeza era optimo. 

Ao primeiro rebate, que os perdigueiros lhes de- 
ram, da nossa chegada, foi logo um levantar doido, 


CACADAS PORTUGUEZAS II 


em todas as direcções!... Eu, à minha parte, contei 
até vinte e cinco, mas fóram de certo mais as que vi! 
Saltavam ás duas, às tres, às quatro, para a frente, 
para a direita, e para a esquerda. Umas saíam para 
fóra do massico, outras iam baixas, e perdiam-se na 
espessura dos pinheiros. 

Divididos os cacadores em tres grupos, uns ha- 
viam entrado no recinto onde ellas se abrigavam, 
outros ladearam-n-o, para fuzilar as que saíssem. 

Eu fui dos que penetraram no viveiro, mas com 
isso apenas ganhei o vel-as de mais perto. Quasi me 
deram com as azas na cara, e não atirei a uma unica: 
eram tão juntos os pinheiritos, que não podia ser 
senhor da espingarda! E se o solatium est miseris 
socios habere... é verdadeiro, eu fiquei consolado, 
porque de toda aquella abastança de caça, só uma 
deu entrada no registro! Geral o azar — os atira-. 
dores dos flancos não foram mais felizes do que os 
do centro! 

Mas, como quem porfia mata caça, tivemos de- 
pois ensejo de reparar o desaire. Bem entrincheira- 
das alli onde estavam, não encontraram as mesmas 
defezas no chão aberto do velho pinhal, a que se 
acolheram, no matto rocado, nas ruas, largas como 
avenidas; e então ahi, aventadas de longe pelos cães 
—optimos perdigueiros —a descoberto no chão e no 
ar, deram-nos a desforra com toda a bisarria. Oito 
gallinholas nos acompanharam até Benavente, e dahi 
vieram com as outras para Lisboa, pagando-nos a 
visita. Encantadas comnosco, se não vinham pelo 
beico, traziamol-as pelo bico, que nellas é o mesmo. 


152 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


Mas o pinheiral novo, o viveiro, esse nunca mais 
o esqueci. Ficou-me nos olhos; ainda o estou vendo! 


A nossa excursão do dia seguinte — uma quarta 
feira, se não me engano — e a ultima, foi um mosaico 
de paizagens: corremos vinhas, charnecas, e pi- 
nhaes. E com os terrenos tambem variaram as es- 
pecies — atirâmos a codornizes, tarambolas, perdi- 
zes, lebres e gallinholas. 

Estes nomes, em rima, davam para uma quadra 
— famosa se o nosso companheiro e amigo Bulhão 
Pato a fizesse — e ainda sobejavam as lebres, que 
nas febres de Benavente tinham um terrivel con- 
soante! Nós aproveitâmos tudo, menos a quadra que 
não se fez, e as febres, que tambem lá ficaram. E, 
para despedida, esta caçada foi uma das melhores, 
e della rei o nosso amphitryão e amigo José Qua- 
resma, que na volta foi enthusiasticamente procla- 
mado e saudado, à mesa, com um eloquente impro- 
viso de Bulhão Pato. 

Comecámos pelas lebres. Acompanhava-nos um 
caçador da terra, que era nisto pratico, experimen- 
tado. Conhecia-lhes bem os habitos, e de longe as 
lobrigava na cama. Manuel Coutinho tambem tinha 
bom olho para as desencantar. E parece-me que 
gostava mais d'ellas que das gallinholas. A caça d'es- 
tas é mais artistica, a outra mais cosinheira. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 155 


Saimos mais cedo da villa, e, apesar de irmos a 
cavallo, não tencionavamos correl-as: nenhum de 
nós — com excepção de Bulhão Pato e Manuel Cou- 
tinho — era corredor de lebres. A's nove da manhã 
tinhamos nas sacas tres saltadoras. Uma foi morta 
à minha vista. 

Caminhavamos pela orla d'um pinhal, quando Ma- 
nuel Coutinho me fez signal de parar, e, apontando 
na direcção dum pinheiro, que ficava na frente de 
Bulhão Pato, disse-me : 

* — Vê: Alh está uma na cama. 

Eu olhei, e nada vi. 

— Não vê assim um vaporzinho, ao de cima da 
terra *? insistiu elle. 

Baixei-me, para vêr melhor ao rez do chão, mas 
debalde. 

— Vamos de vagar, e faca signal ao sr. Pato para 
elle não avançar. E rodeamos, para lhe cortar a re- 
tirada do pinhal. 

Assim se fez. Mais perto é que eu percebi o tal 
nevoeiro, que elle de longe descobria. A lebre com 
o frio da manhã estava entorpecida, e com pouca 
vontade de abandonar o ninho. Deixou-nos approxi- 
mar a tiro, e só então é que levantou; mas queria-se 
desforrar da demora e salvar a pelle, porque partiu, 
como uma bala, em direcção ao pinhal. Na carreira 
cega que levava, ia topar com Bulhão Pato. Démos-lhe 
um grito, e ou por isso ou porque o viu, hesitou, e 
voltava já para fóra, quando foi alcançada pelo tiro 
certeiro, que elle lhe disparou. Uma cabriola no ar, 
e ficou-se: estava morta. Era uma maçarica. As ou- 


TI4 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


tras duas cairam aos tiros do nosso amigo Qua- 
resma e de Manuel Coutinho. | 

O capitulo das lebres na cama estava fechado. 

Passámos ás vinhas, e ahi achámos codornizes 
bastantes para dobrar, e até triplicar os tiros ! As ce- 
pas desparradas não as defendiam, e ellas eram prom- 
ptas no levantar. Uma bonita caçada, que durou 
emquanto tivemos vinha a percorrer. 

— Continuam aqui a andar perdizes — observou 
o guia, quando chegámos ao extremo, onde come- 
cava a charneca. 

— Pois vamos a ellas — disse o nosso chefe. Ainda 
que ellas aqui estão no seu castello... 

É effectivamente estavam. Eram más de levantar, 
más de atirar, porque já corria uma brisa um nadi- 
nha forte, e más de achar — ou mortas ou feridas — 
pela espessura e fortaleza do esteval. 

Aos cães cheirava-lhes, mas as estevas e as sil- 
vas castigavam-n-os, e elles largavam a todo o ins- 
tante o rastro, para procurarem melhor trilho, e com 
estas manobras davam tempo ás perdizes, que se 
iam refugiando no mais cerrado do mattagal. Mas na 
primeira investida, à entrada, ainda se alcançaram 
algumas. 

Uma dellas, um tiro largo do meu amigo Qua- 
resma cortou-lhe o vôo; mas, ferida d'aza, caiu no 
matto, e lá ficaria, se elle não lhe tivesse marcado 
bem a pancada, e se as finas ventas da sua Pomba 
não lhe tivessem seguido, como á vista, a peúgada. 
A charneca era declive, e ella não corria. voava, 
porque para aquelle lado as estevas iam rareando. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 155 


Sentindo-se perseguida de perto, ia aos saltos. Fi- 
nalmente a cadella alcancou-a. Era um vigoroso per- 
digão, com tres esporões, que já ouvira fogo. Uma 
das pernas tinha vestígios de fractura antiga, que a 
natureza concertara. 

Por tudo isto, e por ser um bello exemplar, trou- 
xe-o eu para Lisboa, e mandei-o embalsamar. 

Eu não sei se é a lua ou as estrellas quem influe 
no nascimento das perdizes: a estrella d'aquelle 
perdigão era funesta. Ferido primeiro, agora morto, 
veiu, finalmente, a desapparecer queimado, annos 
depois, no incendio da minha casa! Era o que lhe 
faltava ! 

Perdigão perdeu a penna: 
não ha mal que lhe não venha... 


Em frente de nós principiavam os pinhaes. Eram 
—-se bem me recordo — as Sesmarias de Sua Al- 
tera. Dos mais abertos e de melhor piso, que tenho 
encontrado. 

lamos em linha, e os cães cruzavam o terreno 
em todas as direcções. O Djalma e a Saida —os 
meus perdigueiros — pareciam ter pegado em ras- 
tro, quando de repente se me furtaram á vista, 
numa quebrada do terreno. Ia-os eu seguindo, eis 
que vejo surgir, em frente de mim, uma gallinhola. 
Tinham-n-a elles levantado, e vinha tão proxima e 


156 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


baixa, que era um mau tiro. Vendo-me, obliquou à 
direita, indo passar para a nossa retaguarda, pela mi- 
nha esquerda, entre mim e Manoel Coutinho. Con- 
tinuava a ser um tiro difficil e arriscado, porém eu 
tinha-a já na mira... Mas o meu companheiro, que 
momentos antes eu acabava de ver, desapparece- 
Rea 

Olhei, por cima da espingarda, para todos os la- 
dos... Nem sombras de Manoel Coutinho !... E 
a gallinhola ia voando, internando-se no pinhal... 
É eu não a queria perder, nem chumbal-o a elle. 
“Eu não o via, mas elle devia estar a poucos passos 
de mim 14 

O leitor imagina bem os transes daqueles rapi- 
dos momentos. Eu fóra-me torcendo, girando sobre 
mim, para acompanhar a ave... Finalmente, quando 
a gallinhola ia já muito para traz de nós, completa- 
mente fóra da linha dos caçadores, atirei-lhe. Era 
quasi um tiro perdido. Apezar d'isso a minha Scott, 
e o chumbo, fizeram a sua obrigação : caiu redonda ! 

Ella no chão, e Manoel Coutinho a sair detraz 
d'uma machoca de pinheiros novos! Encobriam-n-o 
completamente, mas' não o defenderiam, se eu des- 
fechasse naquella direcção. Quando ella passou alli, 
é que estava a bom alcance, e se eu aproveitasse 
o ensejo — o que todos fariam, com raras exce- 
pcões — o pobre Manoel Coutinho seria um homem 
morto, ou, pelo menos, estropeado! A minha espin- 
garda era nova e muito forte, e os cartuchos esta- 
vam carregados por mim com polvora ingleza e 
chumbo n.º 5! Uma carga de respeito ! 


CAÇADAS PORTUGUEZAS l Em 


— Bravo ! Bello tiro, e que espingarda ! 

— Obrigado, Manoel Coutinho. Mas o que nós 
ambos tivemos foi oração boa! E expliquei-lhe o 
caso, para elle perceber bem as minhas palavras. 

— De que eu escapei! Como ás vezes se pode 
mandar uma pessoa para os anjinhos! Boa ora- 
cão!... Bom companheiro é que eu tive! 

Aqui o mais contente dos dois fui eu. Eu é que 
vi bem, e senti o perigo que elle correu. 

Com este episodio, que ia sendo tragico, termi- 
naram estas cacadas em Benavente. De tudo, e 
principalmente dos excellentes e amabilissimos com- 
panheiros. que alli encontrei, e dos quaes alguns já 
são mortos, conservo gratissimas recordações. 


Ás duas horas da madrugada de -14 de dezembro, 
despediamo-nos, Bulhão Pato e eu, do nosso bom 
amigo José Quaresma, que tão bisarramente nos 
recebera e hospedara, e nos veiu acompanhar. 

O tempo estava sereno, mas o frio era cortante. 
Duas horas da noite. No barco da valla havia grossos 
encerados e fogareiros accesos, e nós vinhamos res- 
guardados com encorpados gabões: eu trazia muitos 
casacos e grossas meias de campino, e polainas de 
coiro fortes e sapatos de tres sollas, e cobrira-me 
com a minha manta de Almodovar, que pesava como 
o peccado... Pois bem, apesar do nosso grosso e 


128 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


abundante equipamento, nunca senti tal frio, e nessa 
noite memoravel fiquei fazendo idéa perfeita da ver- 
dade desta phrase: o frio chegou-me aos ossos — 
que, ás vezes, a gente ouve, e que nos parece exa- 
gerada! Em vão me revolvia e approximava do foga- 
reiro, e aconchegava a roupa: só o calor do sol da 
manhã é que havia de pôr termo ás horrorosas dôó- 
res, que sentia em todo o corpo! Finalmente elle 
rompeu, e acabou com o meu martyrio! Abençoado 
astro ! 

Teve outr'ora o pinhal da Azambuja terrivel fama 
pelos seus salteadores. Os bandidos foram-se, mas 
ainda lá ficou aquelle ladrão do frio, que nos tor- 
tura e nos rouba o somno! Contra os outros re- 
corriam os medrosos ás pernas dum bom cavallo, 
os valentes aos canos das suas espingardas; mas 
contra este herdeiro dos antigos sicarios, contra o 
frio, só nos pode valer o sol! 

É ainda asssm ha de ser, quando as nuvens não 
estiverem na opposição ! 


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Ni DE esse paes na 9 esa - ea ea = a 


Sa ROS RX RX XxX » BR ES 


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pre E TEfEro SA ANTAS A 


Z 


Uma conspiração contra a polvora 


PILANTASIA 


” 


a tempos notava-se uma concorrencia extraor- 
dinaria de individuos de todas as classes da 
sociedade ao local onde, em Lisboa, se ven- 
dem os productos da fabrica de Barcarena, e os cu- 
riosos observadores já reparavam com extranheza 
nas physionomias sombrias de uns, zangadas de ou- 
tros, desapontadas de todos. A causa d'estas varia- 
das expressões era só uma, mas terrivel e esmaga- 
dora —não havia polvora ! 
A'cada nova interrogação de um recem-chegado, 
o depositario, o guarda do precioso pó, respondia fria 
e invariavelmente : 
— Não ha nenhuma. 
— Mas... . nenhuma! mesmo nenhuma?! replicava 
o freguez, attonito e ancioso. 


100 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


-— Nenhuma — repetia o funccionario, como o 
echo. j 

A noticia espalhou-se, chegou aos jornaes, e d'ahi 
a dias os periodicos de todas as côres pediam isto, 
aquillo e aquel"outro para o paiz e para elles — e tam- 
bem polvora para os caçadores. 

D'ahi a mais dias eram attendidos, in partibus, e 
o governo havia por bem conceder-lhes isto, aquiilo 
e aquell outro, mas a respeito de polvora, nem uma 
palavra — quero dizer, nem uma caixinha! 

O caso principiava-a intrigar-nos. Dirigimo-nos ao 
deposito de Alcantara, e pedimos polvora. Obrtive- 
mos a mesma laconica resposta : 

-— Não ha nenhuma. 

Empregámos todos os recursos da nossa eloquen- 
cia, desde a voz commovida até ás lagrimas, mas 
foram baldados os nossos esforços : nem Demosthe- 
nes seria bem succedido nesta empreza! Não havia 
nem um grão de polvora nos depositos do estado ! 

Saimos d'alh tristes e meditabundos, já amaldi- 
coando o monopolio, que nos privava da materia 
prima de que precisavamos, já suspeitando vaga- 
mente a existencia de alguma temerosa conspiração, 
preparada de longa data, e que, para os seus tene- 
brosos fins, fosse, a pouco e pouco, comprando toda 
a polvora que apparecia à venda nos depositos da 
fabrica de Barcarena. 

Recolhendo-nos a casa desalentados, achámos a 
visita de um nosso velho amigo, caçador, que vive 
no campo, nos suburbios da capital, e que nos deu 
o grande prazer de confirmar com a sua narração a 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 161 


a existencia da trama suspeitada, que hoje para nós 
é já uma certeza. 

Ha dias, estando elle a armar alguns laços para 
apanhar uns coelhos, que lhe andavam na horta co- 
lhendo as tenras primicias das suas murcianas, e 
jazendo tudo no mais profundo silencio, sentiu um 
pequeno rumor por entre as leiras do couval... A mão 
prompta estendeu-se para a espingarda, fiel compa- 
nheira, mas parou no seu movimento, quando o ca- 
cador ouviu um leve sussurro, como o de vozes fa- 
lando mansinho, quasi em segredo. Poz-se á escuta, 
embora não visse ninguem, e surprehendeu o se- 
guinte dialogo : 

— Então — sempre foste ? 

— Fui. 

— E que tal? 

— Bem. O ministro recebeu-nos perfeitamente, e 
-affianço-te que temos o. negocio resolvido a nosso 
favor, disse a segunda voz, com tom emphatico e 
importante. Mas, continuou ella, vejo que tens curio- 
sidade de saber como se passou tudo, o que lhe dis- 
semos, a resposta d'elle, etc. 

— Sim, muita curiosidade; todo eu sou orelhas. 

— Bem se vê. T'u não estiveste nunca em Lisboa ? 

— Não, nem tenho vontade. 

— Comprehende-se por um lado... pelo da co- 
sinha. Mas nós entrámos para a sala, e então cor- 
reu tudo ás mil maravilhas. Emquanto atravessei a 
cidade com os meus companheiros, vi que eramos 
alli muito estimados e conhecidos, e que, até mesmo 


depois de mortos, ainda nos procuravam; chegando 
a! 


162 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


o Interesse que mostram os habitantes, pelas nossas 
pessoas, ao ponto de darem muito bom dinheiro 
pelos nossos cadaveres, ás vezes já pôdres! Vê lá 
tu aonde pode chegar a paixão ! Mas vâmos ao caso. 
Fômos introduzidos no salão de s. ex.?, o grande 
ministro da guerra, e sempre te digo que ficámos 
um pouco encolhidos quando elle, levantando os olhos 
de cima de uns papeis, nos perguntou que negocio 
da publica administração nos levava alli. 

— Elle falou na publica administração ? Hum! 

-— Falou, sim, e nós, pequeninos... e com uma 
vontade de bater canella, que nem tu imaginas ! Mas 
cá em baixo, à porta, estava um malvado com uma 
espingarda... e então nós chegámo-nos uns para 
os outros, e o João Coelho, que era um dos da 
commissão, tomou a palavra, e fez um magnifico 
discurso, que produziu sobre o ministro grande 
effeito, porque o vimos todos cruzar primeiro as 
mãos, depois encostar-se para traz na cadeira, de- 
pois fechar os olhos, e ficar a... pensar. 

— A pensar, ou a dormir ? 

— A dormir?! Isso sim. Quem tem cuidados não 
dorme. Á pensar — digo-t'o eu. 

— Então o João Coelho falou bem ? 

— Se falou! Aquilo, tu sabes, é já de familia. 
São todos espertos. Vê lá tu, o Latino, o que está 
na Academia de Lisboa e que sabe tudo, ainda é 
parente d'este, eo que escreve no Diario de Noti- 
cias tambem; por isso o que elle disse fez um effei- 
tarrão! E depois apresenteu-se bem, ia bem enfar- 
pellado, e como elle é da quinta do nosso regedor, 


mal ml 


( 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 16 


o ministro prestou-lhe toda a attenção. Já eram co- 
nhecidos lá da politica. .. 

— Então, em summa, o Coelho disse bocadinhos 
de oiro, hein ? 

— Se disse! Falou em Richelieu, em Colbert, no 
marquez de Pombal, e todos estes nomes eram 
apontados ao amor proprio de s. ex.*, e terminou 
invocando tambem o nome do Thomaz Ribeiro, 
que já tinha dedicado um canto da Delphina do 
Mal á defesa dos direitos da nossa familia. “Todo 
este discurso fez um tal effeito nos deputados e che- 
fes das repartições, que compunham a côrte do mi- 
nistro, que estavam todos, de bôca aberta, a olhar 
para o João, emquanto elle falou ! 

— Isso nelles é costume velho. Em nos vendo, 

abrem a bôca sempre, segundo me teem dito — 
que eu não vi ainda, nem tenho vontade. 
- — Depois do João terminar falou o Domingos 
Pêga—que tem bem bom bico, como mostrou naquel- 
las eleições em que desappareceram as actas. Tu 
sabes que foi elle que as abocou, e não houve mais 
pôr-lhes o olho em cima, e quem ganhou foi o de- 
putado do governo!... O Pêga, como esperto, refe- 
riu-se a este feito, e com graça, de fórma que agra-' 
dou muito o que disse, e o auditorio applaudiu esta 
parte do seu discurso. 

Seguiu-se o Antonio Lebre. Apenas elle se poz 
em pé, manifestando a elegancia da sua figura, e a 
elasticidade dos membros locomotores, como diz o 
primo Eduardo —s. ex.? foi todo olhos. Lebre, ape- 
sar dos seus cincoenta— a edade não faz ao caso — 


164 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


ainda tem umas pernas magnificas : tambem é de 
familia, e ahi, no Riba-Tejo, não havia quem lhe 
ganhasse na carreira! — Hoje ainda se mexe bem. 
Com a consciencia do seu merito discorreu larga- 
mente sobre a conveniencia que haveria em o go- 
verno ter á sua disposição um individuo como elle, 
e foi esplendido no momento em que, pintando 
com vivas côres as grandes luctas politicas, disse ao 
ministro : — «Chegado o momento solemne em que 
o paiz tem de manifestar a sua opinião, livre de to- 
das as coacções, como é proprio d'um povo civili- 
sado e liberal como o nosso, v. ex.2 pode ter a cer- 
teza de que não trepidaremos deante da execução das 
suas ordens, e que galopinaremos — sim, excellentis- 
simo senhor, galopinaremos. por montes e valles, a 
despeito de todos os obstaculos d'uma opposição, 
facciosa, ambiciosa do poder e ingrata, que não 
quer reconhecer os altos pensamentos do grande mi- 
nistro, que dirige os negocios da publica adminis- 
tração !» 

— Admiravel, é verdade. Esplendido ! Cem vezes 
esplendido ! 

— A cousa não ficou aqui. O ministro já se mos- 
“trava bem disposto, mas não dissera ainda nada po- 
sitivo. .. Saiu então d'um canto o Rapozo, e, adean- 
tando-se para o meio da sala, com aquelle ar que 
nós lhe conhecemos, principiou a falar. 

— A proposito, ha muito que elle não frequenta 
cá o sitio!... 

— Bem sei. Elle teve ahi uma questão com o guar- 
da, por causa d'umas gallinhas, que lhe desappare- 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 105 


ram. O guarda encontrou-o, pegaram-se, e o Ra- 
pozo ia apanhando uma.carga de chumbo! Mas olha, 
mano Coelho, que elle tem graça ás pilhas, isso é 
verdade. Sempre é um partidista! Elle largou umas 
poucas de piadas ao ministro, mas tão encobertas 
que quasi se não sentiam! Falou-lhe no seu. ante- 
passado Rodrigo e na primeira Regeneração, a gran- 
de, e de tal maneira discorreu que, sem faltar á ver- 
dade, louvou uma época, e deixou entrever uma cen- 
sura para a outra, isto recheiado de tantas anecdo- 
tas chistosas e de ditos tão picantes, que o Barjona, 
que estava presente, ria a bom rir, e queria já levar 
d'alli o Rapozo para o Gremio! 

Findara a audiencia. S. ex.º levantou-se, affagou 
o bigode, e, com o seu mais magnifico sorriso, des- 
pediu-nos, dizendo-nos que faria tudo o que nós, com 
tanta justiça, pediamos, e que fossemos em paz para 
os nossos campos. —E sublinhou estas ultimas pa- 
lavras. 

— Bravo! Vou já levar a noticia á familia. Adeus. 

— Adeus. 

Os interlocutores sumiram-se por entre as leiras, 
e o nosso amigo, depois de os procurar em vão para 
ter mais pormenores, retirou-se tambem, recapitu- 
lando o que escutara, e parecendo-lhe resolvida a 
questão, pelo que acabara de ouvir. 

As familias dos Coelhos, Lebres, Pêgas, Rapozos, 
e provavelmente mais algumas, tinham eleito uma 
commissão, que fôra a Lisboa procurar o sr. mi- 
nistro da guerra, oferecer-lhe os seus serviços poli- 
ticos, e pedir-lhe uma coisa.... 


100 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


Ora este pedido devia ser da maxima importancia 
para ellas, uma vez que os seus mais ilustres repre- 
sentantes tinham arrostado os perigos d'uma grande 
viagem!... Era, portanto, uma questão de vida ou de 
morte, cuja resolução dependia da vontade - do mi- 
nistro. — Logo era a questão da polvora. 

E aqui está o motivo porque em vão a procura- 
vam todos os caçadores ! 


1883. 


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Vindimas e perdizes 
ARRUDA 


A Evaristo Monteiro Ramalho 


ETEMBRO é O mez das vindimas e das caçadas. 

As uvas e as perdizes crescem, .ao lado umas 

das outras, nos abrigos da encosta, e o sol, que 
doira e purpureia os rubros cachos, meio occultos 
pelas largas folhas verdes, é o mesmo ardente e es- 
plendoroso artista, que illumina e matiza a brilhante 
plumagem d'aquellas formosas aves. 

Quando chega esta feliz quadra. do anno opera- 
se uma revolução na vida dos campos. As collinas 
verdejantes e os oiteiros, até alli ermos e silenciosos, 
vêem-se de repente invadidos por uma multidão irre- 
quieta e rumorosa. 

Os maltezes beirões e as suas robustas compa- 
nheiras, com a tez requeimada pelos soes do estio 
nas ceifas do Alemtejo, as cabeças cobertas por 
largos chapéus de grandes abas, assentando sobre 


168 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


os pittorescos lenços de côres “garridas, curvam-se 
sobre as cepas avergadas, e alliviam-lhes as fortes 
varas dos ponderosos e já maduros cachos. Entre 
a vinha e o lagar cruzam-se os cestos, uns que vol- 
tam, e outros que vam — cheios, a tressuar e a ge- 
mer, como se a carga lhes pesasse. 

A poesia vem aligeirar essas horas de trabalho. 
Os cantares ao desafio, na redondilha peninsular, 
tão facil e tão harmoniosa, entoados pela voz alta e 
argentina das raparigas, a que respondem, em tom 
mais grave, os moços vindimadores, dam um singular 
encanto a esta scena, e transformam quasi em ale- 
gre festa, e, ás vezes, em poetico torneio, aquella 
dura faina, se entre elles se acha alguma cantadeira 
celebre, ou o travesso Cupido alli vem armar os 
seus arraiaes, e disparar os terriveis dardos contra 
esses agrestes, mas sensiveis corações. 

Além, na adega, o quadro é outro. As grandes 
portas encarnadas, abertas de par em par, deixam 
ver as renques dobradas dos vastos toneis, desta- 
cando sobre a alvura das paredes altas e nuas. 
Os lagareiros, descalços e arregacados, vam e vem,, 
preoccupados com es trabalhos preparatorios do fa- 
brico, e com o ar de quem tem a consciencia das 
importantes funcções que exerce. 

No meio d'elles o lavrador, com o seu grosso 
jaquetão abotoado, o chapéu sobre a orelha, uma 
vara na mão, attende a tudo como um general no 
calor da refrega: dirige os trabalhos, distribue as ta- 
refas, dá ordens ao caseiro, estimula os preguiço- 
sos, galhofa com as raparigas; e, recordando-se com 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 169 


as mais velhas d'um passado saudoso, vê o presente 
a sorrir-lhe nos amplos toneis que esperam o espu- 
moso licor, nos compradores que vam aflluir, e so- 
bretudo na alegria das creanças que o rodeiam, e 
dentre as quaes se destacam os rostos angelicos e 
os olhares, fagueiros e cheios de promessas, dos fi- 
lhos do seu amor! 


E rapida esta phase da vida agricola. cAdieu, pa- 
mers, vendanges sont faites — dizem os francezes. Vi- 
nhas, cestos e lagares, tudo volta à antiga quietação 
e isolamento, apenas acabam as vindimas. Ermam- 
se de novo os campos, já despojados das suas rique- 
zas; os bandos das perdizes expatriadas tornam a 
ser os unicos habitadores d'aquelles logares, ainda 
ha pouco tão cheios de bulicio, e o canto do perdi- 
são, reclamando as timidas companheiras, é a unica 
voz, que a espaços quebra o silencio d'aquellas soli- 
dões. .. 

Esta voz, que parece clamar no deserto, é ou- 
vida. D'entre os mattos e as penedias respondem- 
lhe outras; e, soltando o estridulo e largo vôo, eis 
as foragidas outra vez de volta ao patrio torrão, a 
“reconhecerem o sitio, e como que a tomarem de novo 
posse dos seus antigos dominios. 

E sedentaria a perdiz — não emigra como a poe- 
tica andorinha, a sombria gallinhola, a elegante e 
esquiva narceja. Activa e vigorosa, a formosa galli- 


170 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


nacea ama a terra em que nasceu: ahi vive e ahi 
morre. 

Eil-a, pois, a percorrer em todas as direcções, por 
entre as rugosas cepas, os seus trilhos conhecidos 
e predilectos. Os movimentos são rapidos; aqui e 
alli vai colhendo, ás bicadas e aos saltos, os fructos 
esquecidos ou despresados pela mão do homem. São 
esses fructos, é a uva, quem dá á sua carne o deli- 
cioso perfume, tão grato ao paladar, e que tanto a 
distingue das suas irmãs da charneca, menos favo- 
recidas da fortuna. 

Paz ephémera, fortuna pouco duradoira, é essa! 
Gosa a liberdade e os seus encantos, interessante 
ave: despede-te d'essas vinhas, tão banhadas pelo 
sol creador— dos abrigos ensombrados, que tu pro- 
curavas para as séstas do estio — da fonte escondida, 
rumorosa e sempre fresca do valle, onde te desse- 
dentavas — de tudo isso, que era teu, e que domi- 
navas do alto dos montes, castellos roqueiros, que 
-Julgavas inaccessiveis! Diz adeus a tudo e foge! Os 
teus dias estão contados. 

Neste theatro, onde ha pouco se representava uma 
bucolica virgiliana, toda rescendente dos suaves e 
penetrantes aromas do campo, vam entrar novos per- 
sonagens, succeder-se novas scenas, e tu serás a vi- 
ctima escolhida da nova e fatal tragedia ! Quem vem 
acordar agora os echos dos montes e animar esta 
paizagem, não é o côro alegre dos camponezes — 
ruidoso mas pacífico hymno do trabalho e do amor 
— é o estrondear da fuzilaria, os latidos das mati- 
lhas, os gritos dos caçadores! 


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Uma tragedia na caça 


de 184... O sol doirava a crista da serra, uma 

aragem fresca do norte corria pelos campos, 
ciciava nas hervas, e agitava os arbustos, espalhando 
no ar os mil aromas das florinhas occultas na espes- 
sura dos mattos e silvedos. Na atmosphera azul fer- 
rete, deserta de nuvens, ouvia-se o canto matinal da 
calhandra, pairando invisivel, subindo e descendo, 
soltando as volatas e gorgeios da sua alegre canção. 
“Tudo annunciava um dia esplendido e uma optima 
caçada. 

Dava cinco horas um sino ao longe. O vasto pa- 
teo da bella vivenda d'um dos mais ricos proprieta- 
rios de T... tinha-se a pouco e pouco povoado de 
caçadores e de creados, e por entre elles agitavam- 
se, insoffridos, dez formosos perdigueiros, que ora 


Rica a manhã d'um formoso dia do outono 


172 Ê CAÇADAS PORTUGUEZAS 


investiam com o portão, como se o quizessem levar 
de assalto, ora pulavam em volta dos donos, la- 
drando, como para os despertar d'aquella aborre- 
cida immobilidade. 

Eram esses bellos animaes, quasi todos, pointers 
inglezes, então ainda pouco conhecidos em Portu- 
gal. Pernaltos, elegantes e ardentes, tinham o craneo 
arredondado e proeminente, olhos grandes, cheios 
de fogo, ventas largas e humidas, a bôca sêca, o 
peito vasto, rins fortes e arqueados como os do 
galgo, a cauda fina e curta, as patas pequenas e 
nervosas, toda a musculatura desenvolvida, e dese- 
nhando-se vigorosamente debaixo da pelagem, finis- 
sima e rara. 

Raça fidalga e exotica, producto do hound e do 
navarro hespanhol— old spanish dog -— denunciavam 
nas qualidades a sua dupla origem. 

Esbeltos, rapidos nos movimentos, distanceando-se 
do caçador, e explorando em cinco minutos uma 
area em que outro perdigueiro gastaria meia hora, 
estes cães tinham herdado a celeridade do galgo cor- 
redor, o antigo companheiro, o lebréu dos ricos 
senhores dos tempos feudaes, porém no tirar a ven- 
tos a caça, fazendo-a a distancias prodigiosas, na 
certeza das mostras, na firmeza do parar, mostra- 
vam possuir as solidas qualidades do antigo perdi- 
gueiro navarro, que em nada tinham desmerecido 
com o cruzamento, antes pareciam ter requintado 
nas suas perfeições. 

Estava-se então no mais acceso da batalha entre 
os antigos e os modernos. Uns, os velhos amadores, 


o 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 17 


juravam ainda pelo navarro, os novos eram todos 
pelo pointer. Quantos. duellos, quantas victorias, 
quantas derrotas: 

O pointer, aventureiro desconhecido, invadira a 
peninsula, pela primeira vez; na'comitiva dos officiaes 
inglezes de Beresford e de Wellesley, e illustrou-se 
com altos feitos nas planicies e encostas de Torres 
Vedras! Se não trazia espada, elle proprio era uma 
espada, tão flexivel e brilhante como uma folha de 
Toledo, e o seu nariz podia competir em alcance e 
certeza com os mais destros e experimentados rifles 
dos fuzileiros escocezes de Spencer e de Picton! 

Como um meteoro este bello e veloz explorador 
passou e desappareceu, mas não ficou esquecido 
na memoria dos nossos caçadores; e alguns, mais 
intelligentes, procuraram conservar nos seus canis 
uma parcella do sangue generoso, que tanto os ma- 
ravilhara. 

Tempo depois, na epocha da nossa historia, tor- 
nam a apparecer estes heroes no campo das suas 
proezas, e ahi travam renhida peleja com os re- 
presentantes do passado, que elles pretendiam .des- 
thronar. O velho espirito nacional oppoz-lhes o na- 
varro, cão de porte severo e magestoso, espadaudo 
e possante, mas vagaroso e demorado nos movimen- 
tos — animal distincto pelas longas orelhas, que au- 
gmentavam as avantajadas dimensões da sua enorme 
cabeça. Grave e comedido, digno de figurar nas 
caçadas dos nobres e desembargadores do tempo 
d'elrei D. José e de D. Maria I, havia entre elle e 
o cão inglez a mesma differença que entre um poe- 


174 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


ma de Garrett e uma ode de Antonio Diniz — um 
mundo! i 

A caçada que tentamos descrever, foi mais um 
episodio d'essa longa campanha, mais um lance do 
encarniçado dueilo entre as duas raças, que só de- 
via terminar pela derrota e completa anniquilação 
dos fieis companheiros dos nossos avós. Hoje o na- 
parro portuguez pertence á historia. “Requiescat im 
pace. 


O estampido séco dos fogachos annunciara a ul- 
tima scena d'esse primeiro acto, preparatorio obri- 
gado de todas as antigas caçadas. O portão de fer- 
ro, que dava ingresso para o pateo, abriu-se de par 
em par, e toda a cohorte venatoria golfou impetuosa 
para o campo, e estendeu-se logo em linha de ati- 
radores, com um garbo e firmeza verdadeiramente 
marciaes. 

Detraz d'elles ouviu-se outra vez o ranger dos 
gonzos, e o som dos fechos, que José Domingos, o 
velho caseiro, corria lentamente, ao mesmo tempo 
que ia seguindo com os olhos pasmados a ala dos 
brilhantes caçadores. 

José Domingos, o tio Domingos, como lhe cha- 
mavam no sitio, tinha visto muita coisa na sua longa 
vida de guarda de vinhas e de caseiro d'aquella quinta, 
mas curiosos assim é que elle nunca vira. O bom 
do homem estava boguiaberto no pateo, quando 


Sa! 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 1”; 


os hospedes do seu patrão vinham descendo dos 
quartos, já equipados e armados, e mirava e remi- 
rava, dos pés até á cabeça, os trajos variados, ricos 
e pittorescos dos forasteiros. —Uma hora depois 
ainda estavam presentes aos seus olhos as altas bo- 
tas á monteira, os calções de veludo azul ou folha 
sêca, os coletes á franceza, as caçcadeiras curtas 
com os seus grandes botões de metal, onde se viam 
em relevo cães, veados e javalis, os chapéus baixos 
de feltro e de castor, as vistosas rêdes, os cintos de 
coiro inglez, e sobretudo — o que mais o deslum- 
brara—as magnificas espingardas de: dois canos, 
cinzeladas e doiradas. 

Quando o tio Domingos voltou a si do extase em 
que ficara, cerrou tambem o postigo, e, levando as 
mãos á cabeça, como para conchegar o chapéu, 
gesto que lhe era familiar, e que correspondia nelle 
a alguma profunda meditação, atravessou lentamente 
o pateo, e deu entrada na vasta cosinha, onde cre- 
pitavam, na lareira, grossos troncos de azinho. 

— Ora então, guarde-o Deus, mestre Antonio — 
disse elle, dirigindo-se a um vulto que se destacava no 
fundo vermelho da chaminé, e que era nada menos 
que o cosinheiro, individuo de grandes presumpções 
culinarias, e conhecido como um Harpagão em dez 
leguas á volta. 

— Deus o guarde, tio Domingos. 

— Que me diz desta gente, sr. Antonio? Isto é 
de uma pessoa ficar assim, como quem diz... atto- 
lito! Como estes ainda cá não appareceram ne- 
nhuns. Não, como estes nenhuns ! 


176 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


— São alguns principes encobertos — respondeu o 
cosinheiro, que estava sempre em opposição com o 
seu interlocutor, apesar, ou por causa, d'umas fric- 
ções de marmeleiro, que o guarda lhe applicara certo 
dia em que elle se excedera. 

— Eu sei lá se são, ou deixam de ser... O que 
sei, e o que você não pode negar, nem ninguem, é 
a maneira porque cá o patrão os trata-—e que é 
gente muito rica tambem é certo. Basta olhar para 
elles. Eu cá não sou como certas pessoas: sempre 
gostei de vêr homens que sabem empregar o seu 
dinheiro. Sem fazer offensa a ninguem, cá nos sitios 
ninguem se apresenta assim. Elles, hontem á ceia, ó 
Joanna — continuou o caseiro, voltando-se para um 
canto da casa —olha que não falaram senão de es- 
pingardas inglezas de quarenta moedas, de setenta 
moedas! Eu sei lá!... Tambem, elle é verdade, 
quando a gente vê assim uma coisa mais fina — 
ainda que mal pareça, eu sempre digo—ha de ser 
extrangeira. Elle, d'antes, tambem cá se faziam ricas 
armas: eu, quando estive em Salvaterra, lá as vi. 
Eram do sr. D. Miguel. Que riqueza d'espingardas, 
e como aquillo punha, santo Deus! Era como se a 
gente pozesse o chumbo com a mão! 

Falando e gesticulando, o tio Domingos fôra-se 
chegando para a chaminé, e pegando num tição 
accendera o cigarro; depois, silencioso, principiou 
com o pau tostado a fazer pontos negros na parede 
caiada de fresco. 

— Ahi está você a sujar-me a parede! — vociferou, 
fóra de si, o Vatel sertanejo. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 177 


— Não é por sua conta—respondeu serenamente 
Domingos. Olhe, era assim juntinho, que as espin- 
gardas de Salvaterra punham o chumbo. 

— Ora esta! Para que havia agora de lhe dar! 
resmungou mestre Antonio. Se o patrão vê aquillo 
vae ahi tudo pelos ares! Volta-se contra mim, e eu 
é que tenho de o ouvir! —E, virando-se para o tio 
Domingos, que o olhava de soslaio e se lembrava do 
marmeleiro, continuou: Leve o diabo as espingar- 
das! Você diz que custam quarenta moedas! Então 
é um predio de casas, que cada um d'esses homens 
leva ás costas! Já é mania! São cinco. A quarenta 
moedas — faz duzentas moedas. Duzentas! E acha 
«que é bem empregado tanto dinheiro?! Hein! Pois 
eu não digo o mesmo. Aquillo fazia a sua fortuna 
ou a minha... e a elles de que lhes serve? Para 
“andarem por ahi aos tiros ás perdizes e aos coelhos? 
Para isso qualquer chanfalho velho serve—e mes- 
tre Antonio, cheio de avareza e d'inveja, apontava, 
com o labio inferior desdenhosamente descaído, 
para a velha caçadeira do caseiro, encostada a um 
«canto. — Aquillo, sr. Domingos, ás vezes é a per- 
dição dum homem. Olhe que é. 

— Jesus! Credo! Você sempre tem coisas, sr. An- 
tonio! Não diga tal: nem pensar nisso é bom! Longe 
vá o seu agoiro! Umas pessoas tão honradas e boas 
como aquellas!... Deus os livre! Amen. 

A voz dolente e cançada da tia Joanna, que rom- 
pera o silencio, provocada pelas sinistras reflexões 
«do cosinheiro, baixou logo de tom, e continuou quasi 
sumida as suas rezas, marcadas pelas contas escu- 


Lo 


178 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


ras e pólidas d'um velho rosario, que lhe passavam 
vagarosas por entre os dedos vermelhos, ossudos e 
lustrosos, curtidos pelas geadas de sessenta inver- 
nos. | 

Ninguem replicou á velha caseira, e tudo recaiu 
no mais profundo silencio. Apenas se ouvia o cre- 
pitar dos ramos verdes, que se torciam e queimavam 
na lareira. 

O tio Domingos pegou num podão, sobraçou a 
espingarda, e saiu em direcção da vinha, cantaro- 
lando uma cantiga. 

Mestre Antonio, depois de atiçar o lume, metti- 
das as mãos nos bolsos das calças, ficou quedo, 
encostado à hombreira da chaminé, e parecia, pelo 
vago do olhar e pela completa immobilidade do vulto, 
achar-se talvez entregue a profundas cogitações sobre 
a injustiça da fortuna, que a uns dava riquezas fabu- 
losas, e condemnava outros, como elle, á eterna 
manipulação do perú recheiado e do paio com ervi- 
lhas, numa cosinha provinciana! 


& 


Os terrenos, em que se fazia a caçada, eram do- 
brados e trabalhosos; as cepas altas, as varas for- 
tissimas, o chão revolto, o torrão duro como pedra. 
Para todos os lados só se viam collinas, montes e 
encostas cobertas de vinha, e apenas, de longe em 
longe, uma pequena chapada, revestida de matto, 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 170 


quebrava com o tom da urze a monotonia das gran- 
des massas de vinhedo. 

O sol subia e já queimava. Cessara completa- 
mente a aragem fria da madrugada, e a cigarra co- 
meçava a fazer ouvir o seu canto estridulo e sêco. 
“Nuvens de mosquitos e de melgas redemoinhavam 
no ar, que tremia no alto dos cabeços, e as linhas 
sinuosas dos montes recortavam-se com dureza so- 
bre o azul vigoroso dum ceu africano. De quando 
em quando corria uma brisa, mas era quente e aba- 
fadiça: o ar parecia ter passado por uma terra de 
fogo, e não trazia nenhum refrigerio aos pulmões 
escandecidos! 

Um dia de perdizes! 

Ao longe vêem-se reluzir os canos das espingar- 
das: são os nossos caçadores. Na frente da linha os 
cães exploram ao largo o terreno em todos os sen- 
tidos. Caminham todos para cá e em breve estarão 
comnosco. 

Duas nuvens de fumo, logo depois o som de dois 
tiros, dobrados sobre: uma banda que se levantou, 
abrindo como um leque, e as vozes: — Dá cá, Diana 
— Aqui, Sultão — annunciam-nos que mais duas 
perdizes vam entrar na saca d'um dos habeis atira- 
dores. Pararam todos e approximaram-se do que 
vinha na ponta esquerda, emquanto elle carregava a 
espingarda, com que-acabara de fazer um magnifico 
double. 

— Como sempre, doutor — disse um dos compa- 
nheiros, comprimentando cordealmente o feliz mor- 
tal, que dera mais uma prova da sua destreza. 


180 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


— Muito obrigado, estavam perto: assim fossem 
todas. 


João de Bettencourt — o doutor — que dirigia a 
caçada, por ser dos mais praticos nos sitios, era um 
homem entre trinta e seis a quarenta annos, de es- 
tatura mediana e reforçado, mas enxuto de carnes; 
uma barba preta e assetinada emmoldurava-lhe o 
rosto trigueiro, e o "bigode farto, mas cortado nas 
pontas, á moda da epocha, sombreava-lhe a bôca 
fina e bem fechada, indicio de grande firmeza: os 
olhos pretos e vivos eram cheios de vivacidade e ener- 
gia. Vestia elegantemente uma caçadeira clara com. 
botões de metal, um colete direito, calções de ve- 
ludo côr de vinho e grandes botas, que lhe desenha- 
vam as pernas, bem torneadas e musculosas. Trazia 
um chapeu de castor alvadio. Um duplo chumbeiro 
e um polvorinho de segurança ornavam-lhe a cintura ; 
e neste momento acabava de escorvar a magnifica 
espingarda de dois tiros, em cuja fita se lia o nome 
celebre de Joseph Manton, de Londres. 

Fóôra este, de todos os hospedes do seu patrão, o 
que mais attrahira as attenções e o olhar experimen- 
tado do nosso tio Domingos. Não lhe era extranha 
aquella figura. Avivando recordações, lembrava-se de 
ter visto o doutor em Salvaterra, que foi antigamente, 
no tempo das coutadas reaes, uma especie de aca- 
demia, onde se formaram os mais afamados caçado- 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 151 


res. Effectivamente o doutor, ao voltar de Coimbra, 
frequentara, no inverno. Salvaterra e Benavente, e 
conquistara os seus primeiros loiros, matando gali- 
nholas na Coutada velha e nas Sesmarias de Sua 
Alteza. 

João de Bettencourt era um dos mais afamados 
atiradores do seu tempo, e não havia reunião de 
sportsmen em que não se narrassem as admiraveis 
proezas dos seus cães e da sua espingarda, saída das 
officinas do grande arcabuzeiro inglez. As suas opi- 
niões, em materia de caça, eram um evangelho ; os 
seus tiros reputavam-se infalliveis; a admissão na 
roda que elle presidia equivalia a um titulo honori- 
fico; caçar na sua companhia era favor a poucos 
concedido; ser elogiado por elle, no synhedrio em 
que se reuniam os mestres, ainda era mais raro; e, 
sobretudo, o mais difficil de alcançar, o que os neo- 
phitos consideravam como a maxima honra, er: se 
presenteado por elle com um cão da sua apurauis- 
sima raça. 

Isto correspondia a uma*medalha de honra, no 
exercito dos caçadores ! 

O doutor mandava matar todos os filhos das suas 
perdigueiras; reservando apenas algum para si ou 
para um amigo muito intimo. Não era isto avareza, 
era amor á pureza da raça, que elle não queria vêr 
abastardada por caçadores menos escrupulosos. 

Um dia, sabendo que um dos seus creados não 
executara rigorosamente as suas ordens e vendera 
um cachorro, chamou-o ao seu quarto, tosou-o, e 
despediu-o! 


1582 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


* * 


Carregada a espingarda, todos os caçadores reto- 
maram os seus logares, e a ala avançou, silenciosa e 
lentamente, pela encosta. 

Os pointers brancos, malhados, uns de preto, ou- 
tros de castanho ou amarello, das raças de maior 
nomeada então, francezes de Saint-Germain, ou in- 
glezes, rapidos na busca, seguros nas mostras, eram o 
que nós chamamos, espadas de primeira ordem. 

Na frente do doutor trabalhavam admiravelmente 
dois soberbos perdigueiros brancos e castanhos, e 
elle seguia-os, attento aos seus movimentos, que de- 
nunciavam caça já proxima. Aos primeiros reparos 
d'um d'elles correra o outro e confirmara-os; se- 
guiram-se as mostras, e de fiada em fiada, até que 
chegaram á parada firme: a perdiz tinha ferrado. 
Os cães pareciam duas rochas. 

— Está á Diana — disse o doutor ao seu compa- 
nheiro da direita. Quer-lhe atirar ? 

— Muito obrigado, mas parece-me: que já se pas- 
sou e está ao cão. 

— Não, replicou o doutor, ha de saltar á cadella : 
ella pára mais longe, correm-lhe mais os ventos. 
Entra, Diana ! 

A cadella deu a pancada, e a perdiz levantou-se. 

Ouviu-se um tiro, e a ave, que tomara para a es- 
querda, subiu a prumo e foi cair dentro duma 
quinta, conhecida por ser o couto das perdizes d'aquel- 
les arredores. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 155 


— Bravo! Bello tiro! la encastellada ! Está morta ! 
— gritaram em toda a linha os caçadores. 

— Bom, disse o doutor, aquella está segura, foi 
cair em casa. Contrariame um pouco ir buscal-a, 
porque devemos aproveitar o dia, que está excel- 
lente; mas podem caçar esta vinha toda, e depois 
nos encontraremos lá em cima — e desceu a procu- 
rar a entrada da quinta. 

Pouco tinha elle andado, quando ouviu dois tiros : 
era uma banda, que se levantara aos companheiros, 
e que, depois de deixar uma perdiz, quebrara d'aza, 
fazendo tambem a sua revoada para dentro da 
quinta. Seguindo-a com os olhos, chegado ao por- 
tão, entrou desassombradamente, como costumava, 
e caminhou rapido em direcção á vinha, onde julgava 
encontrar a perdiz morta, disposto a atirar tam- 
bem ás outras; porém, apenas dera alguns passos 
naquella direcção, parou, fazendo um gesto de sur- 
preza. 

A' porta do caseiro, outr'ora sempre hospitaleira, 
e onde elle era o bemvindo, apparecera um homem 
de má catadura, que, em tom desabrido, o inter- 
pellou grosseiramente. Houvera all mudança re- 
cente no pessoal, e o novo caseiro era-lhe com- 
pletamente desconhecido: o seu aspecto brutal e 
provocante contrastava com o rosto agradavel e 
bondoso do seu antecessor. O doutor, emquanto 
attentava no rustico não lhe respondera, e o Cerbéro, 
que não era para gracas, largou o seu posto e velu 
direito ao intruso. 

—-- Quem é você? Não ouve? Ponha-se lá fóra! 


184 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


Foram as primeiras palavras que elle dirigiu ao 
doutor. 

João de Bettencourt, mediu o homem, e viu im- 
mediatamente que tinha deante de si um d'estes. 
guardas do campo, ás vezes assassinos façanhudos,. 
que alguns proprietarios ruraes encarregam da de- 
feza das suas quintas e herdades, sem se lembra- 
rem do odioso que isso acarreta sobre elles, e dos. 
grandes prejuizos e perigos, que d'ahi lhes podem 
advir. 

— Sou um caçador, e venho buscar uma perdiz, 
que caiu morta naquella vinha — replicou o doutor, 
como se não tivesse reparado nas palavras e no tom: 
insolentissimo do caseiro. 

— Qual perdiz, nem qual diabo! Você não me em- 
baça a mim! O que você quer é caçar as perdizes 
aqui da quinta, e então vem deitar-me lôas, a ver se 
eu caio. Olhe, isso era bom no tempo do outro : 
para cá não pega. — Rua! 

— Já lhe disse o que devia dizer. A perdiz está 
alli morta, e eu não saio d'aqui sem ella. Foi para 
isso que vim cá, entenda vocemecê — replicou o 
doutor, apparentando uma grande serenidade. — E. 
principiou a caminhar para o logar que apontara. 

Debaixo dos pés se levantam os trabalhos, diz o 
povo, e é verdade. A resolução do doutor estava 
tomada: havia de sair d'alli com a perdiz, custasse. 
o que custasse. Era sua, tinha consciencia do seu 
direito, e pela primeira vez lh'o negavam com um 
modo tão insolente. Estava costumado a ser respei- 
tado em toda a parte, e não era homem que se dei- 


CAÇADAS PORTUGUEZAS [85 


xasse enxovalhar impunemente: não seria aquelle 
villão quem o faria recuar. 

O guarda, vendo o movimento do caçador, rosnou 
uma praga, e atravessou-se, vociferando, na frente 
do seu contendor. 

— Saia já d'aqui para fóra, seu alma do diabo!... 
Você, cães e tudo — e depressa, que já o não vejo! 
— É o rosto negro do caseiro tinha uma expressão 
de ferocidade bestial, os olhos infectados pareciam 
querer sair-lhe das orbitas, a voz tremia-lhe e os ges- 
tos eram furiosos! — Sae, ou não sae?—rugiu elle, 
chegando, com os punhos cerrados, quasi a tocar na 
espingarda do doutor. 

— Não saio d'aqui sem a perdiz, e, se não quer 
que eu entre na vinha, leve os cães, e vá-m'a bus- 
car. Se não, vou eu... 

— Vae?! disse elle, como admirado d'uma tal au- 
dacia, e com um sorriso terrivel. 

— Vou, e já— respondeu o doutor, dando logo um 
passo avante. 

— Espere, que eu já lh'a dou — e dizendo isto o 
guarda correu á casa. O doutor seguiu-o, mas pou- 
cos passos tinha dado, no pequeno terreiro que a 
defrontava, que já o homem estava de volta, com uma . 
foice roçadoira, e arremettia contra elle, atirando-lhe 
estas palavras : 

— Tome lá a perdiz — acompanhadas d'um golpe 
temeroso á cabeça—uma pancada redonda — como 
lhe chamam no jogo do pau, e que dada com uma 
foice é sempre mortal. 

João de Bettencourt conhecia todos os segredos 


186 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


d'aquelle jogo. Nas suas visitas a Salvaterra frequen- 
tara os melhores jogadores do Riba-Tejo, aperfei- 
coara-se em Lisboa, na escola do celebre José Maria, 
o Saloio (4), e nos logares por onde passara tinha dei- 
xado recordações da força do seu braço, da sua des- 
treza e agilidade. Deu um salto á retaguarda, e a foice 
passou-lhe, como um relampago, deante dos olhos. 
Cresceu o outro sobre elle, e atirou-lhe o segundo 
golpe tambem atravessado, que não o aicançou, e ao 
terceiro, de ponta, o doutor, furtando o corpo, desfe- 
-chou... 

O estrondo do tiro confundiu-se com um grito: 
-o malvado caíu. Estava morto! 

— Assim o quizeste— disse o doutor, encarando 
o cadaver, que lhe jazia aos pés, e carregando a es- 
pingarda. 

Depois, com a physionomia contrahida pela im- 
pressão da tragedia, de que a sua má fortuna o fizera 
protagonista, olhou em volta de si, Não havia nin- 
guem. Deante delle estava só a fiel Diana com uma 
perdiz na bôca. | 

O pobre animal, ouvindo o tiro, entrara na vinha, 
e de lá trouxera a causa innocente d'aquella triste 
aventura. 

— Dá cá, Diana — disse o caçador, voltando-lhe as 
costas, e, pegando na perdiz, relanceou os olhos à 
casa solitaria do guarda, seguiu pela rua larga da 


(1) José Maria da Silveira --o Saloio, apesar da alcunha 
mão o era, porque nasceu em Lisboa, na calçada da Graça. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 187 


quinta, cortou pelas terras de semeadura e dahi 
passou ás vinhas. Caminhando com passo rapido 
chegou a um portello, que dava saída para os cam- 
pos, transpol-o, e achou-se no meio dos seus com- 
panheiros. 

— Então sempre aproveitou o passeio — observou 
um d'elles—nós cá ouvimos um tiro. 

— Sim, foi um perdigão — respondeu o doutor la- 
conicamente e com uma expressão singular, de que 
depois elles nunca mais se lembraram sem um cala- 
frio, quando narravam o tragico episodio d'aquella 
caçada. 

Um perdigão! Que fibras, as d'aquelle homem! 

A caçada continuou animada, mas, já para o fim 
da tarde, os amigos do doutor repararam que elle, 
ás vezes, não atirava ás perdizes que se lhe levan- 
tavam, e parecia distraido — elle, o mais attento e 
prompto de todos os caçadores! 


Findara o dia. O sol desapparecera além dos 
'montes, e ouvia-se o tilintar das campainhas dos 
rebanhos, que recolhiam da serra. Ao passar por 
uma modesta ermida, cujas portas estavam abertas, 
João de Bettencourt deu a espingarda a um dos com- 
panheiros, e, dizendo-lhe : — Vamo-nos pôr bem com 
Deus — entrou e ajoelhou... 

Dava a sineta as Ave-Marias, e o som melancolico 


188 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


do bronze christão, chamando os fieis á oração da 
tarde, perdeu-se lentamente na atmosphera triste 
dos campos abandonados ! 

No dia seguinte espalhou-se no sitio a noticia de 
ter sido encontrado morto com um tiro o Miguel 
Maltez, caseiro da quinta, e tempos depois o tio Do- 
mingos, que sabia tudo, contava na cosinha aos tra- 
balhadores, reunidos em volta da lareira, a historia 
da perdiz e do perdigão. 


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Os Pias 


INHA-ME, na vespera, dito o nosso hospedeiro e 
bom amigo, Ulpio da Veiga, que iriamos ás per- 
dizes, e teriamos para guia o Antonio Pias. 

Com effeito, ao romper da manhã — uma formosa 
manhã dos principios de setembro de 1870 — punha- 
mo-nos a caminho, e iamos bater á porta do rustico 
caçador. 

Um casebre grande de pedra quasi ensossa, com 
uma cobertura de telha vã, e outro egual, contiguo, 
para o gado e utensilios agricolas. — Na frente da casa 
um grande terreiro — a eira. 

O modesto casal assentava numa pequena chapa- 
da, na encosta d'um terreno de vinha — as famosas 
vinhas da Arruda —bom couto de perdizes, onde 
é dificil batel-as e caçal-as, tam dobrado é o chão, 
tam altas e valentes são as varas do vinhedo! 

A familia dormia ainda. Procurava eu com os 


Igo CAÇADAS PORTUGUEZAS 


olhos a porta, quando um dos companheiros apon- 
tou para um grande buraco na parede, uma especie 
de janella, que o tempo alli tinha aberto, e por onde: 
entrava o ar e a luz. Espreitei para dentro. Encos- 
tada à parede estava uma cama; estendi a mão e to- 
quei num hombro. O homem acordou: era o An- 
tonio, um dos filhos do velho Pias. 

D'ahi a nadinha, a Diana, uma Diana muito feia: 
e desengraçada de formas, mas muito melhor caça- 
dora do que outras Dianas de mais altos e ele- 
gantes cothurnos, veiu comprimentar-nos, a nós, e 
aos seus irmãos do mesmo pêlo, que do alto das 
suas brilhantes colleiras olhavam desdenhosamente 
para a velha perdigueira. 

Um instante depois appareceram-nos os-dois irmãos 
—homens de trinta a quarenta annos, feios, caras 
angulosas — de barretes na mão. Physionomias in- 
genuas, humildes e boas. 

— Então os senhores querem caçar ? perguntou 
um d'elles. | 

— Queremos, sim. 

— E' que nós ainda não dissemos nada ao pae.... 

Uns rapazes de dez annos — dos bem educados, 
já se vê, o que principia a ser raro — não pronun- 
ciariam aquellas palavras com o tom de desaffectado- 
respeito com que elles as disseram! 

Estavamos em frente da porta. O pae approxi- 
mou-se. Era um velho — uma cabeça fina, rosado, 
de feições correctissimas, olhos brilhantes, nariz aqui- 
lino, cabello anelado, branco como a neve. Tinha oi-- 
tenta annos feitos, mas ninguem o diria, tam apru-- 


CAÇADAS PORTUGUEZAS IgL 


mada era a figura, tam ageis os movimentos! Pa- 
recia impossivel como d'aquelle tronco robusto e ele- 
gante tinham saído estas duas vergonteas desen- 
gonçadas e toscas. Algum caso de atavismo, que se 
deu no pai, e não se reproduziu nos filhos. 

— Podes ir, disse elle ao Antonio. 


Partimos encosta abaixo, e depois encosta acima, 
atravessando o Sizandro —rio da familia dos rios 
sêcos, mas que se dá ares. Tinha umas poldras — 
como se tivesse agua! — umas pedras muito agudas e 
irregulares, mais difficeis de passar do que um ribeiro 
caudaloso! E depois mais encostas a subir, e mais 
encostas a descer — que a phrase andar por montes 
e valles foi decerto feita por algum caçador d'aquel- 
les sitios, aliás optimo creadouro de perdizes ! E que 
perdizes! Formosas, corpulentas, e saborosas então ! 
Sustentadas a trincadeira e a arintho d'aquelles 
torrões abençoados, como não haviam de ser assim! 

Acabavamos de entrar numa vinha já vindimada, 
onde ellas andavam ao rebusco, quando se levantou 
uma na minha frente. Atirei-lhe. 

— Leva sangue — grita-me um dos companheiros, 
lá de longe, em tom faceto. 

— Dentro e fóra — respondi eu, que vira contrahir 
as azas da minha victima. 

— Lá vae para a Erich re plieon elle, com 
ar vencedor. 


192 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


A ave, com efeito, depois do estremeção que 
“dera ao receber o tiro, seguira com o mesmo vigor, 
e baixou a grande distancia de nós, como se não 
fosse tocada. 

No emtanto o Pias, que se afastara, achava dois 
coelhos e uma perdiz, na sua volta, e trazia-os já á 
cinta, todo ufano, não de si, mas da sua espingar- 
da — uma caçadeira brilhante como prata, já com 
um malhete de estanho num dos canos, attestando 
não a excellencia do torchado, mas a imprevidencia 
e a ignorancia do homem, que trazia nas mãos tal 
inimigo ! 

—E certa para a caça — disse-me elle, acari- 
ciando a escopêta, quando eu lhe gabava a des- 
treza., 

— E certa para a caça, é, e incerta para você — 
observei eu, apontando para o malhete, accusador 
d'um accidente. 

— Isto não foi nada. Até ficou mais forte! Por 
aqui não torna ella a rebentar. Aqui onde está, cus- 
tou-me doze mil réis. A gente é pobresinha, o se- 
nhor bem vê. E desgraças a todos acontecem. .. Em- 
fim, andamos todos á mercê de Deus. 


Ignorantes e pobres, extenuados do trabalho, mal 
comidos, mal dormidos, estes homens são mais 
felizes do que muitos de nós. Teem as mesmas 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 19) 


alegrias e as mesmas tristezas, mas aquellas mais 
intensas, mais despreoccupadas, mais naturaes; e 
teem, sobre tudo isto, uma coisa, que nós já não 
temos, um sentimento que elles não analysam, e que 
nem podem discutir, nem justificar — a crença in- 
abalavel e absoluta na intervenção constante da Pro- 
videncia ! — Para elles o bem é sempre um premio, 
e o mal um castigo. 

São mais felizes, são. 

Quando encontro alguma d'estas almas, singelas 
e crentes, nunca me vem ao espirito o perturbar-lhe 
a serenidade, levantar a mais leve ruga, lançar a 
mais pequena nuvem sobre a superficie d'esse lago, 
que só reflecte o azul e as estrellas do ceu!... 

Que lhe daria eu em troca da sua fé, que o faz 
encarar a morte como uma introducção à Divina 
Presença, á vida eterna ? As minhas duvidas ? Nada 
mais. O roubado, o espoliado seria elle, e o que 
lucraria eu com isso? Tanto mais que as minhas 
sombras, lançadas nesse espirito desarmado, tornar- 
se-lhe-iam logo em trevas ! 


— Mas, ó Antonio, continuei eu—a sua espin- 
garda não cursa tanto como a minha. 

— Lá isso, com perdão do senhor, cursa ella. 

— Ora vamos vêr. 

Tinhamos feito alto á sombra d'um moinho. Saíu 


15 


194 CAÇADAS: PORTUGUEZAS 


um Diario de Noticias de dentro da saca dum 
de nós, e dividido ao meio, pregadas as duas meias 
folhas com dois pausitos agucados na parede do 
moinho, serviram-nos d'alvo. Medimos cincoenta 
passos, e disparámos. A minha espingarda crivou 
o papel, a d'elle metteu um bago aqui, outro acolá! 

Pias via, e não queria acreditar nos seus olhos. 
O ar victorioso que elle tinha, quando, depois de 
atirarmos, caminhou para o jornal, tornou-se-lhe na 
expressão triste dos vencidos. Uma illusão de me- 
nos ! Pobre Antonio ! 

— Pois sim, senhor — dizia elle, sentando-se numa 
pedra, e cruzando a sua companheira sobre os joe- 
lhos. Vencida está ella por essa fidalga, porque o 
dinheiro sempre mostra o que é, mas aqui por es- 
tes arredores não appareceu ainda quem a batesse. 

— São as mãos do dono, que a fazem valer — An- 
tonio. 

— Não, senhor, desculpe a sua palavra honrada, 
não, senhor — é que canos como estes, não queria 
que os houvesse melhores... E não sou eu que o 
digo. O mestre Augusto, que o senhor ha de conhe- 
cer muito bem, tambem me disse o mesmo, quando 
ella lá esteve em Lisboa a concertar... 

— Isso será tudo verdade, mas quem bate aqui | 
tudo, todas as espingardas presentes, passadas e 
futuras, é a minha reyuna ! 

Voltámo-nos todos para o novo interlocutor. Era um 
rapaz reforçado, louro, de cara boa e jovial, que até 
alli nos acompanhara, sem dizer palavra, e sem dar 
um tiro. Elle empunhava e expunha aos nossos olhos 


“ 


E al 


CAÇADAS PORTUGUEZAS Ig 


assombrados, uma colubrina immensa, de coronha 
curta de nogueira, em meias canas, com o cano 
todo vermelho, não do sangue das victimas, mas da 
ferrugem dos muitos annos, e que, tendo nascido na 
edade do silex, fôra transformada para a percussão 
moderna, systema de cão e borrachinha: Uma arma, 
talvez inoffensiva, em taes mãos, para quem estivesse 
ao alcance do tiro, mas com certeza assassina, para 
os que não se resguardassem dos estilhaços ! 


O formidavel aspecto, a feia catadura do terrivel 
instrumento, chamaram todas as attenções para o seu 
possuidor, e choveram logo sobre elle os motejos, 
e os dichotes. 

— Trouxeste isso das Indias? E' a irmã mais velha 
da peca de Diu! disse um. 

— Recolhe para lá o arcabuz, que espantas a caça, 
mesmo sem dar fogo! acrescentava outro. 

— Você com essa arma é capaz de metter uma 
bala no olho direito da lua! dizia um terceiro, que 
tinha bom bico para a troça. 

Xavier, assim se chamava o rapaz, recebeu im- 
pávido o ataque, e propôz o duello a todos os pre- 
sentes. Foi-lhe acceite. O pobre moço, que já af, 
frontara os perigos do mar, parecia não ter medo 
de coisa alguma em terra. Tinham-lhe emprestado 
aquella sucata, e elle dispunha-se a dar tiros com 


196 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


ella! Observei-lhe o risco, que todos iam correr com 
aquella visinhança... 

— Não ha medo. Isto é solido : é capaz de aguen- 
tar um paiol, quanto mais uma carga! 

E, dizendo isto, foi carregando a arma, a olho — 
uma mão cheia de polvgras outra de chumbo! Uma 
enormidade ! 

— Agora marquem a distancia — gritou elle. 

— Cem passos — será bastante? perguntou um. 

— Vá os cem. 

Contaram-se os cem passos. A tout seigneur tout 
honneur. 

Eu e os outros collocámo-nos a respeitosa distan- 
cia. 

— Preparar! Apontar! Fogo! disse um. 

A' terceira voz o tiro partiu. E, com sobresalto e 
terror de todos, Xavier caiu redondo, de costas no 
chão, levando as mãos á cabeça! 

Corremos a levantal-o. Não estava ferido feliz- 
mente, mas na testa tinha uma grande mancha, ne- 
gra e vermelha. 

Fomos examinar a colubrina. A borrachinha ti- 
nha desapparecido, e fôra ella que, projectada à ca- 
beca do pobre rapaz pela violencia do tiro, o deitara 
ao chão. 

— D'esta vez escapou, mas sirva-lhe de lição, e 
não torne a atirar com espingardas ferrugentas — 
disse-lhe um dos nossos companheiros, pondo ao 
hombro a sua caçadeira de ferro fundido. 

— Bem o prega fr. Thomaz — pensei eu, vendo 
este tão arriscado como o outro! 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 197 


O sol principiava a descer, e estavamos longe 
de casa. Fizemo-nos de volta, e fomos engordando 
as sacas, victimando aqui uma perdiz, além um coe- 
lho, até que démos entrada no nosso quartel-gene- 
ral. 

A' porta José Diniz —o velho caseiro — apresen- 
tou-me uma perdiz. 

— EÉ' aquella, a que o senhor atirou de manhã, e 
que foi para a Martinacha. la ferida —eu bem vi. Ella 
depois voltou, e veiu morrer lá em baixo, ao pé do 
rio. 

— E que não me quiz deixar por mentiroso. 


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Mestre Dominguizo 


ESCIAMOS à encosta, e 1amos cortando por uma 
E vinha, acabada de vindimar. Verdejava ainda 

a folhagem, malhada, aqui e acolá, pelo tom 
avermelhado das parras sêcas. O sitio era dos mais 
creadores de perdizes. 

— São certas aqui — dizia-me mestre Dominguizo, 
apontando-me os terrenos, que elle delimitava, des- 
crevendo um meio circulo com a sua espingarda. 
Não as haverá em parte alguma d'estes arredores, 
mas aqui não falham. E estão aqui, estão a saltar. 
Os cães já ahi vam no rastro d'ellas. Olhe... 

Effectivamente, os nossos perdigueiros, que as vi- 
nham tirando a ventos, iam-n-as já fazendo, iam-se 
ficando. 


Approximava-se o momento psychologico... 


200 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


Mestre Dominguizo não era um camponio vulgar, 
distinguia-se entre os seus patrícios — era um typo. 
Dez legoas à volta do torrão que o vira nascer, cita- 
vam-se as suas historias, a sua espingarda, as suas 
botas, e o seu nariz! Comquanto as Graças não ti- 
vessem de certo auspiciado o seu despontar neste 
mundo, era engraçado, e onde elle estivesse não pa- 
rava a tristeza. 

Tinham um quer que de comico as feições e a fi- 
gura do meu companheiro de caça. Meão de estatura 
e entresêco, o que avultava em mestre Dominguizo 
era o nariz — um nariz enorme, cuja aresta, sinuosa 
e fina, vinha terminar em ponta aguda, ladeada por 
duas largas narinas deseguaes e dotadas d'uma mo- 
bilidade espantosa. 

Quando elle contava alguma das innumeras his- 
torietas do seu vasto repertorio, era de ver como ellas 
tam acompanhando os lances da narrativa — bran- 
das e suaves no idyllo, lubricas na scena amorosa, 
frementes no drama, dilatadas e furiosas na trage- 
dia! Um nariz assim valia meio talento... Estava 
pedindo um Talma, um Frédérick Lemaitre! 

Se um grande actor o possuisse, que effeitos não 
tiraria de tão portentoso orgão, de tão flexivel e vi- 
brante instrumento ! 

Ao appendice nasal devia o nosso homem o co- 
gnome, com que o appelidavam—o Picanço. Bem 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 201 


sabia elle isso, mas não se lhe dava de tal, antes 
commentava a alcunha:-com variações da sua lavra, 
e historias, facetas e garotas, de monges narigudos 
— unica herança que tivera de seu pae e mestre, 
que fôra sapateiro dos frades da villa. É que fres- 
cas, que eram as taes historias! Umas, apesar do 
“seu trajo rustico, conhecia-se que vinham directa- 
mente do Boccaccio — por intermedio dos reverendos 
monges; outras acceital-as-hia de bom grado o Ar- 
'mand Silvestre para as vestir, ou, antes, para as des- 
pir com a sua penna ultra-gauleza ! 

No fim do jantar, entre a pitada e c cigarro — 
«Sou um poço de vicios !», costumava elle dizer — é 
gue mestre Dominguizo gostava de ostentar os seus 
talentos de narrador. Então era difficil, ainda ao mais 
fleugmatico dos seus ouvintes, conservar o serio, prin- 
cipalmente se lhe attentasse na physionomia, e visse 
a mascara do artista acompanhar a phrase, subli- 
nhando os pontos mais interessantes da narrativa! 
Esquecia-me dizer que, além do nariz extraordina- 
rio, um dos seus olhos era um tanto vesgo. 

Do trajo; que direi! Quando, ao romper da ma- 
nhã, um pouco ennevoada, elle me entrou pela porta 
da quinta envolto no gabão, e depois o largou, mos- 
trando-se na sua brilhante toilette, semi-dominguei- 
ra, semi-caçadora, o pescoço envolto num cache-nez 
branco com listras azues, e atravessando atraz, na 
cinta, um enorme guarda-chuva, azul, de castão de 
buxo e grande ponteira de latão — o tempo estava 
de aguaceiros — eu tive pena de não ter de meu o 
lapis do Ramalho-ou do Gameiro, para o retratar! 


202 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


Que figurão que elle faria, no salão do Gremio Ar- 
tistico! Era com certeza um dos clous da Exposição. 

Os nossos artistas, ou viajam pouco, ou não apro- 
veitam o que vêem. Perdem joias, como esta, e 
quantas mais! 

Mas do que mestre Dominguizo mais se vanglo- 
riava não era dos seus triumphos de contista, nem da' 
firmeza e rapidez das suas pontarias, não — do que 
elle mais se presava era da sua pericia na arte. 

— Uns sapatos, umas botas, saídas da minha mão, 
dão-se logo a conhecer — dizia elle, e accrescentava 
com orgulhosa intimativa — Aqui, dez leguas em 
roda, não ha quem talhe e metta uma florêta como 
eu! E nisto é que está todo o segredo, e onde se 
conhece a mão do mestre. 

Assim se conta de Lord Byron — mal comparado 
— que apreciava mais os elogios que Ali, o famoso 
pachá de Janina, lhe fez um dia à pequenez das 
orelhas e à finura aristocratica das mãos, do que os 
maiores louvores que a critica lhe teceu ás bellezas 
do Child Harold e do D. Juan! 


— Lá estão parados os cães. Uma, duas... 

Mal mestre Dominguizo pronunciara estas pala- 
vras, accentuando-as com dois movimentos perpen- 
diculares da espingarda, saltaram duas perdizes, e 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 205 


ouviram-se dois tiros. Um era d'elle, e a ave caiu 
redonda. A outra perdiz escapou incolume. Atirara- 
lhe o meu visinho da direita. 
— Bem castigado — observou, voltando-se para 
mim, o Picanco — porque já ia muito larga para elle; 
e, demais, o tiro tambem não lhe pertencia, porque 
não foi parada pelos seus cães — visto que não traz 


nenhum! E porque não atirou V. S.º? 
— Queria vel-o dobrar os tiros. 
— Seria atrevimento da minha parte... Todos 


caçam, mas nem todos sabem caçar. Eu sei. 

Caçador educado na velha escola, mestre Domin- 
guizo era correctissimo, e respeitava, como um Evan- 
gelho, as praxes da boa cortezia. 

— Vamos andando — disse elle, depois de escor- 
var cuidadosamente a sua Angelica. E accreszentou 
— Está velhinha, como a outra, mas ainda é um ve- 
neno! 

Bom homem, modelo dos maridos, emquanto foi 
viva a mulher, não havia festa em que os não vis- 
sem juntos, a todo o momento falava nella. Enviu- 
vando, principiou a dar á sua caçadeira o nome da 
companheira, que perdera! Causou isto extranheza 
nos primeiros tempos, mas depois já ninguem repa- 
rava em tal. 

— Coisas do Picanço... Bôlha — diziam uns. 

— Um modo de matar dad — aventavam ou- 
tros, com um vago, mas talvez mais verdadeiro in- 
stincto do sentir do velho caçador. 

Emquanto elles carregavam, vira eu, lá em baixo, 
ao fundo, sobre a direita, erguer-se d'entre a vinha 


204. CAÇADAS PORTUGUEZAS 


um homem, que falava para nós, gesticulando com 
violencia, mas o vento era contrario e não percebi o 
que elle dizia. 

Fomo-nos approximando, e vimos então o que era. 
Estava ferido — tinha sido alcançado pelo chumbo 
do meu visinho abelhudo. 

Pasmo em toda a linha! 

Como podia elle ser ferido, se nos ficava muito à 
direita, quando a perdiz e o tiro foram ambos para 
esquerda?! Não havendo arvores em que o chumbo 
fizesse ricochete, como podia elle mudar de direc- 
cão no ar?! Hão de confessar que era caso este, 
apparentemente, de difficil explicação. 

Todos falavam a um tempo, olhando para a vi- 
ctima, e a todos parecia impossivel a realidade, a co- 
meçar pelo auctor, pelo protagonista daquelle triste 
episodio! Não caçara nunca, e pegara na primeira 
escopêta que encontrou! Joaquim estava pallido como 
um defunto, vendo o sangue que corria de duas fe- 
ridas, que o vinhateiro mostrava em uma das fa- 
ces. 

Depois de examinarmos o homem, que tinha mais 
doze ou quatorze grãos de chumbo, espalhados pelo 
corpo, pegámos no instrumento do involuntario cri- 
me para o examinar, a ver se elle nos explicava com 
a sua bôca silenciosa, o que nós com a nossa des- 
vairada loquela não poderamos fazer. 

Era na bôca da espingarda, que estava com ef- 
feito a resposta, a solução do problema, que em vão 
buscavamos; no cano direito, do lado de fóra, havia 
uma fractura de fórma triangular. Foi para mim, 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 205 


desde logo, evidente ser aquella a causa do desvio e 
do desastre. 

Tinham atirado muitas vezes com ella, sem ferir 
ninguem? Teriam, sim, porque a aba do chumbo . 
desviado nunca encontrara ninguem; mas era ques- 
tão de tempo, e mais dia, menos dia, um homem, ou 
algum cão dos proprios caçadores, seriam victimas 
da imprevidencia do seu possuidor. 


Foi uma lição para os que assistiram a esta scena, 
e sel-o-ha tambem, decerto, para os que a lerem, 
narrada aqui por um dos espectadores, que nesse 
momento não estava tão sereno, como agora que a 
descreve. | 

— Não ganhou para o susto — dirá algum leitor, 
pensando no pobre jornaleiro. 

Se o susto d'elle foi grande não sei — creio mes- 
mo que não foi, mas o que posso affirmar é que re- 
tirou para casa logo, e que no dia seguinte já lá an- 
dava na faina! Tomara elle ter mais jornas como 
a d'aquelle dia... menos o chumbo. Ganhou quinze 
tostões ! 

Mestre Dominguizo enfiou mais uma historia no - 
seu rosario, e d'ahi por deante, sempre que, em casa 
do prior, ou do seu compadre Silva, o barbeiro, elle 
se propunha a entreter a sociedade, se acertava es- 
tar presente o Joaquim — que, entre parenthesis, era 


206 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


bom moço — o “Picanço, piscando-lhe o olho, e ap- 
proximando-se d'elle, dizia-lhe ao ouvido : 

— Fica, fica. Podes ficar, que eu não conto a his- 
toria. 

Mas contava-a, se o outro saia. Não fosse elle ar- 
tista! 


O sr. Manuel do Jaleco 


A Caetano Alberto 


AQUELLA manhã o sr. Manuel do Jaleco, ao 

entrar em casa, depois do seu passeio pela 

quinta, vinha sorumbatico, e quando os pe- 
querruchos irromperam da porta da cosinha e o ro- 
dearam no pateo, pedindo-lhe com grande algazarra 
a benção, elle, pela primeira vez da sua vida de pae,, 
affastou-os com a mão, e, resmungando um Deus os 
abençoe collectivo, atirou-se para cima d'um banco, 
e ficou-se de cabeça baixa, olhando para o chão, e 
descrevendo curvas no lagedo com uma varita, que 
trazia na mão. 

Ás creanças acompanharam de longe o pae, olhan- 
do-o com um ar admirado, e depois, como elle con- 
tinuasse absorto, sem fazer caso d'elles, foram-se 
escoando um a um, e dahi a pouco ouviam-se re- 
toiçar no pateo, fazendo um alarido dos demonios. 


208 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


— Pequenos! Filhos! Que bulha é essa? Se eu 
lá vou!... gritou-lhes a mãe — a sr.º Maria Do- 
mingas — a tia Domingas, como lhe chamavam. 

— Deixa lá os rapazes. Estão na sua edade. Que 
hão de elles fazer? observou o Manuel. 

— Sim, tu dizes sempre isso, mas eu é que cá 
estou, para os lavar e coser. Aquellas calças, que 
o Antonio estreiou domingo de Paschoa, já estão 
todas esfrangalhadas, mesmo um lixo, uma vergo- 
nha!... Se a gente os deixa rasgam-se todos, e nós é 
que o pagamos. Eu não sou da tua systema. De 
pequenino se torce o pepino. 

O Manuel não replicou. 

— Queres almoçar? As migas estão promptas. E 
que boas que ellas estão! 

— Quero, sim. 

A tia Domingas chegou á porta do pateo. A bulha 
do rapazio cessou de repente. 

— Andae cá, meninos. Vamos almoçar. Ai, Fer- 
nandinho! Como vindes asseado e composto! E vós, 
Antonico, olhae, como trazeis as calças! Cá tendes 
a escrava, para vos remendar ! 

A pequenada entrou de roldão pela porta, atro- 
pelando-se com receio d'alguma cacholeta. Que el- 
les bem sabiam que a mereciam. 

— Foi o Atoino... 

— Deixe falar, mãe, foi elle que me botou ao chão 
— retrucou o outro, ameaçando com a mãosita o 
accusador. 

— Caluda! Nem mais pio! 

A esta intimação da mãe, os grulhitas calaram-se, 


a 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 200 


sentando-se nos bancos, e investindo vorazmente 
com as migas fumegantes, depois de um relance 
d'olhos aos pratos, a ver se algum tinha mais. 


— Agora reparo, Manuel — disse Domingas, a 
meio do almoço — tu tens alguma coisa, homem; 
não falas, não dizes nada! Aquillo que eu disse... 

— Não, não, não é isso. Nem me lembra já o que 
tu disseste... 

A tia Domingas olhou para elle fixamente com 
um modo interrogativo, e depois continuou: 

— Então, Manuel, se não foi isso, é outra coisa. 
Porque tu tens alguma coisa hoje... 

— Não tenho nada. 

— Tens, tens. Dize lá o que é. Quem é para o 
amor, é para os trabalhos, e eu sou tua mulher —tu 
bem o sabes. 

Maria Domingas era uma mulher decidida — mu- 
lher d'armas, como se costuma dizer —-e em caso 
de necessidade manejava uma roçadoira com um 
vigor masculino. Nem todos lhe mettiam medo. Em 
casa a voz mais alta que se ouvia, era a della, e no 
sitio, quando se falava d'ella, dizia-se: 

— Vae a casa da tia Domingas. 

— Venho de casa da tia Domingas. 

— As vaccas da tia Domingas... 

Elle — o Manuel do Jaleco — vivia na sombra: 


era um bom homem, que nunca dera que falar, numa 
14 


210 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


palavra, um pobre homem. Nessa conta o tinham, 
e assim fôra até alli. 

Uma vez acordada a curiosidade na cabeça duma 
filha d'Eva, quaesquer que sejam as suas virtudes, 
não descança, emquanto lh'a não satisfazem — ainda 
que seja com uma mentira. Mas o Manuel é que não 
era de guardar segredos com a familia. 

— Como eu já sei que tu me vaes matar o bicho 
do ouvido com as tuas perguntas, já te digo o que 
é, para ficares socegada. Chega-me para aqui o 
café. Olha o pequeno, que quer mais pão. Tu sa- 
bes que esta quinta d'antes tinham por costume 
entrar nella, lá ao fundo junto ás oliveiras, pelo 
muro que estava derrubado, e faziam por aqui ser- 
ventia para a estrada. O doutor Mendes, que é quem 
a tinha, quando eu a comprei, mandou levantar os 
muros, e, como era o juiz e tinha cá um creado e 
um feitor que não eram para graças, o povo respei- 
tava-lhe a casa, e perdeu o veso ao caminho, e dava 
a volta em redor da quinta. Agora parece-me que 
querem tornar á antiga... 

— (Como tornar á antiga? !-— perguntou a tia Do- 
mingas, fincando os cotovellos na mesa, e franzindo 
lentamente as grossas sobrancelhas. Então a gente 
já não é senhora do que é seu?! Mas eu ainda hon- 
tem dei a volta da quinta, e não vi nada! 

— Não viste nada, porque eu compuz o que elles 
derrubaram. Olha, e entram exactamente pelo mesmo 
sitio, por onde costumavam d'antes. Ha tres dias 
que acho algumas pedras caídas em baixo, ao pé da 
oliveira grande. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 211 


— Então que volta se ha de dar a isso? Porque 
se nos devassam a terra, d'aqui a pouco estamos a 
pedir! Vae-se-nos o milho, a vinha, a fructa ! Esta- 
mos asseados! Roubam-nos de dia e de noite! A 
gente não pode estar sempre de guarda. 

— Que volta se lhe ha de dar ? dizes tu... Por causa 
das voltas é que isto é. Volta é o que elles não que- 
rem dar. 

— Mas alguma lhe havemos de achar, Manuel, 
que a terra é nossa, e foi paga com o nosso dinheiro, 
com o suor do nosso rosto. Assim á valentona é 
que a não levam. Isso não. 

— Assim deve ser, mulher, mas o que será é que 
eu não sei. 


H 


Passaram-se dias, depois d'esta conversa, sem que 
nem ao jantar, nem á ceia, as duas occasiões em 
que o casal discutia os seus negocios — as semen- 
teiras, a colheita, os alugueis do gado, as decimas, 
os estrumes, as jornas —se tornasse a falar no 
caso do muro. A questão jazia, porém não estava 
morta, e, o que mais é, ambos, dia e noite, pensa- 
vam nella: é que para elles era de vida ou de morte. 
A propriedade fechada valia muito, valia tudo, mas 
aberta e devassada não valia nada. 

E tanto isto era assim que, todos os dias, ao rom- 
per da manhã, a tia Domingas fazia tambem a sua 
ronda, agora mais demorada do que o costume, to- 
mando logo a direcção do Altinho da oliveira gran- 


LD CAÇADAS PORTUGUEZAS 


de, logar por onde o seu Manuel lhe dissera que en- 
travam. 

Estas inspecções, por infructiferas, principiaram a 
serenar-lhe um pouco o espirito, porque, por mais 
matinaes que ella as fizesse, e chegara a ponto de lá 
estar de vigia ainda com as estrellas no ceu, não 
conseguira vêr o atrevido invasor. Elle, todavia, quem 
quer que era, continuava a violar o muro, atraves- 
sando a quinta para a estrada. 

Como é então que ella não o vira nunca, nem des- 
cobria os vestigios da sua passagem — as pedras 
caídas e as pégadas no chão? 

Não querendo alterar a paz domestica, a santa 
paz, em que até ali tinham vivido, e contrariar a sua 
companheira, prohibindo-a de se intrometter naquelle 
caso — que elle entendia ser da sua jurisdicção, como 
homem — não lhe occultou o facto, mas quando se 
tratou do sitio assaltado, não lhe apontou o verda- 
deiro. E era por varios a entrada. 

De forma que, ao passo que a tia Domingas se ía 
tranquillisando, a ponto de não insistir já no assum- 
pto, a elle é que lhe custava muito occultar-lhe a 
preoccupação, que o dominava. 

Tinha exgotado todos os modos de avisar o in- 
vasor de que fôra descoberto, desde as pedras, cui- 
dadosamente repostas no mesmo logar, d'onde as ti- 
nham tirado, até aos dois paus, que elle se lembrou 
de armar em cruz, bem á vista; pensando que esta 
ameaça seria entendida, e poria fim aos assaltos. 
Nada, porém, surtira effeito, e elles repetiam-se 
como d'antes, não conseguindo elle ainda vêr quem 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 215 


era o audacioso, que, a horas tam desencontradas, 
por ali transitava. 


Manuel do Jaleco era, a este tempo, um homem 
de trinta e cinco annos, meão de estatura, largo de 
hombros, de grandes forças e de aspecto robustis- 
simo ; mas, pertencendo a uma familia de rixosos e 
valentões, tinha tal bonhomia e pacatez, que a to- 
dos admirava. O que fazia dizer à tia Domingas, 
na sua linguagem sentenciosa e pittoresca, que, ás 
vezes, d'uma ovelha preta nascia um cordeiro branco! 

Na sua alma, forte e soffredora, a paciencia quasi 
não tinha limites. Em certas occasiões viam-n-o fe- 
char os punhos, como para sentir a força dos seus 
braços herculeos; iniciar a acção de arregaçar as 
mangas da camisa; mas cerrava os dentes, e ficava- 
se. Estas ameaças de tempestade tinham, porém, tal 
eloquencia, que eram logo percebidas! Não era elle 
d'aquelle sitio, mas comsigo trouxera a tradição dos 
seus parentes — façanhudos brigões. E, um dia, 
quando voltara costas, um, que o conhecia de mais 
longe, disse na venda do logar proximo : 

— E' o tio, o José do Jaleco, como quem o pintou. 
É, mansinho como um cordeiro, é ter cautella com 
elle. E" da mesma raça, e, bem procurado, tem os 
mesmos figados. Vossemecês não o conhecem. Eu 
vio, aqui ha dez annos, na feira da Athouguia. 
Deixou ás portas da morte cinco ou seis, e não se 


214. CAÇADAS PORTUGUEZAS 


deu à prisão senão ao sargento da cavallaria do des- 
tacamento! E olhem que no fim da baralha não tinha 
uma beliscadura ! 

— Este ?-—observou um dos assistentes. 

— Sim, este — respondeu o outro — e se tem du- 
vida vá-lh'o perguntar, que elle é homem para lhe 
responder. 


HI 


Estavam as coisas nesta altura em casa da tia 
Domingas, quando, num domingo de manhã, lhes 
entrou pela porta dentro o seu compadre João An- 
dré. Eram raras, e em dias certos do anno, as visitas 
do sr. Andrésinho — diminutivo que não lhe assen- 
tava, porque o recem-chegado era de agigantada 
estatura; porém, como de pequenino assim lhe cha- 
maram, ficou-lhe ao que elle achava graça, porque, 
dizia, não gostava de ser tão alto, não pertencendo 
á familia dos Pinheiros. 

Mais velho do que o Manuel do Jaleco, padrinho do 
casamento e amigo da sua familia, o dr. João An- 
dré era o homem de maior porte e valimento que 
transpunha os humbraes da casa do nosso lavrador. 
Rico, fôra elle quem dera a mão ao afilhado, lhe 
arranjara o casamento com a Domingas, e lhe em- 
prestara algum dinheiro, quando elle comprou a 
quinta aos herdeiros do fallecido juiz de direito. 
Era portantô um amigo deveras, e para os Jale- 
cos — grandes e pequenos — não havia pessoa mais 


91 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 21 


grada no mundo, nem que mais estima e conside- 
ração lhes merecesse. 

Quando se apeou da sua possante egua russa-cardã, 
João André viu-se logo rodeado de toda a familia. 

— Cá estou, compadre — disse elle, abraçando e 
beijando os pequenos, que queriam trepar pelo pa- 
drinho, disputando-lhe já o chicote, que ainda tinha 
na mão. 

— Desculpe-os, mas estes rapazes envergonham 
a gente. Fernandinho, olhe que suja o sr. padrinho. 
Com as mãos nesse estado!... Largue já o chicote. 

— Então vim a horas — estão almoçando. 

— Sim, senhor. Como é domingo hoje foi mais 
tardinho — disse a tia Domingas. 

— E o mais é que cheira bem. E” coelho guisado ? 

— E'. Topei-o hontem lá no fim da quinta: andava- 
me na vinha, e como comia e não pagava, pagou 
com a vida. Entram pelos boeiros do muro, e já me 
fazem seu estragosito. 

— Mas como não saem todos os que entram, e 
alguns ficam para o almoço, vamos lá, que já não 
são dos peores hospedes— observou João André. E 
pelo que vejo, não dam só calor ao estomago, tam- 
bem aquecem a cabeça — continuou elle — apontando 
com os olhos para um barrete de pelles, que Manuel 
acabava de pôr sobre a arca. 

— Aquillo, compadre, é uma lembrança da Do- 
mingas: ha de me fazer o favor de o acceitar, e de 
o pôr já na cabeça, porque vejo que vem suado. O 
sol já vae alto, e o seu caminho para aqui é todo a 
descoberto. 


216 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


— Pois sim, eu ponho-o na cabeça, porque isso 
te dá gosto, mas tu sabes que eu estou costumado 
ao tempo. E está-me bem, está. Quem é que me 
tomou a medida? — dize lá, Maria Domingas — por- 
que quem o fez já eu sei. Ainda são as mesmas 
mãosinhas de prata, como diziam minhas irmãs, 
quando tu lá estavas. 

— Isso era favor das senhoras. E como estão ellas ? 
perguntou Domingas. 

— Vam vivendo. Estão boas. Mandam-te recados. 
É por cá não ha novidade, Manuel. 

— Ha as novidades da terra—e, antes que me 
esqueça, cá recebi o dinheiro do vinho. Não era 
pressa, e muito obrigado. 

— Não t'o demorei, porque podias precisar para 
o amanho da vinha, ou para outra coisa. Tu ainda 
estás em principio de vida. 

— Mas, graças a Deus, outros irão peor. O que . 
me fundiu menos do que nos outros annos foi a vi- 
nha; tive menos, mas mais maduro. Eu deixei-lhe cair 
o sol, e vindimei-a no tarde. Pagaram-m'o bem — 
pena foi ser pouco, mas isso não está na nossa mão, 
está na vontade de Deus. 

— E' verdade, a mim tambem me succedeu o mes- 
mo. E' mal geral, que a todos persegue. Vae vivendo 
a gallinha com a sua pevide. Este, que estás beben- 
do, é do teu do anno passado ? 

— E” sim, senhor. Tive mais meia duzia de pipa- 
sitas, e guardei algum para nós. Tambem somos fi- 
lhos de Deus. 

— O meu compadre dá licença — disse a tia Do- 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 217 
mingas — pondo-se em pé. Meninos — Padre nos- 
Jo 

Os pequerruchos com as suas vozitas foram acom- 
panhando a mãe, que, no fim da reza, lhes deitou a 
benção. 

— Fazes bem em educar assim os teus filhos, para 
não veres aqui o que se vê ahi em muitas casas... 

— E" como fui creada, e não me tenho dado mal 
com Isso. 


— Agora vamos dar uma volta pela quinta, em- 
quanto o sol não aperta mais; que depois o que ha 
mais, para vêr, é á sombra — disse o dono da casa, 
levantando-se. 

— Vamos todos — disse João André — eu gosto 
de vêr correr os pequenos. Quantos são elles já ? 

— Quatro, com a graça de Deus. O Fernando, o 
Antonio, a Isabel e a Mariquinhas. 

— Vamos lá, Manuel, que já podes ficar por ahi. 

O Jaleco encolheu os hombros, e respondeu : 

— Oito eramos nós, os filhos de meu pai, e todos 
nos creámos. E” verdade que os tempos então eram 
outros. 

lam andando e conversando, até que chegaram 
junto da oliveira grande. D'ahi dominava-se toda a 
quinta, o terreno elevava-se um pouco: os de casa 
chamavam-lhe o Altinho. 

-— Sentemo-nos aqui. Toma lá um charuto, Ma- 
nuel. A Maria dá licença. 


218 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


— Dou, dou, mas desculpe, o meu compadre anda 
a metter-lhe o vicio no corpo, e elle, de vez em 
quando, já ahi me apparece de charuto na bôca, 
como um senhorito. 

— Não te assustes, não te afogues em pouca agua. 
Quando elle te apparece cá a fumar de charuto, quem 
lh'os dá sou eu. E se não, repara, que é só nos dias 
que lá vae a casa. 

— O meu compadre bem sabe que de vagar se 
vae ao longe... 

— Sim, e o que eu tambem sei é que esta quinta 
está-se fazendo bem bonita. Quando cá vim a ul- 
tima vez estava um tempo frio como o demo, e não 
a pude vêr á vontade. Agora, sim. Faz muita diffe- 
rença para melhor do que era, quando para cá vie- 
ram. Tu, Manuel, estás um lavrador ás direitas! E” 
que está tudo no seu logar, cada cultura no sitio pro- 
prio! Onde aprendeste ? Porque tu sempre fôste gei- 
toso, mas o saber é outra coisa. Quem te ensinou ? 

— Eu lhe digo, compadre. Aqui perto ha uma 
quinta bem amanhada, e ainda lá havemos de ir; que 
eu bem sei que o meu compadre tem visto tudo o 
que é bom — mas é para a ver. Lá é que eu tenho 
observado alguma coisa, e d'ahi faço aqui como vejo 
que lá Pai 

— E que bonita vista a d'esse val que vae por 
ahi fóra! Não tinha reparado nisto das outras vezes. 
E' talvez porque não estivemos parados aqui. A casa 
tambem faz muito melhor vista: augmentaste a adega. 
E aquellas bacelladas são novas, Manuel? 

— São, sim, senhor. E tambem é novo aquelle po- 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 210 


mar, e as duas ruas de limoeiros, que pegam com 
elle. E o pomar velho está todo plantado de novo, 
assim como a vinha, que mais de metade d'ella é já 
de bacello americano. É ha ainda outra novidade, é 
que mandei concertar o lagar do azeite, que estava 
muito desprezado. Serve para mim, e, como não ha 
por aqui outro melhor, todos o mandam cá fazer, 
a ponto de me terem já faltado ceiras e tarefas, tan- 
tos são os moinhos d'azeitona, que ahi acodem. E' 
um dos meus melhores remedios a maquia que cá 
me deixam. 

Maria Domingas escutara toda esta conversação 
no mais completo silencio, comprazendo-se em ouvir 
os gabos á sua propriedade, mas principiou a dar 
mostras de querer interromper o dialogo, como 
quem tem medo de que fuja a occasião de dizer al- 
guma coisa importante, e, aproveitando um momento 
de silencio, disse: 

— Os senhores têem estado de paleio, e eu a ou- 
vil-os com todo o gosto — basta falar quem fala; mas 
ha uma coisa sobre que eu quero ouvir o senhor meu 
compadre. Eu digo. Quando viemos para aqui, o 
povo d'estes sitios estava costumado a respeitar a 
casa do doutor Mendes, e ninguem se atrevia a pôr 
pé dentro desta quinta, sem entrar pelo portão ; 
mas agora parece que nós não somos tam donos d'ella 
como elle, e já ha quem entre aqui pelo muro, der- 
rubando-o sem ceremonia, como se entrasse em terra 
sua! Que lhe parece, sr. Andrésinho ? Isto é direito? 
Esta quinta é nossa, ou é do povo? 

João André, que nunca lera Proudhon, e ainda que 


220 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


o lesse, não lhe tomaria as doutrinas, em materia de 
propriedade, respondeu, confirmando com as pala- 
vras e o gesto a opinião da sua interlocutora, vol- 
tando-se ao mesmo tempo para o Jaleco, como dese- 
jando ouvil-o sobre o caso. 

— E' verdade o que ella diz, é —disse este. Eu é 
que dei pela marosca, mas, apesar das minhas es- 
peras, ainda não descobri o marau. 

— E eu tambem não —accrescentou a Domingas. 

— EÉ' que talvez elle mudasse de sitio — replicou o 
Manuel sorrindo. | 

— Mas, entre elle por onde entrar, o que é pre- 
ciso é agarral-o — observou o doutor. 

— O meu compadre diz bem, diz até muitissimo 
bem... Mas se elle não se deixar agarrar? E eu 
posso prendel-o, não sendo auctoridade ? 

— Podes. Prende-o como um ladrão, que entrou 
na tua quinta. 

-—— E se elle resistir, e me der ? 

— Nesse caso, como tu estás em tua casa, e és o 
atacado, dás-lhe tambem. Estás no teu direito, de- 
fendes-te. E eu cá estou tambem, para o que fôr 
preciso. Mas, olha lá, não mates o homem. 

— Qra isso é que é falar — apoiou a tia Domingas. 
Essa lingua entendo eu. Olha. Manuel, tu és bom de 
mais; ao tio José Jaleco é que elles não faziam esta 
arrelia. Já a estas horas tinham as costellas num 
feixe. 

— Por isso tambem o mataram a tiro—disse o 
Manuel, muito sereno, como se aquella citação do 
nome do tio o não estimulasse lá no intimo. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 221 


João André, entretanto, tirava da algibeira uma 
caixa, que passou ás mãos da afilhada. 

— São já horas de retirada; ainda vou por casa 
do Antonio Ricardo, e tudo isso deita-me lá para a 
noite. Ahi te fica essa lembrança; quem t'a manda 
é a Isabel, que sempre foi muito tua amiga. E' para 
a afilhada, a Isabelinha. 

— Ora! As senhoras !... Eu não sei como hei 
de agradecer tantas finezas... Olha, Manuel, que 
brincos tam bonitos! 

— São muito lindos, são. Quando lá formos, do- 
mingo que vem, ha de leval-os. Não os estreia antes. 
Mais para agradecer, meu compadre. 

Quando já estava a cavallo, João André, despe- 
dindo-se, disse para o afilhado, que lhe segurava o 
estribo : 

— Olha, Manuel, quanto ao homemzinho o dito, 
dito. Segura-o, mas com geito. E eu cá estou. Adeus, 
Maria. Adeus, rapazes. | 

E já na estrada, voltando-se para traz, gritou- 
lhes: 

— Levem os pequenos. Venham todos. 


IV 


Nesse dia, depois da partida do doutor, os dois 
conjuges não trocaram mais palavra sobre o assum- 
pto que os trazia preoccupados, mas o dono da casa 
já tinha tomado a sua resolução. A” noite, depois da 
ceia, deitados os filhos, foram á adega, e lá estive- 


222 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


ram labutando numa coisa e noutra, até que a tia 
Domingas, não desconfiando de nada, o deixou só 
e foi-se deitar. 

Apenas se apanhou sósinho o Jaleco fechou a por- 
ta, encostando a roda de coiro da chave á fecha- 
dura. 

D'ahi foi a uma grande arca de carvalho, toda cha- 
peada de ferro, com bonitos lavores, que elle tinha 
comprado no leilão do convento, abriu-a, tirou para 
fóra uma espingarda de dois canos, e arrumou-a a 
um canto com todo o cuidado. Estes movimentos 
eram acompanhados de meias palavras, de phrases 
entrecortadas, . ditas muito baixinho, como se re- 
ceiasse das proprias paredes. 

— Com que então... Sim, querem ver quem é 
o Manuel... Se é sobrinho do José Jaleco... hein! 
E sobrinho, é —e uma casquinada em surdina acom- 
panhou estas palavras. 

Depois da espingarda arrumada voltou á arca, que 
era o seu arsenal, e, mergulhando o braço, trouxe 
do fundo tres paus ferrados e uma foice rocadoira, 
polida e brilhante como a folha duma espada. 

— O armamento já aqui está. Vamos a escolher. 
Todos os paus são bons — disse elle, passando-os 
em revista; e pegando num — mas este é restio, é 
de mais confiança. Isto é um pau real. 

E prolongando-se com elle, deu um pulo, fez dois 
sarilhos, e atirou dois golpes no ar, que assobiaram 
como duas balas. 

— Está na conta; não me deixa ficar mal 
gurando-o, carregou-lhe com a mão no meio. 


e, se- 


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CAÇADAS PORTUGUEZAS 


— Um pau real! Um pau para uma feira! 

Dito o que o nosso homem recolheu os outros à 
arca, que fechou, e mettendo a chave na algibeira, 
principiou a fazer um cigarro. 

— "Tomemos uma fumaça, que isto não vae a ma- 
tar. E agora me lembra a recommendação do compa- 
dre: — Não mates o homem. Não mato, não, que 
isso ainda assim não o posso jurar. Mas hei de fazer 
a diligencia. . Até mesmo porque não o quero pa- 
gar por bom, ao tal sujeito... ou sujeitos. Que elle 
bem pode ser mais de um. Até agora creio que tem 
sido um, mas, ás vezes o diabo arma-as, e em logar 
d'um posso topar com dois ou tres... que sei eu! 
E, depois d'uma pausa, continuou: — Anda pelo se- 
guro, Manuel, que o Seguro morreu de velho. Nada 
de creancices: vae tudo —o pau, a foice e a esco- 
pêta. Se o caso ficar em palavras bem vae, e Deus 
o queira; se não, tenho por onde escolher. 

Restava examinar a espingarda, que, havia muito, 
não servia; em casa havia outra somenos, com que 
espantavam os passaros, no tempo das sementeiras. 
Manuel passou a examinal-a, peça por peça —os ca- 
nos, a coronha, os fechos, os gatilhos, tudo viu e 
limpou como se fosse para uma revista, e, depois 
carregou os dois canos com zagalotes, escorvou os 
pistons com todo o cuidado, e pôz-lhe os fulminan- 
tes, que segurou, carregando-os com os cães. 

Terminada esta operação, saíu da adega, e foi-se 
deitar. adormecendo serenamente, como se não es- 
tivesse em vesperas d'um lance como aquelle, que 
podia ter tam sérias consequencias. 


224. CAÇADAS PORTUQUEZAS 
1% 


Seriam pouco mais de tres horas, e ainda mal se 
entrevia a primeira claridade, a dubia luz do cre- 
pusculo da manhã, quando se abriu e cerrou caute- 
losamente a porta da cosinha, e um vulto, atraves- 
sando o pateo, entrou na quinta, deitando.logo fóra 
o cigarro que levava acceso, parando de quando em 
quando, com o ouvido á escuta; e, procurando como 
que romper as trevas com o olhar fixo e prescruta- 
dor, tomou pela rua que circumdava as terras, por 
ser caminho batido onde os passos menos ruido ha- 
viam de fazer. 

Era o nosso Manuel. Chegado ao sitio, que elle 
agora escolhera, encostou a espingarda ao muro, 
depois de pôr os cães no primeiro descanço, e com 
a foice ao lado, ficando com o pau ferrado na mão, 
sentou-se num tronco d'arvore caído, onde já passara 
algumas horas de inutil sentinella. 

Teria decorrido o tempo de fumar um cigarro, que 
elle não fumou, para não denunciar a sua presenca, 
quando lhe pareceu ouvir ao longe rumor de passos. 
Prestou o ouvido e reconheceu que não se enganava: 
os passos approximavam-se, e deixaram de se sentir 
mesmo junto do muro. Manuel poz-se em pé, e em- 
costou-se á parede, encobrindo-se com ella. Acabava 
elle de fazer isto, quando assomou no alto uma ca- 
beca, e logo em seguida, lestamente, um homem 
saltou para dentro, a quatro ou cinco passos. 

Era chegado o momento. 


295 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 2 


— Até que finalmente ! — disse Manuel, avançando 
para o desconhecido com passo firme, e de modo 
a cortar-lhe a deanteira. 

Ao ouvir estas palavras o homem parou, e, vol- 
tando-se de repellão, perguntou ao Jaleco desabrida- 
mente o que é que lhe queria. 

— Quero varias coisas — repondeu-lhe este muito 
sereno. A primeira é dizer-lhe que ha muitas nor- 
tes, estou á sua espera, para lhe receber a vi- 
sita — gosto que só tenho nesta occasião. Depois 
quero me diga o que o traz aqui, e com quem é o 
negocio, visto que não é comigo... E não sendo 
negocio, nem de macho, nem de femea, quem lhe 
deu licença para entrar por aqui na minha quinta ? 

Esta interpellação ao seu intruso hospede, pronun- 
ciou-a o quinteiro com uma tranquillidade assusta- 
dora, que impressionaria outro que não fosse aquelle 
a quem fôra dirigida, e que era, nem mais nem me- 
nos, um dos mais temiveis e temidos contrabandistas 
d aquelles sitios. 

— Pois sim, senhor, gostei de o ouvir. Vossemecê 
fala bem, e, se eu não estivesse com pressa, talvez 
conversassemos um bocadinho, mas agora não tenho 
tempo — e, ditas estas palavras, o outro fez o gesto 
de se despedir. 

— Venha cá, homem de Deus, que ainda tenho 
mais uma coisa para lhe dizer. Vossemecê vae er- 

rado por esse caminho: o caminho é aquelle — e. 
o Jaleco apontou-lhe com o pau o muro por onde 
o contrabandista saltara. 


— Agora já percebo. Vossemecê está ahi de guar- 
15 


226 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


da, e quer-se entreter; mas, eu já lhe disse, não lhe 
posso dar trela, e o meu caminho eu é que o sei— 
E, como o Jaleco desse um passo para a frente, 
elle, mudando de tom, levou a mão á altura da cara, 
e perfilando um dedo, em ar de ameaça, disse-lhe: 
— Olhe que eu sou o Simão Contrabandista. 

— Fico sabendo, e eu sou o Manuel de Sousa, o 
Manuel Jaleco. Somos ambos baptisados, mas o caso 
é outro agora. O seu caminho, sr. Simão, é por alli; 
eu não o encarreguei de abrir caminho pela minha 
terra, e portanto vae vossemecê desandar o que an- 
dou, sae por aquelle muro, e não volta aqui mais! 

— Isso é muito comprido, seu Jaleco; torne lá a 
dizer. 

— Eu estou falando com o sr. Simão, mas o sr. 
Simão é que não sabe com quem fala. Você está 
a brincar com o fogo, homem de Deus! Veja lá, que 
se queima ! 

— Isso é somno, seu Manuel. Vá-se deitar, que as 
pulgas estão á sua espera— replicou o contraban- 
dista, com um ar insolentissimo. 

O conflicto estava imminente. Simão, homem de- 
cidido e de pulso—os guardas fiscaes conheciam-lhe 
a astucia e a bravura — não recuava facilmente deante 
d'outro. 

O Jaleco lembrou-se neste momento da recom- 
mendação do compadre, — «Não mates o homem» 
— e, como grande jogador que era, tinha já feito 
mentalmente o golpe, antes de o executar. A's ul- 
timas palavras do seu adversario, dando dois passos. 
estendeu a mão, e com um gesto imperioso disse-lhe : 


Des 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 227 


— Ponha-se lá fóra, seu garoto! 

Ao Simão faiscaram-lhe os olhos. Cresceu para o 
quinteiro, e atirou-lhe uma paulada d'alto a baixo, ás 
mãos ambas. 

O golpe foi rapido, e seria mortal, mas bateu no 
chão, e quando elle ia retirar o pau ferrado, Ma- 
nuel, que se furtara á pancada, respondeu-lhe com 
um rebate, e fez-lh'o saltar das mãos. 

De navalha em punho o contrabandista investiu 
então furioso, mas de nada lhe valeu a violencia do 


“ataque; o Jaleco varreu-lhe as facadas, e poz ter- 


mo á contenda, partindo-lhe um braco. 

Simão, com a violencia da pancada e da dôr, lar- 
gou a cuchilla. Quando correu a apanhal-a, o Ja- 
leco já lhe tinha o pé em cima, varrendo-lhe o ter- 
reno, e o contrabandista sentiu o braço direito 
inerte. 

— Estou arranjado! — disse elle, lançando um olhar 
feroz para o quinteiro—mas você ha de mas pagar. 

— Assim o quiz. E dê gracas a Deus, que o caso 
podia sair-lhe mais caro... Vamos embora, que te- 
mos de ir á villa. 

'— Quem me manda a mim ser tolo — resmungou 

Simão, mordendo-se com a dôr e com a raiva. Se 
eu tivesse trazido a espingarda, não me acontecia 
esta! 

— Se a trouxesse, estava alli outra — respondeu- 
lhe o Jaleco, apontando para o muro. 

O contrabandista olhou, encolheu os hombros, e, 


“pondo os olhos no chão, rosnou entre dentes: 


— Tinha de ser! Uma vez é a primeira. 


| (O) 
13 
Fá) 


í 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 


VI 


Neste lance final os veiu encontrar a tia Maria Do- 
mingas. Não vira nada, mas o silencio e a attitude 
dos dois homens, a expressão da physionomia do 
contrabandista, que era de si mal encarado, e o sor- 
riso contrafeito com que o Manuela acolheu, tudo lhe 
dizia que houvera novidade, porém foi em vão que 
os seus olhos curiosos procuraram os vestigios da 
lucta entre os dois. 

— Então era este... 

O Jaleco não a deixou proseguir, acenou-lhe com 
a mão, e disse-lhe: 

— Appareceste em boa occasião. Manda metter os 
bois ao carro, e que me arranjem a egua, porque 
nós vamos já para a villa. Este homem, ao saltar 
aqui o muro, caiu mal, e vim achal-o com um braço 
desmanchado, ou coisa que o valha. Anda, vae de- 
pressa, que eu almoco lá em casa do compadre. 

A pouco espaco atraz da tia Domingas seguiram 
os dois, ambos cabisbaixos e tristes, um por se ver 
ferido, humilhado e preso, e o outro por estar met- 
tido em trabalhos por culpa alheia. 

Não tinham trocado uma palavra entre si, quando 
chegaram perto da casa. Já se ouvia a voz da patrôa 
e os gritos alegres dos pequenos, que vinham cor- 
rendo ao encontro do pae. 

Os moços atravessavam açodados o pateo, para 
onde dava tambem uma das portas da estrebaria, 
trazendo já os bois, dois animaes corpulentos e ne- 


CAÇADAS LORTUGUEZAS 220 


dios, que attestavam o esmero do tratamento. A uma 
argola, presa por uma corda, e já arreiada e prom- 
pta, estava a egua. 

— À egua já está arraçoada, patrão — disse o moco, 
e vae-se metter o gado ao carro. Agora vossemecê 
dirá se manda mais alguma coisa. 

— Olha, Antonio, ainda ahi está uma pipa, que 
“havia de ir para casa do boticario. Mettam-n-a ahino 
carro, que aproveito a occasião, e deixo-lh'a lá. 

É voltando-se para o contrabandista : 

— A vossemecê vinho não lhe offereco, porque sei 
que agora lhe faz mal, mas se quer comer alguma 
coisa, está às suas ordens. 

— Obrigado, não tenho vontade — respondeu o 
outro. 


A atmosphera, a principio ennevoada, fôra cla- 
reando no rapido decorrer d'estas scenas, e quando 
a tia Domingas, chegou ao pé dos recem-chegados, 
e se affirmou no contrabandista, reconheceu-o: fôra 
o seu primeiro conversado, quando ella estivera em 
Quadrazaes. Passava já de doze annos que isso tinha 
sido, mas elle não lhe escapou, e, quando lhe ouviu a 
voz, ficou certa de quem era o desconhecido. 

— Guarde-a Deus, sr.* Maria Domingas — disse 
elle. levando a mão ao chapeu. 

— Então é vossemecê quem nos deu estes tra- 


balhos... 


230 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


— Por meu mal, sou eu, sou... Nós vamos em- 
bora, e eu quero deixar tudo bem claro aqui. Assim 
como assim, já não tenho nada a perder em dizer a 
verdade. Eu ando a monte... Entende-me? Ando 
fugido da terra. Vae já para nove mezes que saí de 
Quadrazaes... 

— Por causa dos guardas? perguntou o Jaleco. 

— Por outra coisa... Aconteceu-me uma desgra- 
Eai 
— Alguma morte ? 

Simão ficou silencioso, e depois, meneiando a ca- 
beca, como se lhe custasse falar: 

— Lá vae tudo. Tanto se me dá... Denunciaram- 
nos, e os guardas eram muitos em nossa persegui- 
ção, e quasi todos a cavallo. Tivemos de largar a 
carga, e perdemos tudo, a fazenda e as bestas. An- 
dou talvez por seiscentos mil réis o prejuizo. Um dia 
encontrei-me com o denunciante numa serra. Quando 
o vi, vio diabo! Fugiu-me a luz dos olhos... Foi a 
minha perdição! Agora aqui estou, e será o que Deus 
quizer. 

— Dá cá uma cinta, Maria, para este homem met 
ter o braço ao peito. 

— Está tudo prompto, patrão —veiu dizer neste 
momento o Antonio. 

— Então vamos. Tome lá a cinta, e suba para o 
carro, sr. Simão. Ajuda esse homem, Antonio. 

É o Manuel Jaleco, afastando-se com a mulher, 
disse-lhe algumas palavras em voz baixa. A tia Do- 
mingas empallideceu. 

— E agora? — perguntou ella, com a voz anciosa. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 251 


Vaes entregal-o á justiça? Que tu, tambem, com a 
avaria que lhe fizeste... 

— Não te enfades por minha causa, por mim não 
temas. Eu vou ter com o compadre, e o que elle 
disser é o que se ha de fazer. As novidades que 
houver, se eu não voltar já, mando-t'as pelo Anto- 
não. 

O carro ia a sair. Manuel, já a cavallo, atraves- 
sando o pau na sella, donde pendia uma clavina, 
— precaução da tia Domingas —-voltou-se para a 
mulher, e pondo um dedo na bôca, recommendou- 
lhe silencio sobre o caso. Depois, dando uma pal- 
mada no pescoço da egua, disse: 

— Vamos, Bonita. 

Maria Domingas foi-os seguindo com os olhos pela 
estrada, e, quando todos desappareceram na primeira 
volta do caminho, virou para dentro, preoccupada e 
triste. 

— Pobre rapaz ! Bem creado e mal fadado! Quem 
diria. .. murmurou ella. 

Recordação d'outros tempos. Era mulher e tinha 
coração. 


VI 


— Então, Manuel, que novas me trazes ? — per- 
guntava arrastadamente o dr. Andrésinho ao seu 
compadre, esfregando as mãos, e com o rosto pra- 
senteiro com que se acolhe um amigo. — Senta-te. Eu 
bem sei que vieste a cavallo e o cansaço não ha de 


. 


232 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


ser muito, mas não gosto de ver de pé deante de 
mim se não os meus creados. Vieste acompanhando 
o carro. O que trouxeste ? 

— Trouxe o vinho para o sr. Almeida. 

— O boticario ? Fizeste bem, que elle já me tinha 
dito que o esperava. Com aquella gente é bom es- 
tarmos de boas avencas, por causa das doencas, 
como diz cá o nosso prior. 

— E além do vinho tambem lá vem outra encom- 
menda, e essa é para o sr. doutor. 

— Para mim ? 

— Sim, senhor; para o meu compadre. Talvez 
seja depois tambem para outras pessoas, mas, por 
ora, é só para o senhor; e depois o senhor dirá o 
destino, que se lhe ha de pa 

— Homem, desembucha lá com isso. Estás assim 
com os modos de quem enguliu um marmello, e o 
tem atravessado nas goelas ! 

— A falar a era não anda longe d'isso, que 
elle não é mau marmello; e até é certo que já hoje 
o provou, e quem lh'o deu a provar fui eu. 

— Bem digo eu, Manuel. Isso é alguma adivinha- 
cão. Se é, já te digo que as massadas estão prohi- 
bidas. Leva essa para o Almeida, que elle dá o 
cavaquinho por uma charada. 

— Ora chá tem elle lá muito na botica! O caso 
é outro, sr. compadre. 

— Então rebenta para ahi com isso! O les é, fi- 
nalmente ? 

— Lá vae. Trago al o homem. 

— Qual homem, Manuel ? Estás-me intrigando, e 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 233 


João André cofiava a barba, e na physionomia at- 
tenta lia-se-lhe a curiosidade. 

— Eu de intrigas é que não sou. Então o meu com- 
padre não adivinha o que é, que eu lhe trago ?! 

— Não, e renão ! Desembucha por uma vez ! 

— O homem que saltava o muro! 

— Ta, ta, ta! Então apanhaste-o, hein! Caiu o 
lobo na ratoeira finalmente. Já não era sem tempo. 
Ainda bem, agora estás descançado. 

— Isso de descançado é um modo de dizer ; quem 
tem casa, tem cuidados. Mas é que o caso ainda não 
está limpo. 

— Como não está! Tu agora, já se vê, que o tra- 
zes prezo, para o entregares á justiça. E' o que tens 
a fazer, eo que te convem para escarmento d'outros. 

— Pois ahi é que bate o ponto. Elle cairá nos fer- 
ros d'el-Rei, mas nanja que eu lh'o vá entregar! 

— Então porque?! E” teu amigo, teu parente, ou 
tens medo d'elle ? 

— Não é nenhuma d'essas coisas — nem amigo, 
nem parente, nem medo. Eu lhe digo, compadre, 
como o caso se passou. 

E o Manuel Jaleco narrou, com todos os pormeno- 
res, os incidentes do lance, a que o leitor já assistiu, 
até ao ponto em que o desconhecido se desmasca- 
rou, dizendo quem era. Ao ouvir o nome do Simão 
Contrabandista João André abriu muito os olhos, e 
deu um assobio muito prolongado. 

— Conhece-o, compadre ?— perguntou o Jaleco. 

— Se conheço! Isso é um meninó! Não é só con- 
trabandista, é matador! 


234 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


— Bem sei. Elle contou-me tudo. Como já não 
tem nada a perder, veiu dizendo-me, pelo caminho, 
como tinha sido a morte que fizera, e outras coisas, 
que até me metteram tristeza. E tanto é que eu mu- 
dei de tenção, e venho pedir-lhe para lhe fazer o 
curativo, e depois elle que fuja, que se vá com Deus, 
ou com Satanaz... 

— Tu estás doido — Manuel! 

— Não, senhor, nunca estive mais em meu juizo. 
Mas entregal-o eu ú justiça, isso é que nunca! Juro- 
lhe por alma de meu pae, que Deus tem. Nunca tal 
farei ! 

Assim como ha almas essencialmente perversas, 
ha outras essencialmente boas, tão inaccessiveis ás 
suggestões do mal, que não ha no mundo força ca- 
paz de as fazer desviar uma linha do trilho do bem. 
Aos que são assim, ainda quando não receberam 
educação de especie alguma, parece que a virtude 
os illumina, e lhes desfaz os sophismas tenebrosos 
com que, ás vezes, o vicio veste e encobre, aos olhos 
dos simples e dos ignorantes, os actos mais torpes, 
os crimes mais hediondos! Manuel Jaleco era um 
destes homens sinceros, honrados, absolutamente 
bons. 

O doutor André olhava para elle espantado. Nunca 
o julgara capaz de o impressionar, a elle! 

— Anda cá, homem. Então esse salteador entra 
na tua casa, insulta-te, tenta matar-te, e matava-te, 
se tu não fosses mais valente do que elle; e agora 
tu, depois d'isso, e de saberes pela sua propria bôca 
que elle anda fugido por uma morte que fez, queres 


RD 
Ro 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 255 


dar-lhe fuga! E" extraordinario isso, que queres fa- 
zer! Não, não estás em ti, Manuel. Eu curo-o, va- 
mos já a isso. Onde está elle ? — E João André levan- 
tou-se. — Curo-t'o, mas, depois de curado vae para 
a cadeia. Olé, que vae! Do ceu lhe venha o reme- 
dio. 

— Desculpe o compadre o eu não respeitar a sua 
palavra honrada, mas eu... mas a mim parece-me 
que seria o mais reles, o mais vil dos homens, se 
fosse entregar o Simão áà justiça! Foi elle que se 
veiu metter nas minhas mãos — não fui eu que corri 
sobre elle. Eu não sabia nada da sua vida, foi elle 
que m'a contou... E eu hei de ir accusal-o, e dizer: 
Aqui está o homem, que matou: —prendam-n-o?! E 
elle vae para a Africa por toda a vida, e os filhos, 
que elle tem quatro como eu, ahi ficam aos paus, 
sem culpa nenhuma, a pedirem esmola, mais a mãe, 
cheios de fome!... Não, senhor, eu não quero ficar 
com um peccado na consciencia... deshonrado para 
toda a vida! Não. O meu compadre ha de me fazer 
este favor. E' um favor que faz à minha alma... 
Não sei se me entende... porque, se tal acontecer, 
eu sou uma alma perdida!... Se tal me acontecer, 
olhe, meu rico compadre, elle a ser preso, e eu air 
a Quadrazaes á busca da mulher, e a trazel-a, mais 
os filhos, lá para casa. São cinco bôcas a mais, mas, 
paciencia, ha de haver uma fatia para todos. E não ha 
nada como o socego da nossa alma! 

— Dá cá um abraço, Manuel. Ainda ha homens... 
— e João André voltou a cara, para esconder a com- 
moção. — Eu bem sei que és capaz de o fazer, mas 


236 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


não ha de ser preciso. Vamos lá ver o homem — 
e, depois d'uma pausa, o doutor acrescentou: — Sem- 
pre te digo que elle saltou na,tua quinta com o pé 
direito... Deu comtigo, porque, se fosse com outro, 
a estas horas estava abacellado. 

— E que eu tinha-o já na frente, e ainda me es- 
tava a lembrar da sua recommendação: — Olha, 
Manuel, não mates o homem. 


IX 


O doutor estava aturdido. Emquanto fazia o penso 
da fractura olhava attentamente ora para o ferido, 
ora para Manuel Jaleco, mas quando fitava este era 
de soslaio, e nos seus olhos lia-se o espanto e a ad- 
miração. — Que homem! pensava elle comsigo. 

Terminada a operação, que era simples, voltaram 
para almoçar. Nunca os guisados sem pretenções da 
sua cosinha provinciana tinham parecido a João An- 
dré tão saborosos, e o cavaco dos melhores conver- 
sadores dos hoteis de Lisboa e do Porto achava-o 
pallido ao pé do modesto e familiar dialogo, travado 
com o.seu conviva. 

A” despedida o doutor pegou em meia duzia de 
charutos : 

— "Toma lá. E tua mulher, quando te vir de cha- 
ruto na bôca, pode dizer-te, sem mentir, que são 
fumaças de valente! 

— Adeus, compadre. E' o melhor dia da minha 
vida este. Quando entrei aqui trazia o coração pe- 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 257 


quenino como isto. Obrigado, muito obrigado — e 
abraçou-se ao outro, & chorar. 

D'ahi a pouco os jornaleiros que se cruzavam com 
elle, e que o viam bem montado, ao lado do seu 
carro, de charuto na bôca, rosto alegre, saudan- 
do-os, e cantarolando pela estrada fóra, diziam uns 
para os outros: 

“E o Jaleco. Amanha-se bem. 

— Ora, aquilo vae num sinol] 

-- Bom negocio fez elle. Vac cantando! 

Não fôra bom negocio, foi mais do que isso, foi 
uma boa acção. 

“Quando chegou a casa, Maria Domingas, que O 
esperava anciosa, apenas de longe o viu, correu para 
elle. 

E tam principiava a estar com cuidado em ti... 
E então... ficou preso 

— Não o entreguei á justiça. Mudei de tenção. Lá 
o deixei nas mãos do compadre —€ Manuel fez um 
signal á mulher. 

D'ahi a pouco, na adega, Maria Domingas ouvia 
da bôca de seu marido a narrativa da vida do con- 
trabandista, como este lh'a contara, e todos Os mais 
pormenores do que se passara naquella manhã. 

— E agora, depois de curado? perguntou ella. 

E Que fia Nque procure a sua vida. O resto é 
com elle e com Deus, que é Pae de misericordia 


A corda do enforcado 


Ao dr. Trindade Coelho 


— Então —ha novidade ? 

— Nada, tudo em paz, mestre João. 

— Pois, senhores, sempre lhes digo que ha muitos 
annos a esta parte não se faz aqui uma festa, que 
vá até ao fim, como esta tem corrido! E está ahi O 
poder do mundo !—Bons caminhos, o tempo é como 
se vê — uma lindeza, que até mette gosto andar pelo 
campo! Os milharaes e as vinhas estão, que é um 
louvar a Deus! Isto assim dá alegria á gente, e en- 
tão veio tudo á festa. Nem ha rasão para o contra- 
rio. 

— Inda é influencia do tempo este socego — mes- 
tre João — observou pausadamente o sr. Joaquim do 
Giestal. Estão ahi todos os pimpões d'esses logare- 
jos, e gente de mais longe, que eu até nem os co- 


240 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


a 


nheco! Cada garimpo! E raparigas então! Mocetonas 
de verga alta, vestidas e oiradas a preceito! Algumas 
vi eu agora, que, quando não tenham mais nada, o 
que trazem em cima de si é já uma boa folha, para 
um rapaz de porte se governar. O meu José lá es- 
tava de conversa com uma. Eu bem o vi, mas fiz 
que não. Que elle para alli não vae mal guiado. 
Toda ella era oiro! Arrecadas, aos pares, em cada 
oreiha; cordões assim ás voltas, e grossos; corações, 
alguns tres; e cruzes muito bonitas — duas pequenas 
e uma grande! É tudo aquillo se via que era novo. 
— Dinheirinho fresco.. Umas partilhas de ha pouco. 
É filha de lavrador. O pae dizem que deixou um 
casão ás filhas, que são duas. Foi o que me disseram. 

— De forma — disse mestre João — que a você 
tambem lhe não vae mal na festa, faz negocio — 
sem comprar, nem vender: emprega o seu filho. Elle 
tambem merece-o — que, sem offender ninguem, é 
um rapaz como uma flôr. 


—Mal me fica dizel-o— mas lá isso é. E apesar. 


de ter aquelle corpo, e ser homem ás direitas, 
olhe que nunca me faltou ao respeito. Nem a mim, 
nem à mãe, que Deus haja. Ainda não me deu um 
desgosto como isto. E com o pollegar o Joaquim 
apontava a cabeça do dedo minimo. 

— E verdade, é verdade — disseram os que esta- 
vam presentes na loja do mestre João — o regedor 
— no largo, em frente da egreja. 

— Eu tambem os ouvi hontem, sr. Joaquim. — 
Lá estavam ao desafio. E mais é que ella, sobre ser 
bonita cachopa, canta bem. D'aquella pode-se dizer 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 241 


que se o peito é d'oiro, a garganta é de prata. E 
lindas cantigas, que ella tem no registro! Ainda me 
lembra esta: 


Descei, anjos! Descei, anjos! 
Vinde poisar no Calvario! 
Vinde cobrir com as azas 

a Senhora do Rosario! 


Ora a festa é á Senhora do Rosario, e então já 
vêem como a cantiga vinha á justa. E todas eram 
assim, finas, como esta. Aquillo juntou-se alli gente, 
que, se caisse um alfinete, não caía no chão. 

— É o amigo Silva apanhou-lhe logo a cantiga, 
Não fosse você tambem cantador. 

— Aprendemos uns com os outros. Isto não anda 
nos livros, e então vae de outiva. Quem mais e me- 
lhor ouve, mais sabe. 

Mestre João, que, sentado na sua cadeira, dentro 
do balcão, presidia a esta academia rustica, era o 
regedor da terra. O sr. Joaquim do Giestal, que 
voltara da sua ronda pela feira, exercia as funcções 
de cabo geral. Refrescara-se com um copo de vinho 
verde, e sentara-se tambem. Os outros socios esta- 
vam de pé, encostados ao balcão e ás portas. 

Proprietario, lavrador e logista —o digno funccio- 
nario era das pessoas mais gradas do logar, e por 
todos estimado. Quem o visse com a sua barba ainda 
negra, espessa e crescida, grandes sobrancelhas, as 
mãos fortes e cabelludas, e a voz grossa de baixo 
profundo, tomal-o-ia por um Ferrabraz de respei- 


to, mas todos affirmavam que era a bondade em 
16 


242 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


pessoa. Apenas alguns, dos que lhe faziam opposi- 
ção nas eleições, diziam que elle, quando moço, se 
pegara um dia com um dos valentes do logar, o des- 
armara, e deitara por uma ribanceira. Outros affir- 
mavam que não, e eram invenções dos seus inimigos 
politicos. 

Tudo podia ser— que os homens bons, quando 
teem força, e os provocam, fazem como os outros 
— saem dos seus eixos e dam para baixo. 

De poucas palavras, isso era elle. Mas havia uma 
phrase, que lhe andava sempre na bôca: era esta 
— Tempos calamitosos! 

— Tempos calamitosos! — costumava elle dizer, 
à mais leve sombra, que surgisse no seu horizonte 
de homem, de lavrador ou de auctoridade. 

Tornar-se-ia uma alcunha, e moeriam-n-o com ella 
os seus adversarios, se fossem seus inimigos pes- 
soaes; mas a verdade é que elle não os tinha, e d'ahi 
a dicacidade sertaneja não repara em coisas tão pe- 
quenas. Mestre João ouvira aquellas palavras a um 
candidato a deputado, discorrendo deante dos seus 
eleitores —e, como o orador as repetira varias vezes, 
deram-lhe no goto, e elle guardou-as, e recorria a 
ellas nos casos graves. Eram o seu bordão. 

Transbordava o Mondego, inundavam-se os cam- 
pos; faltavam as chuvas, e morria o gado á sêde; 
caía o ministerio, que era da sua politica; chegava- 
lhe a noticia d'algum motim eleitoral numa terra vi- 
sinha; afundava um temporal duas ou tres lanchas 
poveiras; vinha algum destacamento, que elle tinha 
de aboletar. .. Tudo isto elle commentava com a sua 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 245 


phrase, dita lenta e melancolicamente, umas vezes 
com as mãos assentes, e espalmadas sobre os joe- 
lhos e a cabeça um pouco pendida para o chão, ou- 
tras, erguendo os olhos, como invocando a assisten- 
cia divina para tamanhas desgraças! 

— Tempos calamitosos! 

A phrase era sempre a mesma —a voz e os ges- 
tos é que variavam. Se tantos oradores e regedores, 
grandes e pequenos, fossem tam parcos de rhetori- 
ca, tam concisos na eloquencia... 

O dialogo cessara, fizera-se silencio na illustre as- 
sembléa; a conversação carecia d'algum novo ali- 
mento, que lhe desse forças para proseguir, quando 
de fóra soaram, ao longe, uns clamores agudos, tre- 
mulos, e entrecortados, como de quem, afílicto, vem 
correndo e gritando!... 

E outros, e outros... Vinham-se approximando. 

Saíram todos á rua, e a gente das casas visinhas 
assomou ás janelias, debruçando-se, com os olhos 
agudos da curiosidade. O povo da feira accorreu 
tambem. 

Era a Mariquinhas, a Russa, a filha do Domingos 
da Azenha. E com ella mais gente. 

— Acudam! acudam! Um ladrão, lá em casa!... 
clamava ella, endireitando a carreira para a loja do 
regedor.. 

Foram-lhe ao encontro os que alli estavam. 

— Então o que é isso, pequena? — perguntou 
mestre João. O que é? 

'— Um ladrão enforcado, lá em casa! Venham cá, 
venha cá, ó sr. João! -- E a rapariguita, com os olhos 


244 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


das 


desvairados, e offegante da corrida, levou as mãos 
enclavinhadas quasi á cara do regedor. 

— Vamos lá. Vamos — disse elle. Mas o que é? 
Dize-me, Mariquinhas ! 

Ella, sem responder, voltara costas, partindo, a 
gritar como louca, pela rua fóra: 

— Que desgraça na minha casa! Acudam! Acu- 


dam! 


Quando mestre João chegou á porta do Domin- 
gos da Azenha, e ia a entrar, estacou de repente. 
Os que o acompanhavam fizeram o mesmo. 

— Jesus! — disse elle, abrindo os braços, com as 
mãos levantadas, no gesto de quem repelle alguma 
coisa, e recuando. 

— Jesus! O que é? E o Domingos?! repetiam e 
perguntavam, no povoleu, os que não viam a causa 
do espanto do regedor. 

Ao meio da casa de entrada, d'uma das traves do 
tecto, pendia, suspenso no ar, um grande vulto. A 
quadra era grande e escura, e de fóra para dentro 
não se via bem, mas mestre João affirmara-se, e vira 
que era com effeito um homem enforcado. 

— Não é o Domingos. E quem é morreu agora 
— disse elle, voltando-se para os outros. 

As ultimas contorsões da morte acabava de as 
vêr, e por isso recuara. 

Suspensos deante do extranho e sinistro especta- 


, 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 245 


culo, ninguem se atreveu a entrar, e nos primeiros 
momentos ficaram todos em frente da porta, olhando 
para dentro, immoveis como estatuas. 

Os gritos da Russa e a presença da auctoridade 
chamaram logo alli toda a gente, que os ouvira. 

— O que é, tia Maria? 

— O que foi? 

— Mataram o Domingos! respondeu um. 

— Nada, não. Enforcou-se elle-— emendava ou- 
tro. 

— Porque seria ? — insistiam as curiosidades, agu- 
cadas já para os pormenores. 

— Não se sabe — disse um terceiro, com ares gra- 
ves, dando o caso já por certo. 

E assim iam os curiosos e alvicareiros discreteando- 
de grupo em grupo, ouvindo, inventando, e espa- 
lhando dislates e mentiras — como é de uso tambem 
nas grandes cidades. 


Ao longe ouvia-se o som grave do bombo e as 
notas agudas e sibilantes d'uma gaita de folles, re- 
boando nas quebradas da serra fronteira, e pela 
estrada vinha um rancho para a festa, cantando a 
Farrapeira. 

— O" ai! O” ai! 


Quem 'scorrega, tambem cae ! 


246 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


Uma choréa rustica, alegre e ruidosa. 

Elles — os rapazes — com os grandes chapeus bra- 
guezes, ornados de enormes borlas de torçal preto, 
camisas de preguinhas, algumas com botões de pra- 
ta, jaquetas de alamares, largas cintas vermelhas, 
amarellas, pretas, azues, verdes; outros de barretes, 
tambem de côres variegadas; todos de sapatos bran- 
cos com os seus pespontos vistosos, e grandes ca- 
jados, com as ponteiras brilhantes como oiro. Nos 
de mais edade as côres eram neutras, fazendo des- 
tacar aquelles tons vivos e crus, que, como os d'um 
kaleidóscopo, remoinhavam na dança. 

Ellas — com as suas camisas bordadas, os corpe- 
tes justos, apertados na cinta, e avivados de côres, 
com botões de metal luzente — contornando-lhes os 
bustos fortes e elegantes; as satas rodadas e curtas, 
as meias brancas, as chinelitas de bico revolto, a 
meio pé, e na cabeça o chapelinho, á lavradeira, 
sobre garridos lenços de ramagens, que, na desen- 
voltura dos movimentos, ora cobriam ora descobriam 
os rostos morenos e rosados, d'onde lhes saltavam 
os olhos alegres e buliçosos. Olhos peninsulares, 
olhos de vinte annos, que, na sua viveza, faziam 
concorrencia vencedora ao esplendor das arrecadas, 
aos grandes corações de filigrana e d'oiro batido, e 
ás côres estrellantes dos lenços, que esvoacavam! 

Sobre esta symphonia polychroma, desordenada 
nos pormenores, mas harmoniosa no conjuncto, des- 
tacavam — como uns pizqicatos, cheios de esponta- 
neidade e de frescura — as vivas notas coloridas das 
flôóres do campo, com que elles e ellas pelo cami- 


, 
CAÇADAS PORTUGUEZAS 247 


nho tinham enfeitado as cintas, o peito e os cha- 
peus. 

E queimados do sol, affogueados, o suor em ba- 
gas, e cheios de pó, vinham a cantar: 


Menina, chegue á janella, 

já que varanda não tem: 

venha ver o seu amor, 

se é algum dos que aqui vêm. 
— O ai! ó ai! 

Se é algum dos que aqui vêm. 


Aquella gente, alli reunida á porta da casa, deu- 
lhes rebate de bailarico e o pittoresco bando parou. 

— O que é?—perguntou o da viola, o da frente 
— um rapagão como uma torre. 

— Diz que é um morto, que se.enforcou! — repli- 
cou-lhe o cantador, que veiu espreitar e era gracioso. 

— Ah! Arreda-te, João! Vae-te, Maria! — E siga 
o rancho! 

E lá se fóram, pela estrada fóra, dançando e can- 
tando : 


A viola vae na rua: 
perto vem o tocador! 
Menina, chegue á janella: 
venha vêr o seu amor ! 


E as vozes altas e argentinas das raparigas, vi- 
brantes, já longe, repetiam: 


OFai! O ai! 
Venha vêr o seu amor ! 


248 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


O! 


A filha do Domingos da Azenha entrara, sem he- 
sitar, e sumira-se no interior. Era animosa a peque- 
na. Fôra dar uma volta pela casa — não se tivesse 
lá mettido alguem, emquanto ella foi chamar soc- 
corro. 

Mestre João, depois de falar com o seu cabo ge- 
ral, entrou, descobrindo-se. Atraz d'elle seguiram to- 
dos, deixando no meio, em volta do morto, um es- 
paço livre. Era o natural respeito pelos mortos, e a 
idéa do crime, o que os aftastava do sinistro vulto 
do enforcado. 

Alguns, mais atrevidos, correram os quartos todos, 
como em busca da explicação d'aquelle mysterio. 
Com effeito o caso era para fazer pensar! Um ladrão 
enforcar-se na propria casa, que queria roubar!... 
Nunca se vira tal coisa! E em testos rijos, como 
aquelles, não entrava facilmente a possibilidade de 
semelhante tragedia! 

Esquadrinhados todos os recantos, voltaram e es- 
tacaram deante do morto, olhando ora para elle, ora 
para o regedor, ora para a Mariquinhas, que, ainda 
soluçando, estava a um canto, encostada à arca, so- 
bre a qual se via uma grande faca. 

Mestre João sentara-se, percorrendo com os olhos 
a casa, e encarando attentamente o enforcado — 
que elle já reconhecera. Depois levantou-se, e, como 
para tirar duvidas, foi ao pé delle, e examinou-o de 
perto. 


o 
CAÇADAS PORTUGUEZAS 249 


— E elle, é. Está disfarçado, mas bem se conhece. 
Cortou a barba, encarvoou-se, e amarrou um lenço 
aos queixos. —Enganou a pequena, mas a mim não 
me embacava. 

E terminado este monologo interior, chamou o fiel 
Joaquim e disse-lhe em segredo: 

— É' o José Tanoeiro. Mas como elle arranjou este 
par de botas para ir para o outro mundo, é que eu 
não posso atinar! 

— Elle sempre foi má rez. E por isso veiu corrido 
lá de Villa Nova de Gaia — disse o cabo geral. —Que 
elle não é nascido aqui. Má rez — sim, mas não era 
tolo. Ahi já se rosnava d'elle, « eu, cá por coisas, 
trazia-o já de olho. 

— Vamos lá ouvir a pequena — disse alto mestre 
João. — E o sr. Joaquim tome note das respostas 
della, e os senhores presentes sejam testemunhas. 
Que eu disto lavrarei auto — cá para meu gover- 
no — auto que os senhores assignarão como soube- 
rem. 

— Ora anda cá, menina, e agora, que já estás 
mais socegada, conta-nos como foi isto tudo. Eu quero 
saber tudo, desde o principio. E quem é este ho- 
mem, se tu o conheces. Em fim tudo — que é para 
eu dizer á justiça, e tu descançares, e teu pae 
não ter trabalhos — porque, no fim de tudo, o que 
nós vemos, por agora, aqui, é um homem morto 
em tua casa, e então é preciso sabermos como isto 
foi. 

E depois d'este preambulo, que não foi ciceroni- 
co, mas que todos entenderam, fez-se silencio. 


250 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


A “Russa saíra do seu canto, e já estava em pé 
defronte de mestre João. 

— Eu vou dizer como foi. Ao principio não o co- 
nheci... 

— Ão principio? — observou o regedor. Isso as- 
sim parece-me que não vae bem. 

— Sim, senhor, ao principio —repetiu ella. Por- 
que elle trazia a cara tapada, e falava com outra 
VOAUSA 

— Mas olha, menina, ha de haver outro princi- 
pio antes d'esse. 

— Desculpe o sr. João. — Eu ainda não estou bem 
em mim. Dá-me assim baques a cabeça... Parece- 
me que me falta o ar! Mas eu conto... Eu vou con- 
tar tudo desde o principio. 

Quando meu pae, hoje de manhã cedo, foi para 
a azenha, levou a espingarda, e disse-me que não 
abrisse a porta a ninguem, e que, se elle matasse 
alguma perdiz na serra, m'a mandava cá, ou vinha 
elle trazel-a, mas que o mais certo era mandal-a. 
E foi-se, repetindo-me: Tem cuidado com a porta. 
Parecia elle que adivinhava! Eu creio que elle andava 
desconfiado d'alguma coisa, porque já não saía de 
casa sem a arma... 

Ha pedaço, estava eu lá dentro, senti mecher na 
porta, e perguntei, mesmo de lá, quem era. A voz 
que me respondeu, pareceu-me a do Cabaca, que é 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 251 


o guarda lá da azenha: vim e abri. A porta veiu 
logo para dentro empurrada, entrando aquelle ho- 
mem, que eu não conheci. Deitou logo a mão á 
chave e, dando a volta, tirou-a e metteu-a na algi- 
beira... Imaginem como eu fiquei! 

— E depois? 

— Depois perguntou-me, com a tal voz fingida, 
onde é que meu pae tinha o dinheiro. 

— Meu pae não tem dinheiro — respondi-lhe eu. 

— Tem, sim. Tu é que não tens amor á vida! — 
e puchou d'aquella faca, veiu para mim, e agarrou- 
me. Como eu gritei, segurou-me com mais força e 
ameaçou-me de me matar logo, se eu não lhe dis- 
sesse a verdade. 

Eu estava aqui só com elle — ninguem me acu- 
dia... Elle esfaqueava-me!... Que havia de fazer? 
Disse-lhe onde estava o saquinho com o dinheiro — 
lá em cima, no sotão, que tem uma janella, que dá 
para o quintal. 

Não me deixou lá ir só, e foi comigo. Como sa- 
bia os cantos á nossa casa, teve medo que eu fugisse, 
e chamasse gente. E mais é que não se enganava. 
Elle vinha mascarado, mas pela voz é que eu, lá 
em cima, desconfiei quem elle era. E a chorar dis- 
se-lhe assim : 

— Ora como o visinho tem animo de fazer isto 
a meu pae! 

— Ah! tu conheces-me?! — voltou elle, com uma 
cara muito feia, e a voz assim sumida... 

— Conheço, sim, senhor. 

— Conheçes! Vê o que dizes!... 


252 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


E eu, toda a tremer, ficou-me aqui a voz presa, 
e puz a cara no chão. 

Já estavamos cá em baixo — alli, áquella porta — 
e a “Russa apontou para a porta interior. Elle não 
tinha largado a faca da mão. Agarrou-me pelo pes- 
coço, e com uns olhos assim, que lhe saltavam da 
cara, diz-me : 

— Como queres tu morrer ? 

— Com a faca não! Não! — gritei eu. 

— Não grites, que ninguem te acode. Vaes então 
morrer enforcada. Uma corda! Vae buscar uma 
corda. 

— Não sei onde está. 

Apezar do medo grande, eu ia-lhe respondendo. 
Queria viver.... 

— Olha, está alli uma naquelle prego —e foi bus- 
cal-a. 

— Ai! senhores, de que eu escapei! Foi Nossa 
Senhora que me valeu !... E num instante fez um 
laço, e, subindo áquelle banco, armou-o na trave, 
puchou por elle com força, e chamou-me, que lhe 
segurasse o banco. É quando eu lh'o estáva segu- 
rando, e tremia como varas verdes, o malvado diz- 
me assim, com uma cara... Ai! sr. João, eu ainda 
isto me parece mentira! 

— Mas o que te disse elle ? 

— Que queria experimentar, ver se o laço corria 
bem, para não fazer doer... 

— Que grande malvado! O patife, ainda em cima, 
estava a mangar comtigo! 

— É vae, metteu elle a cabeça no laço... 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 253 

— E depois ? — perguntaram todos, que iam acom- 
panhando, com os olhos attentos na rapariga, a nar- 
rativa. 

— Depois, não sei como foi... Eu não lhe segu- 
rava já o banco, que lhe fugiu dos pés .. E elle fi- 
cou assim no ar!... Eu, quando o vi a dar com as 
pernas, e com as mãos agarradas ao pescoço, corri 
ao sotão, saltei para o quintal, e de lá deitei pela 
estrada fóra, a gritar... 

— Porque não foste por esta porta ? 

— Não, senhor, que elle tinha mettido a chave na 
algibeira. Eu já disse. E ella lá ha de estar, mais 
o dinheiro. 

— Mas ella estava aberta... 

— E que a arrombaram, depois de eu sair d'aqui. 

— Então tu não o ajudaste a bem morrer 2... Dize 
lá! Tu serias capaz de lhe puchar pelas pernas, ven- 
do-o alli seguro, hein? — E mestre João fitava os 
olhos da Russa, a ver se descobria nelles a confir- 
mação da suspeita, que lhe passara pelo espirito. 

— Eu! senhor João! — respondeu ella, com o olhar 
espantado, e um ar de medo e pasmo. E recuando 
deu um grito, e caiu no chão, escondendo o rosto 
nas mãos convulsas. 

Correram a levantal-a. 

e — Ainda está vivo! — gritava ella, debatendo-se 
espavorida, apontando para o morto, que balouçava 
no ar. 

— Foste tu que lhe deste com as costas, quando 
recuaste. Socega, pequena, que elle está morto e bem 
morto. Tirem-n-o d'ahi, e ponham-n-o aqui no chão. 


254 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


O José da Magdalena — disse o regedor, apontando 
para um dos presentes — é que fica de guarda á 
casa, e vam avisar o Domingos de que tem cá um 
hospede, e que, se matou a perdiz, ha aqui quem 
lh'a ajude a comer. E vamo-nos embora, que esta 
estava-nos guardada para o fim da festa! 

— E o dinheiro de meu pae, que elle tem alli na 
algibeira? — perguntou a Russa. 

— Já lá vamos, menina. Tu sabes quanto era? 

— Eu não, senhor. . 

— Então vae-se vêr. Dá-m'o cá. 

— Eu! — disse a pequena, toda encolhida. — O 
senhor José... 

— José, dá-m'o tu. 

— Vamos lá, que o ladrão tinha faro! Olé, se ti- 
nha... Tem seu peso — observou o José, sopesando 
o saco, quando o tirou das algibeiras do morto. 

Os que estavam alli fitaram os olhos no thesou- 
ro, que passara ás mãos de mestre João. O regedor 
vasou-o em cima da arca, e contou para si o di- 
nheiro. Depois do que tornou a mettel-o no saco, 
que atou muito bem, e, abrindo a arca, deixou-o 
cair dentro e fechcu-a. 

— Agora fica aqui. O que tu dirás, José, ao tio 
Domingos, quando elle vier. E cá levo a chave da 
arca. Tu tens medo de aqui ficar? ! Estás assim coma 
cara de gallinha cosida! Todo arripiado ! ; 

— Se lhe parece que o caso não é para isso, mes- 
tre João! 

— Olha lá. — Como a casa tem saída pelo quintal, 
que fique outro de vocês de guarda ás trazeiras. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 255 


Manda lá o teu filho — que isto tem pouca demora. 
O Domingos não deve tardar. 

— Mariquinhas —tu ficas? Ou queres vir comigo, 
e voltas quando vier teu pae ? 

— Eu vou com o senhor João, se me faz favor. 

E a “Russa, ao responder, apontava com os olhos 
enviezados para o cadaver, que jazia a um canto, es- 
tendido no chão, e fazia-lhe com as mãos um gesto 
“de repulsão e affastamento. 

— E tens razão, pequena— confirmou o regedor 
— que elle, valha a verdade, se em vida não era bo- 
nito, agora parece o diabo! Cruzes, canhoto! 


Na aldeia já vagamente se sabia do acontecido. 
Um ladrão enforcado! — diziam todos, e discorriam 
ácerca do extranho facto, que para elles tinha ares 
de mysterioso. 

Quando chegou mestre João rodearam-n-o logo. 
Elle, depois de tomar o seu posto habitual, esten- 
deu as largas mãos sobre os braços da sua grande 
cadeira, —que já fora de conegos — e percorrendo 
com os olhos o numeroso auditorio, que até á porta 
lhe enchia a loja, — chamou a Mariquinhas, e man- 
dou-lhe contar a historia. 

— Então é ella quem conta! —observou, em voz 
baixa, o sr. Manuel Esteves — um dos da opposição 
da terra. 


256 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


Mestre João ouviu, e, voltando-se para o lado 
d'onde partira a censura, disse: 

— Eu quero que seja ella quem fale aqui deante 
de todos, porque dos dois, que entraram neste caso, 
um já não fala, e ainda que falasse era suspeito: resta 
a rapariga. Eu já a interroguei lá, no local do crime, 
e já fiz a minha idéa. Mas é preciso tambem que os 
senhores a ouçam. E eu tambem quero ficar sem a 
sombra d'uma duvida acerca do modo por que aquillo 
se passou. Como regedor tenho de dar parte do caso 
ao senhor administrador do concelho e ao senhor 
prior da freguezia — aqui mestre João fez um apausa 
respeitosa. — Quero por isso estar bem certo do que 
lhes tenho a dizer. Agora dize tu, Mariquinhas, como 
tudo se passou. Estes senhores, que são todos ami- 
gos de teu pae, teem muita vontade de te ouvir. 


Terminada a narrativa, a assembléa lá -se sasedrida 
lentamente, impressionada pelo tragico aconteci- 
mento, e admirando, ao mesmo tempo, o sangue 
frio da rapariga, que, em tão apertado lance, não 
perdera de todo a cabeça, e procurara defender o 
dinheiro do pae, e a vida, tão sériamente amea- 
cada! 

Nas fileiras da opposição fizera escandalo o gracejo 
do regedor, quando se referiu ao hospede, que o Do- 
mingos vinha achar em casa, para o ajudar a comer 
a perdiz. Um horror! O Esteves, quando o soube, 
foi logo contal-o ao Gonçalves, e este passou-o ao 
Tavares da Gallinheira — antigo regedor — que o as- 
sentou no caderno das accusações, que elle havia de 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 257 


fazer valer eontra o mestre João, quando o seu par- 
tido subisse ao poder. 

O da Gallinheira — alcunha que lhe viera da mãe 
— ao ouvir a historia, olhou para o seu compadre 
Silva, e, piscando o olho, replicou-lhe : 

— Não me admira. Elle sempre foi leve de lingua 
e de mãos... 

O rival vencido e despeitado alludia maliciosa- 
mente ao caso da ribanceira. 

— Sim, sim — confirmou o outro, com tom sen- 
tencioso. Nestes logares tem a gente obrigação de 
medir as palavras. IL com os mortos não se brinca. 
O nosso prior tambem não ha de gostar, quando o 
souber. 

— E naturalmente não ha de tardar muito. Eu 
vou lá agora, e já vou encontrar a novidade, aposto. 
E vou, porque tenho que falar com elle por causa 
duma certidão. 

Estas ultimas palavras disse-as o Esteves por dis- 
farce. O unico motivo que o levava a procurar o 
prior, era informal-o do escandaloso procedimento 
do regedor. Não podia perder uma occasião tão 
azada para o intrigar. 


Mestre João, quando se viu só na loja com o 
Joaquim do Giestal, depois d'um silencio d'alguns 
minutos, em que esteve de certo mergulhado em 

io 


258 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


tétricos pensamentos, suspirou, levantou os olhos ao 
alto, e exclamou: 
“— Joaquim, Joaquim! Tempos calamitosos 

— Desculpe eu contradizer a sua palavra hon- 
rada — replicou o outro —mas o que devemos di- 
zer neste caso, 'é que onde ellas se fazem, ahi se 
pagam! 

— E tambem é certo que Deus escreve direito 
por linhas tortas, estava eu cá pensando agora — 
acrescentou mestre João, levantando-se e pondo a 
mão no hombro do Joaquim. 

— Como assim? — perguntou 'o do Giestal, sem 
perceber o sentido das palavras do seu amigo. 

— Você não entende? Eu lh'o explico. Quando o 
homem se viu descoberto, perdeu a cabeca, e, se 
não acha uma corda alli á mão, era uma vez a Rus- 
sa! Elle degolava a pequena. Que a furia dos me- 
drosos é de temer! E nós tinhamos agua pela barba 
para darmos com o ladrão, com tanta gente, que 
ahi está de fóra! E foi este o calculo d'elle, apro- 
veitando esta occasião. No que se enganou, e tam- 
bem em julgar que ella não o conhecia, assim dis- 
“farçado. Mas o diabo cobre com uma manta, e des- 
cobre com um chocalho, e a Russa pescou o marau 
pela voz. Já se vê d'aqui, que, quem salvou a vida 
da Russa e o dinheiro do pae, foi a corda. Se ella 
não apparece alli elle matava e roubava!... E tal- 
vez se ficasse a rir da tropa! Assim, agora, ficou 
tudo como estava, e ha um ladrão a menos! Deus 
escreve direito por linhas tortas! — A linha aqui é 
a corda, que é tambem uma linha grossa e torta. E 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 2509 


agora — disse o mestre João, abrindo muito os 
olhos — vae você ouvir o final d'esta historia ! 

Hontem, por esta hora, estava eu aqui, quando 
entrou o Domingos, que havia muito que eu o não 
via. Vinha procurar-me cordas, de que precisava lá 
para a azenha. Escolheu, apartou duas, e experi- 
mentou-as. 

— Pode puchar por ellas — disse-lhe eu. E elle, 
que é forçoso, puchou. — Então servem-lhe ? 

— Se servem... Até para enforcar um homem! 

É, rindo-se, pagou e foi-se embora. 

Mal diriamos —-os dois — que o dito se tornaria 
verdadeiro, e que a corda, que eu lhe vendi, havia 
de ser—a corda do enforcado! 


Um oasis em Carnaxide 


Ao dr. Lucas Falcão. 


Andavamos, João Forjaz, eu, e outros, atirando 
ás perdizes nos arredores de Lisboa. 

Caçavamos em terrenos desconhecidos, abrazava- 
nos o calor, a sêde começara a torturar-me, e não 
viamos fonte alguma! Aproximámo-nos, portanto, do 
povoado, e, avistando uma quinta de bella apparen- 
cia, muros altos, e largo portão, dirigimo-nos para lá. 
A' falta de perdizes, que não encontraramos, iamos 
matar a sêde. E poderiamos tambem d'este modo 
sophismar agradavelmente a vergonhosa grade, que 
já nos ameaçava. 

O magestoso portão estava cerrado, mas, apro- 
ximando-me, senti o grato murmurio da agua cor- 
rente ! 

Um oasis no deserto, aquella vivenda, que alli se 
nos deparava! Uma verdadeira salvação — porque 


262 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


ainda que, em vez de Zacharias, eu me chamasse 
Moysés, e tivesse nas mãos a milagrosa vara, fal- 
tava-me o rochedo ! Ao perto e ao longe, quanto os 
olhos podiam alcançar, não viamos senão restolho e. 
calhaus:! 

Uma verdadeira desolação! Uma d'aquellas aridas 
paizagens do Oriente, que Loti nos pinta em quatro 
traços ! Faltavam-lhe só os camellos e os beduinos ! 
Mas se a sêde continuasse, quem sabe se nós che- 
gariamos ás allucinações da miragem, e então com- 
pletar-se-ia a visão, para alli transposta, do Grande 
Deserto! E veriamos camellos, beduinos, e tudo! 

A porta, com a sua grande argola e a alta e larga 
moldura de cantaria, tinha a assignatura do se- 
culo xvilt, € impunha respeito. 

Espreitei pela fechadura. Em frente, num espa- 
coso pateo, vi uma fonte, d'onde corria um largo 
jorro d'agua cristalina ! Levantei o argolão e bati, e 
ao creado, que immediatamente nos appareceu, pedi 
agua para mim e para os meus companheiros. Man- 
dou-nos logo entrar, facultando-nos a almejada lym- 
pha. 

Ao ruido da nossa entrada e á apparição dos in- 

“discretos perdigueiros, assomou á porta da magni- 
fica vivenda o seu proprietario. Reconheci-o logo: 
era o meu companheiro da barca da Azambuja. Re- 
conheceu-me elle tambem, e com este animo hospi- 
taleiro, tão nosso, convidou-nos a descançar, e tive- 
mos que lhe agradecer não só a deliciosa agua da 
sua fonte, mas a cerveja e as bolachas que, em se- 
guida, nos offereceu, levando a amabilidade ao ponto 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 263 


de nos apresentar á sua ex.”* esposa, patenteando- 
nos a sua residencia e o seu jardim. 

A milla cuja historia nós não conheciamos, é uma 
construcção do seculo passado. (!) Respeitada até 
aquelle momento pelos seus proprietarios, seria para 
mim uma agradabilissima vivenda. Largas salas com 
fortes paredes, revestidas todas, em volta, de altos 
azulejos, admiravelmente conservados. E o que mais 
lhes accentuava a data da fundação, e o ar antigo, 
era verem-se ainda ornadas de gravuras inglezas 
coloridas, contemporaneas dos seus fundadores. 

Se a casa nos transportava á edade d'oiro da co- 
lonia ingleza de Lisboa, quando, na companhia do 
seu amavel dono, entrámos no jardim, a illusão foi 
completa, e as ruas sombrias de murta, com os seus 
alinhados canteiros em curvas e rectas, tosquiados a 
regua e compasso; as estatuas mythologicas, osten- 
tando, nos recantos mais sombrios, a nudez dos seus 
marmores, já musgosos, aquellas Venus, a que as 
sinceras velhinhas de Nicolau Tolentino faziam me- 
sura e oração; e aquellas verdes mvurteiras, d'entre 
as quaes, 


Em suavissimos accentos, 
com segundas e primeiras, 
sobem, nas azas dos ventos, 
as modinhas brazileiras ; 


(1) Segundo nos disse, ha pouco, o nosso amigo comprou-a 
aos herdeiros d'um homem muito conhecido, em tempo, em 
Lisboa, pelo cognome do Agua de Inglaterra; cedendo-a de- 
pois ao hoje fallecido visconde de Moreira de Rey. 


264 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


evocavam-nos alguns dos personagens, que entre- 
vemos, tão bem desenhados, nas famosas cartas de 
William Beckford. Era aquella, decerto, uma das 
elegantes quintas, de que elle nos fala, em bellissi- 
mas descripções, e poderia bem ser a que inspirou 
as famosas quintilhas do nosso chistoso poeta. 

Um typo, um specimen este, admiravelmente con- 
servado dos symetricos jardins — estylo Luiz XIV — 
do classico Lenôtre. Uma espaçosa e encantadora 
vivenda, dominando um valle, que vae descendo 
suavemente, e, apertando-se entre accidentadas e 
graciosas collinas, deixa ver lá em baixo, ao fundo, 
o Tejo e os montes da Outra Banda. 

Maus conselheiros diziam ao doutor que fizesse 
surgir a arte moderna no logar d'aquella velharia ! 
Elle perguntou-me a minha opinião. O leitor ima- 
gina bem qual foi. 

Votei, votámos todos pela conservação do passado. 

Destruir um exemplar tão perfeito, como aquelle, 
e duma época tão caracteristica na arte dos jardins, 
quando elles, infelizmente, já são rarissimos entre 
nós, substituindo-o por uns canteiros rasos, pelas 
banaes corbeilles, que se encontram em todos os 
jardinzinhos e praças da cidade, seria um acto de 
iconoclastismo, altamente burguez e deploravel! E 
tanto mais digno de censura, quanto elle—o dou- 
tor— é um amador das artes, e, depois de cançar 
os olhos com a calygraphia arrevezada dos proces- 
sos, gosta de os descançar, na sua galeria, numa 
paizagem, numa scena; flamenga ou hollandeza, 
d'algum mestre dos bons tempos. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 265 


Saímos finalmente do oasis, e achámo-nos outra 
vez no deserto! — Restolho, e calhaus, e um sol de 
rachar! Valles e encostas, tudo o mesmo! Sombra 
nenhuma!... Nem mesmo... a das perdizes! 

Estava escripto — mais uma janella! Um dos 
meus companheiros, que era folgazão, dizia-nos que 
já viera de casa com ruim agoiro. Ouvira de noite 
ptar um mocho nos corucheus da egreja de S. Fran- 
cisco de Paula, e de manhã, logo ao sair, dera uma 
topada! E por isso não topámos nós com as perdi- 
ges! 

Mas, se eu de lá não trouxe caça, trouxe a im- 
pressão agradabilissima da minha imprevista visita 
ao meu amigo, o dr. Lucas Falcão; e verá aqui o 
illustre jurisconsulto, neste auto descriptivo, que a 
conservo tam fresca na memoria, como o era a agua 
da Nayade da sua bella casa de campo da Quinta 
de Cima de Carnaxide. 


Ed 


DOS AO AD Aa ADO APT SAND AD Sa SANDS ASSIS ADA SANDS ANDA ADA ADS AD 49H ado 
-———"— 


À a q PLLETII 


|) 


O final d'uma caçada 


A Gabriel Pereira. 
PROLOGO 


As duas historias, que figuram nesta narrativa, 
são ambas tradições da minha familia. José Nogueira 
de Araujo —o protagonista da scena da phantasma 
— era meu bisavô paterno. D'uma raça de gente brava 
e destemida, primo, creio eu, de Faustino de Sá No- 
gueira, avô de Bernardo de Sá Nogueira — o heroico 
marquez de Sá da Bandeira — vivia elle nos Bairros 
de Santarem, d'onde era natural, quando um acon- 
tecimento tragico, dos então muito frequentes na- 
quellas terras de brigões, o obrigou a sair de lá, 
indo estabelecer-se em Beja. Grande jogador de es- 
pada, e não sendo já novo, quando elle lançava a 
capa no chão, não havia alli quem o fizesse sair de 
cima d'ella! 

José Pedro, a principal figura, d'entre os cinco 


268 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


caçadores — José Pedro da Costa — falleceu ainda 
novo, em 1824. Primo e concunhado de meu pae, 
foi grande caçador. 

Esta historia, tão dolorosa e tragica recordação 
nos deixou, que só a minha irmã a ouvi, e a muito 
custo a repetia. Era extremamente devota, a boa se- 
nhora, e, no decurso da narrativa do caso nefando, 
lembro-me que, ás vezes, se benzia, como se o espi- 
rito mau lhe apparecesse alli, e ella o quizesse es- 
conjurar! 

Nós — eu e as outras creanças de casa — era exa- 
ctamente a que mais gostavamos de ouvir. E, com 
effeito, não tinhamos mau gosto. 


Era uma vez... Como isto se passou ha muito, 
pode a historia principiar assim. 

Era, pois, uma vez um caçador... Não, não digo 
bem — não era um, porque eram cinco os que anda- 
vam caçando, no Alemtejo —nas immediações de 
Moura, Ferreira, ou Serpa? Ao certo não o sei— 
se mo disseram, esqueci-o. Elles eram d'essas ter- 
ras, mas, para não mentir, nesta historia verdadeira, 
fica em branco o nome do sitio— que elle tambem 
pouco importa para o caso. 

Andavam, pois, cacando os bons caçadores, quando, 
longe de todo o povoado, os surprehenderam as som- 
bras da noite. Muita vez tal lhes succedera nas suas 
excursões, nem elles, habituados à vida fragueira, 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 269 


estranharam isso: eram cinco homens fortes e va- 
lentes, costumados a levantar e forçar os lobos e os 
javardos no covil, de dia e de noite, á faca e a tiro; 
mas tambem tinham, como os fracos, vontade de 
ceiar, e não lhes sorria de fórma alguma a perspe- 
ctiva de uma noite passada ao relento, observando 
a rotação dos astros. 

É iam caminhando, e não viam nada. Nem gente, 
nem vislumbre d'uma casa! 

E a noite ia crescendo, e em vão procuravam lo- 
brigar alguma luz, que os guiasse naquellas trevas. 
Nada viam. 

E applicavam o ouvido á terra, deitando-se no 
chão como os selvagens, a vêr se percebiam algum 
rumor, que denunciasse proximidade de gente viva. 
É nada ouviam. 

Tudo deserto, tudo silencioso, naquelles campos 
e charnecas! Nem viv'alma! E as trevas crescendo, 
e a noite avançando. 

É iam caminhando... 

Senão quando, lá ao longe, furando as trevas, 
appareceu-lhes uma luzinha, que ora brilhava, ora 
se sumia. 

— Olha além. Uma luz! 

— Estamos salvos! — gritou um. 

— Estamos salvos! — repetiram todos. 

— Em boa hora o digamos — disse José Pedro, 
o mais velho dos cinco. | 

E estugaram o passo os bons caçadores. 

Eis que lhes apparece um vulto. 

Era uma velhinha. 


270 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


— Tiasinha, guarde-a Deus. 

— Que Deus os guarde, senhores. 

— O que ha naquella casa? 

— Mau couto para caçadores. 

— Vá de brincadeira. Não é o sitio azado para 
outeiros. Vocês parece que estão a fazer versos! 
Mora gente alli? — perguntou José Pedro. 

— Morava sim, senhor. Era o Luiz Preto, o guarda 
—mas agora não está lá ninguem vivo. 

— E aquella luz? 

— Está-o allumiando, que elle morreu hoje. Eu 
venho de lá agora. 

E a velha sumiu-se na escuridão da noite. 

— Olha que encontro! Ada SE velha e 
um defuncto! O' José, não te cheira aqui a enxofre ? 
Aquillo é alguma bruxa, ou o diabo em pessoa! 
Cruzes! — disse um dos companheiros, com voz 
grossa, que queria parecer firme, 

— Aqui nestas alturas, amigos, não ha por onde 
escolher. Na guerra como na guerra. Vamos ter com 
o morto. 

— Talvez que fosse ceiar com o diabo — observou 
o da voz grossa. Pois fez mal, que, se esperasse por 
nós, ia aconchegadinho. 

— Se morreu de fome, com este paio e esta pinga 
ainda era capaz de resuscitar! — acrescentou ou- 
tro. 

E, discorrendo neste estylo, que não é o do medo, 
mas que ás vezes o encobre, chegaram ao tugurio 
os cinco caçadores. 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 


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— Seja Deus nesta casa — disse José Pedro, ao 
cruzar a porta, tirando o chapéu, e olhando a um e 
outro lado. 

Os outros repetiram: 

— Seja Deus nesta casa—e tiraram tambem os 
chapéus, correndo os olhos em volta. 

Houve um momento de silencio. 

— Não ha aqui ninguem? — perguntou José Pedro. 

— Ha o morto — disse um, apontando para o 
canto mais escuro. 

Os olhos dos recemchegados dirigiram-se todos 
para lá. Num catre estava um vulto deitado, hirto, 
com os pés levantados e as mãos postas, todo co- 
berto com um lençol. 

Na parede, em frente da porta, negrejava um 
crucifixo, e uma candeia, que lhe ficava sobranceira, 
dava luz e sombras — mais sombras do que luz — 
ao sinistro aposento, prolongando na parede a man- 
cha negra ondulante da figura do Crucificado. Um 
quadro, um capricho de Goya. 

— Então vamos passar a noite com este cava 
lheiro? — perguntou o Alexandre, o da voz grossa. 

— Que se quêde em paz com Deus, se elle o qui- 
zer para st—respondeu José Pedro. Tratemos de nós. 

É, dizendo isto, ia fazendo fogo na lareira. 

— Que pobreza de casa! Na arca nem nada! 

— E' que elle metteu tudo no farnel. Não, que a 
viagem é longa!... 


fe 


272 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


A lareira já crepitava, e os alegres companheiros, 
uns sentados, outros encostados á parede, lamenta- 
vam que o catre estivesse occupado por quem já 
não apreciava os regalos e as doçuras da vida. 

— E' que se arreia ao chão; vae para cima da 
manta. Elle já lhe não dóe nada— dizia um creado. 
Cama fôfa ou terra dura — para aquelle é tudo o 
mesmo. Quantas vezes dormiria esse fidalgo no pro- 
prio do chão, para o estranhar agora, depois de 
morto! 

— Mas nós ainda não lhe vimos o rosto!'— e o 
que dizia estas palavras —o Alexandre — rapagão 
vermelho, alto e espadaúdo, approximou-se do ca- 
tre, e levantou o lencol. 

— Caramba! Mala cara tiene! — disse elle, re- 
cuando um pouco, com os olhos pregados no cada- | 
ver. E' grande, e negro como o demonio! Parece 
de pau santo! Isto andou na Serra Morena! 

— Pois se andou, olha, Alexandre, que não enri- 
queceu no officio. 

— Cá está a espingarda do homem! — gritou de 
um canto um dos caçadores. Se ella falasse... 

— Que grande gilvaz elle tem na cara! Agora re- 
paro — continuou o Alexandre, baixando-se para vêr 
melhor — são dois golpes assim — e com os dedos 
fez uma cruz. — E' a Cruz do mau ladrão! 

E; rindo a bom rir, dirigindo-se para a lareira, - 
Alexandre abriu uma grande cuchilla, e dizpoz-se a 
atacar um gordo paio. As borrachas negras tinham 
já saído dos surrões, e ostentavam os bojudos ven- 
tres á luz viva do brazido d'um tronco de azinho, 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 273 


que José Pedro descobrira afinal no pobre alber- 
gue. 

— iintão, Alexandre, tem má cara o nosso pa- 
trão? — perguntou José Pedro. 

— Se tem! Bons ossos é que elle mostra. Sêco 
como um pau! Que pena elle não arranchar á ceia! 
E historias, que aquillo havia de saber! Agora já 
não dá horas, está parado. Pois não sabes o que 
perdes! — disse o faceto latagão, voltando-se para o 
catre, com a borracha já numa das mãos e um grande 
naco de paio na outra. 

— Com os mortos não se brinca — disse José Pe- 
dro, com um tom sêco. 8 

— Elle não tem de que se offender. Até, se me 
ouvisse, havia de agradecer a lembrança... Nisto 
é que elle nunca pôz os beiços — e mostrou o paio. 
Aquellas carnes crearam-se com bacalhau! 

É com uma gargalhada acompanhou o gracejo o 
forte Alexandre. 


HI 


Houve uma pausa. José Pedro, depois das ulti- 
mas palavras do seu companheiro, ficara muito se- 
rio. Os outros rodeavam-n-o, em frente do lar. Vol- 
tando-se para os dois, que lhe estavam mais proxi- 
mos, elle estendeu a mão, como quem vae falar. 

— Parece-me que vocês estão ahi conversando de 
alminhas do outro mundo... 

-— Estavamos, sim... Mas nós não acreditamos. 


Era por falar e por causa do encontro. 
18 


274 CAÇADAS PORTUGUEZAS = 


— Sim, a occasião é propria—a noite escura e 
feia, a velha, o morto alli... O scenario está com: 
pleto. Só faltam as vassouras para as bruxas mon- 
tarem: aqui é coisa que não ha. Emquanto ellas — 
as bruxas — não apparecem por ahi, vou-lhes eu 
contar a historia duma alma do outro mundo, mas 
verdadeira. 

— Verdadeira!? A alma, ou a historia? Como foi 
então? 

— Verdadeira a historia, sim. Estão vivos muitos 
d'esse tempo, que conheceram os actores: o prin- 
cipal foi o José Nogueira de Araujo. Lembram-se 
delle? 

— Se lembramos! Valente homem, que elle era! 
Deixou fama. 

— Pois o caso foi assim. 

— Conta lá, conta lá — disseram todos, e accesos 
os cigarros, ficaram immoveis. 

— Não posso — disse José Pedro — marcar, ao 
certo, quando isto foi. José Nogueira era já velho 
— devia andar pelos sessenta, mas a fibra era ainda 
a mesma. Uma noite, em casa, á ceia, disseram 
deante d'elle que, havia dias, pela volta das duas ho- 
ras da noite, apparecia naquelles sitios uma grande 
phantasma branca, d'uma altura enorme, arrastando 
ferros. Era grande o pavor com tal apparição, e da 
meia noite em deante não havia já quem se atre- 
vesse a sair á rua! 

José Nogueira ouviu com grande attenção a nar- 
rativa, que todos lhe affirmavam ser verdadeira, e, 
sorrindo, disse : 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 275 


— Pois então eu sempre quero vêr a cara á tal 
phantasma. 

— Ora que idéa ! —observaram as senhoras, que 
lhe conheciam o genio, e temiam as consequencias 
da empreza. 

— Que idéa ! Então que tem isto de extraordina- 
rio? D'esta edade que tenho nunca vi uma alma do 
outro mundo. Offerece-se-me agora occasião, e eu 
aproveito-a. Ahi está a minha idéa: é a mais natu- 
ral d'este mundo. A phantasma passa por aqui ás 
duas horas da noite, e eu espero-a. 

— Na janella — arriscou uma das pessoas presen- 
tes. 

— Não. Qual janella, nem meia janella ! Na rua. 
Quero vel-a bem de perto; quero ficar conhecendo-a. 

-—-- Então vamos todos esperal-a. 

— Não, não é preciso incommodarem-se. Deitem- 
se, que cu cá fico de sentinella. Não tenho medo. 

— Mas... 

— Não ha mas. Eu não preciso de companhia. Já 
disse. 

Ninguem mais tugiu naquella casa. Quando o ve- 
lho Nogueira dizia — Já disse — todos sabiam o que 
tinham a fazer — calar-se e obedecer. 

— Como o vento zurra lá fóra! Que noite! Vá lá 
uma golada — disse, nesta altura, o Alexandre, apro- 
veitando o movimento de José Pedro, que estava 
chegando mais para dentro da chaminé o toro de 
azinho. — Ainda bem que nós vinhamos preveni- 
dos. 

- — Nessa noite, escusado é dizel-o — continuou o 


276 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


narrador — ninguem se despiu em casa do José No- 
gueira. Fizeram semblante de se deitar, mas todos 
ficaram nos quartos, de ouvido á escuta, promptos 
a saír á rua, apenas ouvissem vozes, e rumor de 
lucta. 

Approximavam-se as duas horas — a hora da phan- 
tasma. Na rua Ancha estava um vulto, embuçado no 
capote, e encostado a uma esquina. Era elle—o 
nosso homem. 

Duas horas a dar na egreja mais proxima, e a 
ouvir-se um som de ferros, arrastando-se lentamente 
pela calçada. José Nogueira voltou-se logo para o 
lado d'onde elle vinha, principiando a andar nessa 
direcção. 

De repente apparece a phantasma na bôca da 
rua. Era como lh'a tinham descripto. Ao vel-a elle 
parou, e esperou, desembainhando a sua Negra — 
uma espada preta, colubrina, que entrara em muita 
refrega e vira muito sangue. 

Vinha já perto a aventesma. Quando a julgou a 
boa distancia atravessou-se-lhe deante, e mandou-a 
parar. A phantasma não respondeu, e continuou a 
caminhar. José Nogueira deu um passo á frente, 
desembuçando-se todo, e, levando da espada, fez 
segunda intimação. 

— Você pára, ou não pára? 

E como a phantasma não parou, a espada revo- 
luteou, sibilando no ar, e ella, dando um agudo 
grito, veiu a terra. Ao baque, ao ruido dos ferros e 
aos gemidos do homem, abriram-se as portas dos 
visinhos, que acudiram com lanternas. A alma pe- 


.. 
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= 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 277 


nada era um cabo do regimento de cavallaria, alli 
aquartelado, que julgara aquelle disfarce o melhor, 
para realisar umas entrevistas amorosas! O infeliz 
namorado, além da grande queda, que deu das an- 
das em que vinha trepado, tinha um raspão numa 
perna! 

É acabou-se a historia. Ao ferido, corrido de ver- 
gonha, e muito amofinado, quebrou-se-lhe o encan- 
to, e foi curar-se, senão da paixão, pelo menos do 
gilvaz. Os visinhos puderam d'ahi por deante andar 
na rua, a horas mortas, sem receio do ruim encon- 
tro; a familia de José Nogueira ficou socegada, e 
elle, o velho brigão, contando singelamente o caso, 
e referindo-se á sua espada, a Negra— dizia com 
graça: 

— É agora marquem mais uma á preta! 


IV 


A historia acabara-se. O vinho, esse é que não 
tinha ainda saído todo das borrachas dos bons ca- 
cadores, e com longos tragos lhes foram correndo 
as horas desenfastiadas e despercebidas, ao contra- 
rio do que era de esperar, no principio d'aquella te- 
nebrosa noite, tam mal auspiciada. 

E elles — como dê costume — se tinham bom vi- 
nho nas suas borrachas, tambem tinham largo pro- 
vimento de boas historias, alegres, salgadas, e pican- 
tes como o pimentão que lhes temperara os paios, 
e lhes accirrava o appetite de amiudarem as goladas, 


278 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


E o vento continuava a assobiar nos soutos, € os 
lobos, ao longe, uivavam na charneca!! 

Elles estavam bem alli, á lareira. A caçada fôra 
boa, e sentiam-se contentes naquelle desamparado 
albergue, que, comparado com as suas habitações, 
parecia uma caverna de bandidos ! 

A lareira crepitava, parecia rir. Nunca vira tama- 
nha folia, tão ruidosos e joviaes convivas! Afóra o 
grosso tronco de azinho, ardia quanta madeira en- 
contraram á mão, e a casa, com as suas paredes par- 
das de pedra ensossa, estava illuminada como se 
tivesse dentro o sol! 

Subira de ponto a hilaridade; as gargalhadas suc- 
cediam-se: eram atroadoras! Do morto, que alli ja- 
zia, ninguem já se lembrava! E que se lembrasse... 
Elle estava morto. Um morto é um ausente. Está, e 
é como se não estivesse! 

Beberam á memoria de José Nogueira, e depois 
á d'outros e outros, e, finalmente, aquelle que dava 
pelo nome de Alexandre — uma alma damnada, 
como lhe chamavam os seus companheiros, um es- 
pirito forte, como então diziam os francelhos — to- 
mou á sua conta O finado, que jazia hirto, ao fundo, 
no seu pobre catre ! 


Estamos chegados á scena final. Aqui vae, como 
a ouvi contar. O caso deu-se, e a lesão mortal, que 
arrebatou José Pedro ainda moço, na força da vida, 


*” 


CAÇADAS PORTUGUEZAS 279 


se não se originou alli, aggravou-se com as impres- 
sões, verdadeiramente tragicas, d'essa noite terri- 
vel! 

Alexandre continuava com as suas sacrilegas jo- 
cosidades. Chegara ao ponto de offerecer vinho ao 
morto! 

— Vae uma golada, compadre?... Então lá vae 
à sua! 

Neste momento — com espanto e terror de todos, 
o morto revolveu-se no leito, soltou as mãos, esfre- 
gou os olhos, como quem desperta d'um longo e pe- 
sado somno, e sentou-se na cama! Depois, fitando 
o olhar esgazeado nos caçadores, pallidos e attoni- 
tos, ergueu-se, e caminhou direito a elles! 

Aquelles homens, todos destemidos, que não re- 
cuariam facilmente deante de dez ou de vinte, fugi- 
ram, e, José Pedro, o ultimo a levantar-se, achou-se 
sósinho! Defrontaram-se os dois no meio da casa, 
e, por um d'estes impulsos inconscientes, e quasi 
animaes, travaram-se, braço a braço!... 

Era dotado José Pedro de grandes forças, mas o 
inesperado do lance tambem, no primeiro momento, 
lh'as quebrara. Com effeito, quem ficaria alli impas- 
sivel?! A lucta foi desesperada; finalmente, num 
impeto, José Pedro conseguiu levar o outro até á 
porta, deixada aberta pelos espavoridos caçadores, 
e, arrojando-o de si com um supremo esforço, fe- 
chou-se por dentro. E alli esperou que o sol viesse 
illuminar aquella scena, que elle nunca mais esque- 
ceu! Que noite aquela! 

Ainda mal vinha rompendo a manhã, repetidos 


280 CAÇADAS PORTUGUEZAS 


assobios denunciaram-lhe a presença dos compa- 
nheiros. Abriu a porta. 

Eram elles, e muito povo, alvorotado com a nar- 
rativa do estranho successo. Estavam affastados, to- 
dos, em frente da casa, como receiando approximar- 
se! Defronte, a dois passos, estava estendido, e sem 
movimento, um homem. Era o Luiz Preto, o guarda, 
agora realmente morto! 

E este foi o final da caçada dos bons caçadores! 


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